18/07/2023
SOMOS TODOS “CHORÕES PROFISSIONAIS”?
Você vai descobrir logo: nós, professores, reclamamos muito da nossa profissão. Reconheço: há certo narcisismo em toda reclamação. Nossa vaidade exige que até nossos problemas sejam os maiores do mundo. Ninguém sofre tanto como o professor, pelo menos na nossa versão de professores. É preciso um pouco de perspectiva. Cada função tem uma carga positiva e negativa a considerar. Os médicos são despertados, com frequência, no meio da noite por pacientes ansiosos. O erro de um médico leva à cadeia. O engano do engenheiro pode tirar vidas. Você se acha tenso cuidando da prova de 45 adolescentes? Imagine a tensão do controlador de voo com 45 aviões piscando na sua tela. Seu aluno é difícil? Imagine a função do responsável por um presídio. Alcoolismo, suicídio e outras formas de escape de funções estressantes são mais frequentes entre médicos do que entre professores. Só há uma reclamação comum a todas as profissões: ganha-se pouco em troca do esforço.
Se você está começando, a maioria desses problemas não aparecerá de imediato (fora o salário). Por exemplo: é provável que você tenha desenvolvido certa curiosidade como aluno sobre o funcionamento do conselho de classe. O que será que eles discutem lá dentro? Então, o primeiro conselho de classe será como entrar no “Santo dos santos”, a parte mais cheia de mistério e força do Templo de Jerusalém. Profissionais, adultos, discutem e votam o destino de muitos, por vezes centenas, jovens estudantes. Como transcorrerá isto? Eu diria que de muitas formas. Às vezes, são muito boas. Consigo uma visão mais ampla do aluno. Sei que ele é preguiçoso em Matemática, todavia adora Português. O conselho pode ser (e tantas vezes foi para mim) uma chance de conhecer mais meu aluno e ser mais justo com ele. Mas, muitas vezes, o conselho é ruim mesmo, cansativo, demorado, com mais fofocas pessoais sobre os alunos do que debates pedagógicos. Alguns professores deixam claro que o momento do conselho é uma vingança pessoal contra alguns alunos. Outros, em redes de ensino pagas, negociam sua permanência no cargo aprovando todos e defendendo a direção. Alguns deixam claro que não conhecem absolutamente ninguém. Com o tempo, você deixará de amar conselhos de classe. O mistério está desfeito. Resta o cotidiano…
Talvez isso seja o mais difícil de definir. Como numa relação, o começo tem dificuldades, mas predominam as descobertas. Você, pela primeira vez em família, escuta alguém lhe chamar de “professor”. O título é algo notável. Implica respeito. Na rua, uma senhora aponta para você e anuncia: você dá aula para minha filha. Isso é bom no começo. Mas preciso predizer aqui: haverá um dia em que você não ouvirá você dá aula para minha filha, mas… você deu aula para minha mãe. Segundo um professor meu da universidade, o dramático é quando você ouve: o senhor deu aula para minha vó…
Este é o ponto para avaliar uma função. Vale a pena de verdade? Difícil responder com uma palavra apenas. No entanto, é preciso lembrar que toda função entra num ritmo de repetição. Quase todo professor passará por muitas escolas. São raros os que f**am a vida inteira em uma única instituição. Seja por escolha do profissional ou da mantenedora, seja por resultado de um concurso ou casamento, seja por mudança ou tédio: você peregrinará por muitas instituições. A cada nova instituição, especialmente nos anos jovens da carreira, você sentirá renovações. Algumas coisas são melhores do que na experiência anterior. Mas haverá um momento sério e dramático que quase nada novo se apresentará.
Todos nós procuramos uma zona de conforto. Desejamos coisas que transmitam segurança. Isso implica, quase sempre, que você entrará num momento em que a repetição dominará sobre a criação. Claro que, alguns colegas, reagindo ao declínio físico e mental, bradarão com energia que, apesar da idade, são muito mais dinâmicos que muito jovem professor. Fuja deles: esta frase é um sintoma claro do fim…
A zona de conforto ocorre de muitas maneiras para o professor. A primeira é que você estereotipa, padroniza os comportamentos. A aluna que nada faz, o “nerd”, a aluna genial, aquela que se insinua para os colegas, o brigão, o esforçado, o bonitinho, o riquinho, o do fundão, o de letra incompreensível, o reclamão, o psicopata: todos estarão em moldes conhecidos depois de uma década ou duas. Alguns professores chegam a confundir signif**ado e signif**ante: “todo Rafael para mim é bagunceiro”… ou “toda Ludmila é estranha”… O mesmo ocorrerá com colegas, diretores, orientadoras vocacionais, semana de planejamento, conselhos de classe e pais furiosos. É quase automático. A luz original dá lugar ao clichê.
A outra forma de “acomodação” é fruto de certa sabedoria. Um jovem professor começa a carreira com ambiguidades sobre qual lado da trincheira ele habita. Os jovens se escandalizam quando observam um velho colega gritando com um aluno, porque uma parte deles ainda tem raiva dessas histerias. Um jovem professor é, em parte, um velho aluno. Inevitavelmente, a maioria, por experiência ou corporativismo, passa para o outro lado. Torna-se, para o bem e para o mal, inteiramente professor.
