27/07/2022
Colheres
Quem conhece sabe bem
E quem não, vai lá saber, uai!
Só sei que meus mais próximos sabem e sempre uso essa medida
Ser uma “spoonie” não é mérito, não
Infelizmente é sina
Mas agradeço por quem fez a primeira comparação
Acaba ajudando a gente
Hoje mesmo, por exemplo
Abri os olhos e já logo avisei
O dia vai ser daqueles
Porque amanheci sem colher nenhuma
Estão no negativo, mais uma vez…
A teoria das colheres nasceu em 2003, quando Christine Miserandino estava com uma amiga em um café. Ao tentar explicar pra outra como era conviver com uma doença crônica, acabou usando essa metáfora maravilhosa e usou um blog para compartilhar essa vivência. O assunto foi tão bem interpretado por quem leu, que viralizou. Hoje, dentro do universo das comunidades que sofrem com esse tipo de patologia, essa é uma terminação conhecida e super popularizada (e divulgada!). Aqui, busco fazer esse papel: o de contar pra vocês um pouco do que significa ser uma “colherinha” (tradução e adaptação que eu mesma, euzinha, fiz e trago com carinho! O título original é “spoonie”). Na comparação que a Christine usa (deixo o link original nas referências para que você leia o relato completo dela), as colheres representam a energia que o paciente crônico dispõe no dia. Ela mostra que, enquanto uma pessoa saudável começa o dia com 20, 30 colheres, o doente começa o dia com 5. Não só isso, e acho que o mais importante na fala dela, é que o relato mostra onde e como gastamos as colheres na nossa rotina. Levantar da cama? Uma colher. Trocar de roupa? Outra. Escovar os dentes? Mais uma. Preparar o café da manhã? Vixe, é a penúltima. E agora?! Só tem mais uma e eu ainda tenho o dia inteiro pela frente. E é EXATAMENTE assim que nos sentimos. Essa verdadeira corda bamba em que precisamos manter o equilíbrio, sem direito a equipamento de proteção ou à rede pra nos segurar se cairmos. Existem dias que até conseguimos ter um pouco mais de colheres, mas outros… Outros dias amanhecemos sem colher alguma. E, sem nada, vamos usando a energia que não temos. Chega a crise, chega o hospital, chega a morfina, a internação… Não é exagero. Já passei por isso e tenho absoluta certeza que qualquer spoonie/colherinha lendo isso vai se relacionar imediatamente. Para conviver com essa questão, precisamos aprender a guardar colheres e a usá-las sabiamente. Não é fácil. Requer desprendimento, autoconhecimento, amor próprio em doses cavalares e um respeito imenso pelo nosso próprio bem estar. Dizer não para compromissos, dar maiores pausas entre uma atividade e outra, escolher funções no mercado de trabalho que se adequem ao que nosso organismo aguenta (mesmo que isso mude nossa vida financeira), respeitar o que o corpo pede, aceitar a necessidade de medicação contínua, pedir ajuda pra sentar ou levantar, comprar comida pronta, entre inúmeras outras coisas. Na sociedade atual, fazer tudo isso é muitas vezes retratado como egoísmo, incapacidade de produzir, preguiça, frescura, hipocondria, corpo mole… Contar para todo mundo sobre a teoria das colheres certamente ajuda a reduzir esses estigmas todos - como se não bastassem as dores e dissabores da própria doença, né? - e, com isso, melhorar as relações que temos com aqueles ao nosso redor, em especial os que mais amamos. Ao dizer pra alguém que conhece a história: “hoje estou sem colheres”, estamos dando um resumo de diversos sintomas e situações, o que facilita bastante o entendimento e respeito mútuos sobre a questão. No fim, a teoria das colheres é bem isso: uma ferramenta didática e bastante lúdica para poder explicar para o mundo como funcionamos. Se o outro vai escolher aceitar ou não essa situação, já não é mais nossa preocupação. Mas se você encontrar pessoas que compreendam a teoria, vai ser um divisor de águas na sua vida. Até porque, sem dúvida, o tempo em que ficarem juntos (presencial ou virtualmente) será muito mais valorizado… afinal, todos os envolvidos vão saber que você escolheu usar ali suas colheres. E não há maior demonstração de amor que essa para quem é uma colherinha/spoonie.
Quer conhecer mais sobre a Teoria das Colheres?
Aqui está um link para a história original: https://apjof.weebly.com/artigos-informativos/a-teoria-da-colher