Escola Industrial e Comercial de D. António de Almeida - Luso
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Actualmente Complexo Escolar Nº 338 !!! Aquele era o mundo oposto do mundo vivido até então. Todos os dias no controle, faltava combustível. Fiquei surpreso.
Transcorridos tantos anos e após milhares de almas terem passado por esse Centro de Ensino, e da melhor qualidade, ninguém se deu conta de como ela nasceu, ganhou forma até atingir o grau de importância que era para todo o Leste de Angola.
Às vezes as coisas surgem mesmo assim: de coisas mais simples ainda, em que todo o lado ruim da vida redunda em coisas positivas, pois que é muitas vezes da de
rrota que se vence uma grande batalha.
É do conhecimento de muitos daquele tempo que meus pais, talvez por influência das amizades com quem conviviam, me mandaram para o Seminário de Silva Porto – Nambi. Ali passei a minha juventude enclausurado, sob severa disciplina, longe de tudo e do mundo, no meio do mato a 18 quilómetros da cidade.
À medida que os anos avançavam eu ia percebendo que não era o que almejava, ao mesmo tempo que me distanciava dos programas oficias de Ensino, enquanto os estudos do programa do Seminário se tornavam cada vez mais adiantados. Tinha quase um curso Superior mas com a equivalência oficial do Ensino Primário, o que a meu ver não era nada lisonjeiro para o Clero da época, já que eles dominavam praticamente todos os ramos do Ensino Oficial e sabiam assim que estariam condenando todos aqueles que ficassem pelo caminho, como foi o meu caso. Por um lado vivia mergulhado nos estudos como todos os meus colegas desde as 05h00 da manhã até ao recolher às 21h00, com algumas interrupções para rezar, pequeno almoço, Almoço e jantar, no mais completo silêncio, apenas com dois intervalos de meia hora para esporte e outra hora para trabalhos, que para os meus trinta quilos de peso, eram muito puxados. Um dia fiz uma peraltice e então fui expulso, e mandado de volta para o Luso, sem pertences, nem roupa para trocar, com uns calções todos rasgados e sujos e uma camisa no mesmo estado, penso até que descalço, mas não afirmo, pois a memória pode-me trair. Chegando ao Luso, tolhido de medo de tomar uma surra dos meus pais, fui trabalhar para a JPP no Luxia onde meu pai também trabalhava. Mundo de agressões, tentativas de assassinatos roubos e tudo mais que pudesse aparecer naquele meio. Então meu pai para me tirar daquele meio de beberrões e arruaceiros, mandou construir uma cabana no meio da floresta virgem, longe do acampamento. Eu era encarregado de controlar o combustível para os tractores e carros dessa Colônia Agrícola. O que meu pai não sabia é que lá havia mais espertalhões do que ele podia saber. Enquanto eu estava a salvo dos beberrões e arruaceiros durante a noite, os espertalhões na calada da noite aliviavam os estoques de combustível e os iam vender ao Luso. Assim fui dispensado, sem saber como isso acontecia. Meses mais tarde já no Luso, é que fui descobrir como isso acontecia.
É evidente que nessa altura as coisas com o meu pai não iam nada bem: expulso do Seminário e dispensado da JPP, por um pequeno percalço as relações com o meu pai, já muito tênues, explodiram. Eu tinha que dar um jeito na situação. Praticamente com o curso Superior do Seminário, mas sem qualquer equivalência Oficial eu me aproximava do operário e sentia que alguma coisa não batia certo. Todos demonstravam que aquele não era o meu lugar e provocavam um certo distanciamento. Aproximava-me das pessoas de cultura mais aprimorada e também as coisas não iam muito bem, eu não tinha um diploma. Sentia-me uma espécie de morcego: Aproximava-me dos pássaros e estes achavam que era um rato. Aproximava-me dos ratos e estes achavam que era um pássaro. Sentia isso na pele intensivamente. Então matriculei-me no Colégio de S. Bento, regredi ao primeiro ano para retomar o Programa do Ensino Oficial. Passei no segundo ano com distinção. Contudo não conseguia acompanhar as mensalidades, pois vivíamos uma situação um tanto difícil com mais sete irmãos. Era uma luta, e eu não tinha coragem de sacrificar meus familiares. O relacionamento com o meu pai deteriorava-se a cada dia. Ele queria, na sua simplicidade que eu fosse motorista de camião ou electricista, vendo que eu tinha tendência para Rádio e que no modo de ver dele, achava que Eléctrica e Rádio eram só uma, e a mesma coisa. Estava tentando um emprego no Tribunal mas isso não fazia parte dos seus planos. Foi assim que, não vendo outra saída, e sabendo da existência de outras Escolas Técnicas