19/11/2020
MÊS DA CONSCIÊNCIA NEGRA
CARTA DE REPÚDIO E COBRANÇA DE POSICIONAMENTO ACERCA DO OCORRIDO DO DIA 09/11
Chegou ao conhecimento do corpo estudantil da Unesp Assis, através de uma estudante que preferiu não se identificar por medo de represálias, um ocorrido na aula do dia 09/11 às 14h30 do primeiro ano de psicologia, quando o professor Eduardo
Galhardo, que estava compartilhando tela com os estudantes da turma abriu seu WhatsApp onde deixou a mostra um grupo de sua participação cujo nome seria "AMIGOS DA SENZALA", além de, segundo relato da aluna, o mesmo em outras
ocasiões utilizar-se de termos em desuso como “mulato” para se referir à pessoas que fazem parte da população negra, tal desconforto fez com que a aluna encaminhasse não só ao corpo estudantil seu descontentamento como também à ouvidoria da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” uma narrativa dos acontecimentos. Gostaríamos de reiterar que o professor ocupa o cargo de assessor dentro da coordenadoria de Permanência Estudantil (COPE), é coordenador da TV UNESP Assis, além de estar envolto de projetos realizados junto à prefeitura municipal e Núcleo de Ensino, e portanto lida diretamente com as políticas internas de auxílio à estudantes em situação de vulnerabilidade socioeconômica, em sua maioria oriundos de políticas afirmativas da Unesp, e que ingressam através do sistema de reserva de vagas (SRVEPB+PPI) desde 2014 quando tal política afirmativa foi implementada. A população brasileira é atualmente composta por 56,10% de pessoas que se declaram negras, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua do IBGE. Dos 209,2 milhões de habitantes do país, 19,2 milhões se assumem como pretos, enquanto 89,7 milhões se declaram pardos. Os negros – que o IBGE conceitua como a soma de pretos e pardos – são, portanto, a maioria da população.
Estruturado e perpetuado na sociedade a partir da desvalorização e restrição de acesso dos negros a oportunidades de ascensão social, o racismo é histórico no Brasil, consolidado por práticas e políticas que, ao longo da história do país, contribuíram para a marginalização da população negra. Nem sempre esse racismo ocorre de maneira direta, consciente: há também um processo institucionalizado e culturalmente enraizado que organiza as relações sociais no Brasil, chamado “racismo estrutural”. A pesquisadora Márcia Lima, que coordena o Núcleo Afro-Cebrap no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), explica que o racismo atua em diversas dimensões, sendo a estrutural uma delas. — É um fenômeno estruturante da sociedade. Ele atua em diversas dimensões e camadas e pode ser observado em diferentes níveis. Mas entendo que a distinção entre estrutural e institucional busca demonstrar que os diferentes níveis da sociedade instrumentalizam o racismo de maneira diferente. O mesmo acontece quando falamos
do racismo cotidiano, nas situações de interação pessoal — define Márcia, que também é professora do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP). Nos últimos dias temos visto diversas demonstrações do funcionamento de uma
sociedade pautada na ideia do negro como um “não humano”, a começar pela entrevista da cofundadora do Nubank cedida ao programa nacional de TV Roda Viva, passando pela demonstração de não entendimento do que foi a escravidão e seus desdobramentos por parte do político brasileiro Fernando Haddad (PT) que publicou em seu Twitter recentemente “brincadeiras” com desdém a respeito do que foi a “Casa Grande”, sendo assim pontuamos nesta carta que não aceitaremos nenhum tipo de perpetuação do preconceito por parte de ninguém e seremos menos amistosos ainda quando tal conduta partir de um docente com tantas responsabilidades perante a comunidade e à
Permanência Estudantil de estudantes pobres e pretos. Não queremos que o caso seja esquecido com um pedido de desculpas como ocorrido nos casos citados acima e que escancaram a leviandade com que casos de racismo são tratados em nosso país que é inegavelmente mal resolvido com a escravidão, queremos um posicionamento da comunidade acadêmica e que situações como essa sejam punidas para que não mais ocorram, são mais de 500 anos da população negra sofrendo nas mãos de homens brancos e não podemos deixar que o racismo se manifeste sem consequências dentro das nossas universidades públicas, que deveriam ser espaços de inclusão, diversidade, pensamento crítico e respeito. Reiteramos o repúdio a tais acontecimentos e exigimos posicionamento da direção acerca do ocorrido, numa demonstração de reconhecimento perante a gravidade do fato, restando assim o questionamento do por que qualquer pessoa faria parte de um grupo cujo nome é “AMIGOS DA SENZALA”, no tocante à branquitude do professor Eduardo Galhardo, é necessário deixar registrado que a senzala, local de tortura e extermínio da população negra, jamais teve ou poderia ter qualquer “amigo “ BRANCO.
