22/03/2024
A linguagem, para Lev Vigotski, é um instrumento de pensamento, do mesmo modo que os dedos da mão são instrumentos matemáticos quando uma criança se defronta com uma questão aritmética que não é capaz de dar conta; usa os dedos para somar sete e dois, por exemplo; quando a soma aritmética excede a quantidade de dedos que possui, a criança, para resolver a equação, precisa dos dedos de um colega, usar os dedos de seus pés, criar um sistema de contagens usando objetos, dentre outras possibilidades de ação.
O adulto que interroga a tela de projeção durante os momentos duvidosos do filme, grita com a TV durante uma partida esportiva, faz rabiscos pouco legíveis durante uma aula complexa e amarra um cordão colorido em seu indicador para lembrar de tirar as roupas do varal também ilustrariam esta relação entre signo e consciência, para o autor.
Não se trata aí da questão da referencialidade, nem do problema da estruturação do mundo pela estrutura da língua. Colocar o problema da relação pensamento-linguagem, em Vigotski, é considerar certas modalidades do discurso concreto, nomeadas de egocêntricas pelo autor, como ferramentas para colocar problemas e encaminhá-los.
Pedro confidencia a João o desejo de largar o trabalho; escuta de João que deveria manter seu vínculo com a empresa pois, em seu campo de atuação, está difícil encontrar um emprego que pague tão bem – temos aí uma conversação dialogal (pois implica dois locutores) e dialógica (pois implica dois enunciadores, dois pontos de vista); num cenário em que João “se pergunta” se deveria largar o trabalho e, no instante seguinte, renuncia ao pedido de demissão, temos um monólogo, um texto monologal mas, ainda assim, dialógico (pois a tensão dos dois pontos de vista permanece).
Propomos a fala egocêntrica como um fenômeno de natureza semelhante ao do segundo caso.
A premissa diretriz desta proposta é a de que o pensamento, assim como a enunciação, é uma atividade dialógica. Não apenas a enunciação é polifônica e intertextual, mas o é também a própria atividade psicológica implicada no ato de fala – não mais uma entidade mental unitária, mas pluralidade discursiva.
Jameson Thiago Farias Silva
CRP 19/3311