onde o Ensino era gratuito, eu tive a idéia de marcar uma audiência com o Governador, Dr. Carmo Ferreira, e que aconteceu na sua Residência, onde ele me recebeu e escutou com muita atenção, muita afabilidade. Expus-lhe a idéia de cooperar na implantação de uma Escola Comercial e Industrial e desde logo percebi que aquele homem naquele momento abraçou esse causa. Pediu-me que imediatamente eu formasse duas turmas para o Ciclo Preparatório (Primeiro e Segundo Ano). Traga-me essas duas Turmas e eu mando vir imediatamente professores de Luanda, foram as suas palavras com muita confiança. De imediato fui para a porta do Colégio de S. Bento esperando a saída do alunos. Comecei a fazer incursões de motivação e quase instantaneamente as turmas se formaram. Perguntavam todos: Onde vai funcionar? É o que menos importava. Eu não sabia e nem havia questionado isso. Voltei ao Palácio com a lista das turmas que apresentei ao Governador, manifestando a minha preocupação quanto às instalações, pois não sabia onde iriam funcionar. Este com um amável sorriso, como se dissesse: "Homem de pouca fé", a Escola vai funcionar no lado Direito do Palácio do Governo que eu vos cedo. Jamais esperava esse gesto. Daí para a frente tive mais alguns contactos, sendo que logo de seguida a Dª Olga Campos Dias foi contratada para interinamente assumir a Escola, enquanto aguardava a chegada do Director que viria de Luanda. Ao me apresentar à Dª Olga na primeira aula, esta tomando conhecimento do meu histórico, me propôs substitui-la nas suas ausências , pois que ela ficaria com uma grade inicial muito apertada. Foi assim que ainda dei algumas aulas de Português, Matemática, Ciências e Religião e Moral, até à chegada dos professores titulares. Alguns meses depois todos receberam a notícia de que havia chegado o Director. Todos estavam muito assustados. Diziam os que o tinham visto chegar: Ele tem uma cara assustadora, muito ruim, estamos todos tramados, dizíamos nós. No primeiro dia da sua posse ele foi às salas das duas turmas para fazer a sua apresentação. Não se ouvia uma mosca. Estavam todos perfilados de medo. Aquele Homem, de olhar vivo e penetrante, após se apresentar, pediu que todos se sentassem e que olhassem para o seu rosto e seus olhos: Eu sou o Dr. Domingos Morais Monteiro, disse. Estão vendo esta minha cara? Sim, respondeu algum mais afoito. Quero-lhes dizer que ela não reflete nada do que eu possa ser.. Todos têm medo dela, mas eu lhes digo que aqui está um coração com uma mão sempre estendida para qualquer um que precisar de mim e que não tenha receio algum, em qualquer situação. Serei vosso Director, vosso companheiro e vosso conselheiro. Têm aqui um verdadeiro amigo. Naquele momento todos se desarmaram. E como foi um grande Director, um grande companheiro, um grande conselheiro! Uma alma muito nobre, como demonstrou a sua conduta e o seu carácter. Onde estiver, Dr. Domingos Morais Monteiro, obrigado pelo carinho, pela compreensão, pelo mentor que foi, e por tudo o que representou para nós e que marcou para sempre o nosso carácter. Obrigado também à Drª Olga pelo moralismo, pela dedicação, lealdade à nossa causa. Obrigado pelo imenso plantio em tantos terrenos, cujos frutos se multiplicaram e se tornaram uma grande obra que continua em cada um crescendo e crescendo sem lugar para parar. Obrigado aos demais educadores, cujos nomes a memória involuntariamente vos trai, mas nem por isso vossa saga é menor. Obrigado a todos os colegas de turma e colaboradores que algum dia gostaria de ver reunidos nesta galeria. E sobretudo Obrigado ao Sr. Governador, Dr Carmo Ferreira, pela sua lembrança a doce imagem do bom semeador que semeou em terra fértil e a sua colheita foi incomensurável. E ainda aos meus Pais, que não podendo fazer mais, fizeram o melhor que podiam e o melhor que sabiam. Que as bênçãos eternas os iluminem para sempre. Muito grato por tudo, de coração,
De Coronel Fabricino – Minas Gerais – Brasil em 13 de Janeiro de 2006. A todos, que a paz do dever cumprido os envolva para todo o sempre. João Soares Veiros
17/10/2018
Fotos de Sérgio Wassamba Capitão e actual director do Complexo Escolar Nº 338 !!!
30/12/2016
QUE O NOVO ANO SEJA DE PAZ, AMOR E PARTILHA.
15/12/2016
Reis, Sérgio Albuquerque, Catota, Lopes, Tchambamba, Barrigana, Bebé, Jose Manuel Campos Dias e Nando
Sou o Dinis (o mais novo), estudei na Escola Industrial e Comercial de D. António de Almeida - Luso, de 1972 a 1975, no Curso Geral de Electricidade, juntamente com o Januário, Tomé, Mário, e outros dos quais não me recordo os nomes