22/02/2022
Quando uma pessoa busca a psicoterapia porque pensa ou sente que não encontrou o seu sentido de vida (ou o perdeu) e portanto não está feliz, satisfeita ou realizada, ela normalmente traz uma demanda muito interessante: parece que, em grande parte das vezes, há uma espécie de pedido para que se possa iniciar uma busca do tipo “caça ao tesouro”, para LOCALIZAR o sentido. De uma forma geral, o processo se guia por ideias do tipo: “encontramos uma pista por aqui” ou “deve estar bem ali embaixo daquela pedra”, como se esse sentido fosse algo a ser encontrado fora, ou até mesmo dentro, mas já pronto, constituído.
Este processo parece apenas uma má interpretação do que realmente signif**a estar em busca de um sentido ou construir o sentido, mas é pior. Junto a este “erro” de compreensão, temos empacotados problemas que acarretarão dificuldades de adesão ao processo, de sustentação do processo e, sobretudo, um problema que será reforçado pelo despreparo de vários clínicos, que também tratam do sentido desta maneira.
O sentido da vida é algo que se conecta à escolhas e posicionamentos. Não é possível buscá-lo EM algum lugar. Ele se encontra junto ao fazer, às responsabilidades. Conheci e lidei com muitas pessoas que já pararam a vida para encontrar o que seria o seu sentido, tentando largar relações, afazeres profissionais ou vivenciando um ano sabático na Europa. Não que eu tenho algo contra qualquer uma dessas vivências. Entretanto, me parece que pessoas que se mostram “mais encontradas com seus sentidos” não LARGARAM responsabilidades, mas ao contrário: ASSUMIRAM-NAS.
As responsabilidades nos enlaçam à existência, pois são a principal maneira de vínculo com a realidade e, assim, estar no mundo deixa de ser um marasmo absoluto. Daí não se encontra o sentido… daí o sentido brota… como um acontecimento.