Assinam esta carta:
1. Conselho de Moradores da Moradia Estudantil – Assis
2. Centro Acadêmico de História de Assis “Eduardo Bastos de Albuquerque” - Chapa
Angela Davis
3. Coletivo Matheusa Passarelli - Assis
4. Centro Acadêmico de Psicologia de Assis “CAPSIA” - Gestão Nise da Silveira
5. Diretório Acadêmico "XVI de Agosto" da Unesp de Assis
6. Centro Acadêmico de Letras “Macabéa” - Gestão Pagu
7. Centro Acadêmico de Biologia “3 de Setembro” - Chapa Diversitatis
(IBILCE/UNESP)
8. Centro Acadêmico de Ciência da Computação (IBILCE/UNESP)
9. Diretório Acadêmico ‘Fernando Costa” - Gestão Retomada (FCAV/ UNESP)
10.Centro Acadêmico de Relações Internacionais “Diplomata Sérgio Vieira de Mello”
(FFC/UNESP)
11.Diretório Acadêmico da Zootecnia “Prof. Dr. João Barrison Villares”
(FMVZ/UNESP)
12.Diretório Acadêmico da Medicina Veterinária “Walter Maurício Corrêa” - Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da UNESP/ Botucatu
13.Centro Acadêmico de Física “Erwin Schrödinger” (IBILCE/ Unesp)
14.Diretório Acadêmico da Faculdade de Engenharia de Bauru (FEB/ UNESP)
15.Centro Acadêmico “Osamu Shimoura” - CAOS
16.Centro Acadêmico de Ciências Econômicas “Celso Furtado”- CACEF
17.Diretório Acadêmico “Waldemar Saffioti” - DAWS
18.Centro Acadêmico de Ciências Farmacêuticas - CACIF
19.Centro Acadêmico de Cultura e Estudos em Letras “Paulo Leminski” - CACEL
20.Centro Acadêmico da Engenharia Química - UNESP Araraquara
21.Centro Acadêmico Florestan Fernandes - Centro Acadêmico de Ciências Sociais
22.Centro Acadêmico de administração Pública “Murilo Rosendo da Silva”
23.Diretório Acadêmico 03 de Maio - FCT UNESP
24.Centro Acadêmico de Relações Internacionais Diplomata Sérgio Viera de Mello
25.Centro Acadêmico de Terapia Ocupacional Rita de Cássia Tibério Araújo
26.Centro Acadêmico de Química “Laerte Miola” (IBILCE/UNESP)
27.Centro Acadêmico da Tradução (IBILCE/UNESP)
28.Centro Acadêmico de Letras (IBILCE/UNESP)
29.Diretório Acadêmico FCA (FCA/UNESP)
30.Centro Acadêmico de Direito “André Franco Montoro” (FCHS/UNESP)
31.Centro Acadêmico de Relações Internacionais “João Cabral de Melo Neto”
(FCHS/UNESP)
32.Centro Acadêmico de Serviço Social “Rosa Luxemburgo” (FCHS/UNESP)
33.Coletivo Negro Kimpa, UNESP Bauru
34.Centro Acadêmico de Comunicação "Florestan Fernandes" (UNESP Bauru
35.Centro Acadêmico de Artes Visuais-Chapa Artemísia (CAAV/UNESP)
36.DIRETÓRIO ACADÊMICO DE MEDICINA VETERINÁRIA "Walter Maurício
Corrêa" - Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da UNESP/Botucatu
37.Centro Acadêmico Pirajá da Silva (CAPS) - Faculdade de medicina da
UNESP/Botucatu
38.Diretório Acadêmico "Maria Luiza Poiatti" (Unesp Dracena)
39.Centro Acadêmico de Direito "Professor André Franco Montoro" (UNESP Franca)
40.Moradia Estudantil da UNESP Franca
41.Diretório Acadêmico XI de Abril da UNESP de Ilha Solteira
42.Centro Acadêmico de Fisioterapia "7 de maio" - CAF (Unesp Prudente)
43.Centro Acadêmico da Pedagogia "Wilson Cantoni" (IBILCE/UNESP)
44.Centro Acadêmico da Matemática "Évariste Galois" (IBILCE/UNESP)
45.Centro Acadêmico de Fisioterapia "13 de outubro" - FFC (Unesp Marília)
46.Centro Acadêmico de fonoaudiologia (CAfon) Unesp Marília
47. Centro Acadêmico "Aiguara" de Ciências Biológicas - Chapa Chico Mendes (FCL Unesp Assis)
48. Centro Acadêmico IX de Novembro - FCE Unesp Tupã
49. Centro Acadêmico Flávio de Carvalho - Unesp Bauru