26/01/2022
Para relacionar-se, é preciso abrir mão do conforto. Do conforto de viver exatamente como se quer, deitada eternamente no berço esplêndido das próprias vontades. É preciso abrir mão de que tudo aconteça da forma como você imaginou,
previu,
programou,
estruturou,
sonhou,
desejou.
Porque existe um outro, que não está ali para ser sempre ignorado, ou (con)vencido, tornado operário do seu desejo. Porque existe um mundo, suas condições atmosféricas, sociais, culturais, naturais, contingenciais, o que seja. Há, enfim, muitas variáveis com as quais meu desejo, projeto ou sonho se relaciona com o restante da Criação.
E se as coisas não serão do meu jeito, serão do jeito de quem? Do jeito do outro? Do jeito do mundo? Devo deixar pra lá? Não também, fácil demais essa saída aí. O outro também vai se frustrar, porque as coisas acontecerão no fim das contas de um jeito que não é nem o seu nem o dele, um jeito terceiro, uma tal terceira via ou terceira margem do rio, como preferir chamar... e se não pegou as referências, digo bem claro: a literatura está cheia de exemplos bem melhores do que essas malfadadas letras minhas, aqui.
Quero dizer, então: expectativas são um jeito desejoso de olhar pra própria vida, mas sem lastro no mundo real. Nada pode garantir que tudo acontecerá como você previra, mas nem por isso deixar de antecipar, planejar, é a saída. Aliás, desconfio que não somos sequer capazes disso: deixar de imaginar, antever, sonhar.
Porém, para relacionar-se, é preciso. É precisamente o que acontece ao coração trespassado por espadas: os afetos sofrem na relação, desgastam-se. E isso não é nada ruim, ao mesmo tempo em que é. Não é ruim porque o oposto disso seria desfrutar de um mundo de riquezas em que tudo é do seu jeito, e estar só, sozinha da silva.
Se ninguém se indispõe com você, se todos dizem o que te agrada, você está só. Ninguém te corrigirá quando o erro vier, ninguém te trará uma ideia nova que desafie a sua ou que a complemente, melhore, transcenda. Sem relação não há a fricção com a diferença, e tampouco há aperfeiçoamento, o inesperado, a mudança que nos leva a lugares melhores do que aqueles que nossa imaginação era capaz de criar.
Há que, então, viver a dor do combate entre formas de pensar distintas. Há que se viver isso com o máximo de generosidade possível, humildade e também tesão. Há que se estar disposto a flagelar o coração em troca da partilha; há que se estar disposto a discordar, sentir afetos típicos da discordância (ira, frustração, indignação, humilhação, inveja, ciúmes, apegos), em prol de uma criação coletiva que valha a pena.
Contudo, se você tem um objetivo de vida claro, e esse objetivo é ser feliz, indico: não se relacione. Se tudo o que você quer nessa vida é ser feliz e nada mais; ter seus desejos atendidos e nada mais; g***r dos prazeres da vida até extingui-los ou extinguir-se neles; se você quer que nunca te corrijam ou desafiem, quer receber e nada mais... então não se relacione. Talvez uma caverna cheia de tesouros seja o lugar ideal para você, vai saber. Vai saber também se você tem essa opção né... a maioria de nós não chega a tê-la, uma vez que para criar condições de habitar a própria caverna de tesouros, terá que trabalhar, se relacionar... enfim.
Não há apelo moral aqui: não sei se o melhor na vida é relacionar-se ou não. Provavelmente essa é uma resposta por demais individual para que eu possa dá-la assim, a qualquer pessoa que esteja lendo este texto. Individual e também sazonal, acredito: haverão momentos na vida em que o melhor para você será fechar-se com seus próprios desejos e julgamentos, assim como haverão outros momentos em que o melhor para você e seus objetivos será a relação, a fricção, o encontro com o diferente que é o outro.
Ruim mesmo é lidar com pessoas (ou conosco mesmas, quando somos esse tipo de pessoa) que enunciam uma vontade de relacionar-se, de lidar com o diferente que é o outro, porém aproximam-se das outras pessoas sem nenhuma real vontade de transformar-se, sem abertura para aceitar que o outro pode ter saídas melhores que as suas; ou pessoas que vêem essa condição como algo a ser evitado, porque afinal "errar é muito ruim, é a pior coisa que pode me acontecer, que humilhação" e blá blá blá. Ruim mesmo é lidar com quem não apresenta abertura para criar algo no mundo que será um resultado coletivo e não pessoal. Ruim mesmo é lidar com a gente mesma, quando estamos nesse lugar.
Vejo um mundo repleto de pessoas tentando cooptar outras a serem mera mão-de-obra para a realização das suas vontades pessoais nos supostos "projetos coletivos". Isso me desanima. Dessa perspectiva, o outro é um objeto da sua vontade, e não um sujeito com o qual você realiza algo, em parceria, junto. Infelizmente, muitas pessoas já até se acostumaram a esse lugar de serem objetos e não sujeitos, e assim nunca ousam ser protagonistas de nada, nem das próprias ideias, tornando-se assim repetidores do desejo alheio, "maria-vai-com-as-outras". Essas, para mim, são as pessoas mais difíceis de se conviver. Acostumaram-se a uma inércia quase impossível de se combater de fora: elas precisarão vencer essa batalha de dentro para fora. Afinal, é cômodo apenas aceitar ou negar o que vem de fora, em lugar de arriscar-se a criar algo. Contra essa comodidade, o que podemos oferecer? A vida das pessoas que se dispõem a criar algo, a ser ativo e não apenas reativo, é difícil mesmo, não posso seduzir ninguém com meias verdades em relação a isso.
Resta-nos, então, essa bela dicotomia simbólica: rasgar o coração na relação com o mundo; permitir que trespassem seu afeto as espadas das razões de outras pessoas e da sua própria; ou deitar-se sobre a fortuna de um mundo feito à sua imagem e semelhança? Provavelmente, em se tratando de mundo real, balançaremos eternamente entre essas polaridades, ora mais próximas de uma, ora da outra, até que um eixo mais central e mais estável se fortaleça dia após dia... ou não. E se tudo isso aqui pareceu meio óbvio pra você, é bem isso mesmo, moça. Às vezes o óbvio me pede passagem, no caminho entre a mente, os dedos e a garganta, e eu preciso emprestar minha voz a ele, com essa carinha de fundamento, de base, de estrutura e fundação das relações humanas que ele tem. Me seduz, fazer o quê?
Elisa Taborda