O que acontece? Diminui, sem dúvida, a vontade de mudança radical. Na maioria de nós, essa vontade acompanha os anos ambíguos da juventude. O jovem professor ensina mais do que sabe. Signif**a que ele tem uma energia superior tanto ao seu conhecimento como a sua capacidade de transmiti-lo. Vamos percebendo que as coisas mudam pouco, ou lentamente, ou não mudam.
Vou dar um exemplo. Tive um orientando que escrevia mal do ponto de vista da clareza e da regra formal. Assustado com o resultado diante de uma banca, passei dias com ele corrigindo, linha a linha, a bendita dissertação. Fiz o que, profissionalmente, seria um serviço de revisão. Não era minha função, mas decidi que era o que eu faria. Deu muito trabalho. Líamos a frase em voz alta para ver se ela tinha adquirido, enfim, sentido. Feita a defesa, dois professores elogiaram o texto, dizendo que era raro um texto daquela qualidade no mestrado. Resposta do meu orientando: “É, mas meu orientador acha que eu escrevo mal”… Vontade de esganar o infeliz. Impulsos homicidas afloram com intensidade. O que aconteceu? Mesmo sabendo que isso era um caso isolado, foi difícil indicar soluções de texto na próxima dissertação ou tese. Em determinado momento, todo professor que eu conheço sente que prega no deserto, que fala para ninguém, ou que é pouco efetivo o que faz. Quando isso se repete ao longo de muitos anos, f**a difícil, muito difícil mudar de atitude.
Em algum momento, somos invadidos pelo “grande cansaço”. Não é apenas o cansaço físico que, sim, aumenta ano a ano. Mas é um cansaço com o próprio essencial da educação. Claro que a maioria não vai declarar isso. Pega mal falar que não vale a pena. Em público, especialmente diante de pessoas com cargos na instituição, anormal é dizer o quanto você se entusiasma hoje mais do que há 35 anos. Exemplo muito concreto: as primeiras provas bimestrais que eu corrigi foram lidas logo após o término da avaliação. Eu estava muito curioso para saber como eles tinham ido. Claro, como todo jovem, tinha também colocado uma questão de avaliação das aulas que eu lia com avidez. Hoje, demoro mais para ler provas. Tento sempre corrigir com a honestidade e o rigor, mas confesso que a pilha diminui mais lentamente do que eu gostaria.
Isso, lógico, deve ser comum a todas as funções. É preciso dizer a quem quer seguir qualquer carreira: há momentos de cansaço estrutural. Atinge mais a uns do que a outros, mas quase ninguém está isento. No entanto, preciso também dizer que, comparando com outras funções, as que lidam com seres humanos em formação vivem isso em grau menor. Aquele peso que Kafka coloca nos burocratas da sua obra, aquele tédio pétreo e uniforme, é quase impossível no magistério.
Lidar com jovens é lidar com a novidade. Quem trabalha com crianças e adolescentes, ou mesmo com jovens adultos, descobrirá que está mais atualizado com gírias, com aparelhos eletrônicos, com cantores e outras coisas que a média das pessoas com a mesma idade. Sim, existe cansaço e existe repetição, mas sejamos justos: grande parte desse cansaço pertence à vida e não ao magistério em particular.
Há funções de criação (como pintores ou compositores) que resistem à aposentadoria. Quem cria, em geral, morre criando e encontra sentido nisto até o final. Pensando em gênios de primeira linha, como Beethoven e Monet, eles vão até o fim lutando e produzindo. Beethoven surdo e Monet cego, dois impedimentos para suas funções de músico e pintor, lutaram com energia até o momento derradeiro. Precisavam trabalhar porque aquilo era mais do que trabalho, era vida e era sua comunicação consigo e com o mundo.
No outro oposto disso, estão as funções repetitivas, mecânicas e mal pagas. É o operário de Tempos modernos de Charles Chaplin, que interrompe o que faz no instante exato do apito de fim de expediente. É o burocrata cinza que conta os dias e meses para a aposentadoria, carimbando e morrendo um pouco a cada vez. São zumbis que morreram há anos, porém aguardam o laudo oficial chamado aposentadoria.
O magistério encontra-se no meio desses dois polos. Por um lado, contém criação, invenção, lida com o novo e com o conhecimento. É algo vivo porque implica sensibilidades do espírito e é renovado pela própria renovação dos alunos. Todo professor é obrigado a dar respostas originais ao desafio de ensinar e, mesmo sem o traço da Nona Sinfonia ou das Ninfeias do impressionista, fazemos sons e criamos cores muito interessantes.
Por outro lado, há algo de repetitivo e de burocrata no magistério. Diários, médias, relatórios, padrões, reuniões: isso nos empurra para baixo, aproxima-nos do mecânico-burocrático. Os baixos salários também nos solidarizam com o operário de Chaplin.
Assim, estamos entre os artistas e os burocratas, pagando nosso preço a cada um destes universos. Pesquisadores de ponta de grandes centros, que também dão aulas, conseguem usufruir um pouco mais do lado artístico criador. Um professor de ensino médio que tem 60 horas semanais de aulas consegue entender mais o burocrata. No meio, a maioria de nós.
Leandro Karnal