18/03/2020
O gozo místico
Longe do senso comum, gozo não é sinônimo de orgasmo. Freudianamente falando, a noção que mais se aproxima de gozo é Genuss, do alemão, que refere-se a uma satisfação mórbida em termos de prazer, que eleva a intensidade pulsional. Em Lacan (1974), trata-se de prazer e desprazer, havendo modos de gozo que podem ser identificados de acordo com a interseção entre os registros (real, simbólico e imaginário).
O gozo feminino, ou gozo Outro, toca no real, ou seja, no impossível de simbolizar. Trata-se de um ato corporal e psíquico, discursivo, do qual emerge o significante "Deus". Nesse sentido, o gozo feminino transubstancia-se em gozo místico.
Lacan (1972-1973), em "Deus e o gozo d’Ⱥ Mulher", diria: "Esse gozo que se experimenta e do qual não se sabe nada, não é ele que nos coloca na via da ex-sistência [via do gozo feminino/\místico: 'para além do falo']? E por que não interpretar uma face do Outro, a face Deus, como suportada pelo gozo feminino?"
Uma passagem de "O castelo interior" (1577), de Santa Tereza d'Ávila ilustra o que foi colocado: "A dor foi tão grande que gritei;
Mas ao mesmo tempo senti uma doçura tão infinita
Que desejei que a dor durasse para sempre."
**Renata Gatto** .
Imagem: "O Êxtase de Santa Teresa" ou a "Transverberação de Santa Teresa", escultura de Gian Lorenzo Bernini
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