11/08/2015
Canto infanticida
I
Enquanto tomo café
Sob o tic-tac da parede
A água se debate contra a telha,
A vida se debate contra o peito
E a memória,
Eterna agenda,
Poço mais profundo em mim,
Leva-me de volta à velha casa.
Pequena,
Distante,
Sozinha, com seus santos,
Mais nada.
Bocas que mastigam,
Bocas que anseio o que comer.
Nem som, nem chuva,
Sobreviventes apenas.
Enjaulados numa vija pré-projetada (projetada)
Mais um pouco e faria sol.
Mais um pouco e daria certo,
Mais um pouco e seria dia.
Mais um pouco a esperança entrava
E a existência lentamente se estendia
II
Antes tivesse abortado, pensava a mãe.
Antes tivesse matado, pensava o pai.
O que será dessa criança, diziam.
Das paredes ecoavam olhares de penitência, mais nada.
O mundo ficou maior.
Era preciso acreditar
Já não existia mais amor,
O s**o era a única distração.
A família crescia como a fome,
E sob o sol,
Ondas de calor.
Pequenas máquinas,
Em movimentos matemáticos.
A mãe ensinava à filha,
O pai ensinava ao filho.
Os filhos pegavam trilhos
Sementes a descarrilhar.
Mas pelo buraco da parede de terra,
Em aparente teimosia,
A esperança tornava a entrar!
III
Rápido,
Preciso,
Capto no ar um ruído de solidão.
A água cessou.
Agosto tem dessas coisas,
Vidas frias,
Peitos pobres
Pobres pretos
E
Palavras prontas
Fechadas em linhas retas
Incapazes de traduzir a vida!
Chicão