06/08/2026
Eu já tô de bode da polêmica do bode da Xuxa.
Desde 1973, quando explodiu nacionalmente com o grupo Secos & Molhados, Ney Matogrosso sobe aos palcos com figurinos ousados, maquiagem, sensualidade e uma liberdade artística que revolucionou a música brasileira. Foi criticado, censurado e desafiou padrões, mas hoje é justamente celebrado como um dos maiores artistas da nossa história.
Agora, basta uma mulher de 63 anos usar um figurino semelhante ao estilo que sempre marcou sua carreira para que surja uma onda de indignação.
Percebe a diferença?
Quando um homem exibe seu corpo, costuma ser chamado de artista, ousado ou transgressor.
Quando uma mulher madura faz o mesmo, ainda é julgada, policiada e cobrada por uma suposta "decência".
O problema nunca foi a roupa.
O problema é que ainda há quem acredite que o corpo feminino tenha prazo de validade.
Enquanto aceitarmos que homens envelheçam com liberdade e mulheres envelheçam sob vigilância, o debate não será sobre figurinos. Será sobre desigualdade.
Mas a fogueira continua acesa, então vai aqui mais lenha.
É a velha nova história: a Santa Inquisição caçando pecadores. Alguém precisa ser o bode expiatório da vez para carregar os pecados de quem caça, enquanto o resto do rebanho emana pureza.
Xuxa tem 63 anos.
Primeiro pecado: é rica e independente.
Segundo: é casada com um homem mais jovem.
Terceiro pecado: usou um body cavado no show.
Quarto: tem uma bunda que muita gente de 60+ inveja. Pecado dobrado.
Quinto e sexto: declarou que s**o e tesão fazem parte da rotina com Junno Andrade.
Sétimo pecado: existe.
O "Reclame Aqui" da moral voltou de queixos. Uma legião de guardiões da virilha alheia, todos preocupadíssimos com a decência e os bons costumes, atacou, horrorizada, o figurino da Xuxa na turnê O Último Voo da Nave.
Vamos ao osso do escândalo: a virilha.
Que lugar é esse, afinal, que precisa de tanta polícia?
Não é nem um órgão do pecado; é só uma fronteira. O litoral que avisa que, passando dali, começa o santuário. Ou, em termos menos poéticos, é a região inguinal.
É a dobra onde o tronco decide virar perna, o mesmo terreno onde a depilação já me tirou lágrimas. F**a entre a perna, que serve para ir, e o tronco, que serve para ficar.
E foi justamente ali, na dobradiça da indecisão anatômica, que o pudor público resolveu instalar sua ira.
A Rainha teve a ousadia de usar o mesmo figurino de sempre, aquele que deixava os baixinhos enfeitiçados — pela nave, é claro.
Os adultinhos de hoje, porém, esperavam vê-la no palco vestida de Madre Teresa. Sentiram-se autorizados a determinar o limite da liberdade de uma mulher depois dos 60.
Não é exatamente a carne que incomoda.
Carne tem em toda praia, em todo carnaval, em toda tela, em toda revista, em toda mente.
O que incomoda é o corpo de uma mulher madura que continua a desejar e a ser desejada.
Cada um mostra o que quiser.
Cada um assiste ao que quiser.
A acusada, Xuxa, não pediu desculpas nem prometeu recato. Retratar-se seria reconhecer a autoridade dessa jurisprudência moral que define o pecado e impõe a penitência.
Afinal, quantos centímetros de pano na cava tornam uma mulher respeitável?
Xuxa não embarcou nessa nave da moral. Ela decolou em outra, pilotada por ela mesma, com a virilha e a dignidade intactas.
E os tiranos da virtude continuam em terra firme, preservando com zelo a própria banalidade.