20/04/2026
O CORPO
(Por Claudinei Camolesi)
Meu corpo já atravessou momentos inóspitos demais.
Nasceu da mistura bruta de outros dois corpos.
Antes de ver a luz, foi esmagado dentro de outro.
Quando nasceu, era só fraqueza — incapaz de sobreviver sozinho.
Precisou de outro corpo para não morrer.
Cresceu e enlouqueceu.
Desejos surgiram como febre, cheiros brotaram do nada, tudo era confusão e impulso.
Adulto, eu o usei sem piedade: trabalho, excessos, prazer, loucura.
Gastei cada parte como se fosse infinita.
Na meia-idade, veio a cobrança.
Dores, doenças, desgaste.
Médicos, remédios, consertos inúteis.
Velho, virou um peso.
Fraco, lento, falho.
De novo vulnerável — como no início.
Então entendi: nunca estive vivo de verdade.
Desde o primeiro instante, eu já estava morrendo.
O fim chegou.
O corpo falhou. Apagou.
Fui jogado numa caixa e enterrado.
E nem ali acabou.
Meu corpo foi invadido, consumido, destruído por dentro.
Virou alimento, gás, resto.
No fim, nada.
Como sempre foi.