24/02/2023
4 Da série Infância …
Em um mundo letrado se alfabetiza para letrar
O processo de alfabetização corresponde à aprendizagem da leitura e da escrita, que é nomeado como sistema alfabético. O sistema alfabético é um sistema notacional que envolve não apenas a memorização de letras e símbolos (caracteres) mas, sobretudo o envolvimento de sistemas mentais complexos, porque envolvem regras e propriedades sobre como as letras e símbolos devem ser organizados e como eles funcionam. Já o letramento corresponde ao desenvolvimento de habilidades que permitem ler e escrever diferentes tipos e gêneros literários de forma adequada e eficiente nas diversas situações as quais se apresente.
As crianças nascem no mundo letrado. Elas vão o conhecendo e se apropriando conforme nós, os adultos, as apresentamos. Tudo ao redor informa e comunica algo ou alguma coisa. São textos que não necessariamente apresentam letras, mas que alfabetizam e letram. Por exemplo, os objetos presentes no quarto do bebê indicam que é um quarto de criança pequena com a função de acolher e estimular seus sentidos. Já os objetos presentes na sala de estar comunicam que é um cômodo da casa para assistir televisão, para descansar, para brincar e/ou para apenas receber visitas.
A atenção e o estímulo dos adultos sobre as descobertas das crianças é que vai corroborar para o vínculo ser positivo ou negativo. A criança quer conhecer, explorar, vivenciar, sentir os objetos mesmo quando, ainda, não fala. O adulto precisa contextualizá-la sobre as informações presentes em seu entorno. Do quarto decorado com afago ao mundo ao qual estamos imersos. Inicialmente nomeando os objetos, informando sobre suas características, funções, utilidades, classificação que a criança vai conhecendo e reconhecendo o mundo letrado e, portanto, sendo alfabetizada.
A apreciação do mundo pelos órgãos do sentido ao ouvir (audição), ver (visão), manusear (tato), cheirar (olfato) e ‘comer’ (paladar) mesmo que seja um pequeno brinquedo possibilita a experimentação do ambiente em que se encontra. Claro, que não vamos deixar a criança colocar tudo o que encontrar na boca. Não é mesmo? Podemos apresentar um objeto, por exemplo uma caneca, uma xícara e um copo para uma criança de dois anos e realizar comparações entre cores, modelos, formato, quantidades, funções e informar as situações em que podem ser utilizados.
Acontece que, boa parte das vezes, desacreditamos na capacidade de aprendizagem da criança ou ainda achamos que tudo é tão óbvio que não sentimos a necessidade de apresentar os mais diversos objetos, situações, locais que envolvem a vida diária. Ou até mesmo o nosso desprazer em ler e escrever por que a escola nos foi rude ou também a rotina atual estafante. E outros tantos motivos que nos privam de sermos os atores no grande espetáculo de aprendizagem na vida das crianças. O que pode alimentar um círculo de desprazer dos pequenos em desenvolvimento com relação à aprendizagem devido a desmotivação dos adultos.
O vínculo positivo dos pais com a leitura influencia o desejo dos filhos em querer saber ler? Essa resposta é sim! Sabe-se que o exemplo fomenta o desejo das crianças em querer saber ler. Mas, o vínculo positivo dos pais em auxiliar a leitura do mundo pode ser ainda mais contagiante e promissor para a alfabetização e o letramento. Todo o trajeto desde o nascimento até o processo de alfabetização escolar perpassa por explorar ambientes. Claro que a leitura de livros para crianças desde bem pequenas promove a curiosidade pelas letras. Entretanto, nem sempre há a disponibilidade de tempo ou livros ou ainda não há a vontade de ler pelos adultos para as crianças. Daí por que não realizamos a interlocução entre as imagens e as palavras presentes em um panfleto de supermercado? Esta simples ação de leitura aguça a vontade de querer entender o que está escrito, de compreender a relação entre imagens, símbolos, palavras e números.
Os pais não precisam ser leitores vorazes e nem tão pouco precisam falar que ler é difícil ou maravilhoso. Mas, precisam apresentar o ambiente ao entorno com mais carinho partindo do pressuposto que a criança está a pouco tempo neste mundo e almeja com tenacidade desvendá-lo, conhecê-lo, apreciá-lo. Vamos ampliar os horizontes dos pequenos desde de bem pequenos para que o processo de alfabetização seja tênue, leve e o mais próximo do natural. Afinal, vivemos em um mundo letrado que nos apresenta uma série de informações que é parte do processo de alfabetização prévio à alfabetização sistematizada escolar.