03/05/2025
A CIVICOP - Comissão para a implementação do plano de reconciliação em memória das vítimas dos conflitos políticos - devia também incluir o desaparecimento de intelectuais escritores no seu trabalho de busca de ossadas das vítimas do longo conflito armado causado pelos três históricos movimentos políticos de Angola e pelos seus principais agitadores (EUA, Rússia, China, Portugal, África do Sul, Cuba, Congo Democrático).
O talentoso Mota Yekenha (1962-1993!), escritor pouco conhecido pelos angolanos e pelos amantes da literatura angolana - autor da inovadora obra Kambonha (1992) - também quase desconhecida, desapareceu entre 1991 e 1993. Foi “sacudido pelo vento”(usando o título de uma das narrativas do escritor e jornalista Isaquiel Cori). Nem chegou a ver a sua potente prosa a ser publicada em Portugal, pela Europress. Nenhum osso do teólogo e escritor do Huambo - à época com mais ou menos 30 ou 31 anos - aparece até hoje. Será que teve o mesmo fim das pessoas a quem dedicou o seu relevante romance (“Ao José Maria Cigarro; disse a verdade e desapareceu. Ao R.C.W.; foi de boa fé até ao fim. Ao Prata, Irmão Sofredor; inspirou muito.”)?
Mota Yekenha combateu o bom combate no que a palavra lavrada diz respeito. Perdeu o país, perdeu o mundo com o desaparecimento de um jovem talentosíssimo.
A história regista tudo. O anjo da história não deixa que os melhores e os piores escapem da tradição. Deixo uma passagem de Kambonha, um retrato das consequências do fratricídio e do perigo dos totalitarismos:
“os gajos complicavam até duvidar do Bilhete de Identidade das pessoas, apoderavam-se, às vezes, de artigos alheios, dinheiro, rasgavam documentos dificílimos de serem novamente tratados e detinham cambas (camaradas) muito arbitrariamente. Num percurso de duzentos quilómetros, pelas vias terrestres cheias de crateras, as guias caducavam, sujavam-se, rasgavam-se!” (Mota Yekenha, 1992)