15/12/2025
DA GERAÇÃO ETERNA DO VERBO
No sábado, a ImagoDei Academy realizou a sua terceira conferência teológica, a qual, desde a primeira dedicada à Teologia Natural até à mais recente, Trindade e Mitos Antigos , tem deixado marcas profundas no coração da Igreja angolana. O crescente interesse e, simultaneamente, a confusão em torno das questões trinitárias exigem, porém, um esclarecimento rigoroso e sem concessões.
Com efeito, sendo as duas últimas conferências explicitamente voltadas para o mistério da Santíssima Trindade, a doutrina da Geração Eterna do Verbo tem sido objecto de perplexidade e contestação. Tal confusão nasce, fundamentalmente, de duas causas: a) a rejeição dessa verdade por parte de teólogos amplamente conhecidos; b) a falsa impressão de que tal doutrina comprometeria a co-igualidade e a coeternidade das Pessoas divinas.
Sustentarei, nas linhas que se seguem, que não existe Trindade sem a Geração Eterna do Verbo de modo que os que a rejeitam incorrem formalmente em heresia e que, por consequência necessária, as objecções levantadas contra este dogma procedem de raciocínios frágeis, confusões conceituais e ignorância metafísica.
Trindade e Geração Eterna
As questões levantadas na última conferência estavam ligadas ao facto de certos teólogos contemporâneos, como William Lane Craig e John MacArthur (que teria mudado de posição posteriormente), terem rejeitado o dogma da Geração Eterna do Verbo. A pergunta impôs-se de modo inevitável: seriam tais nomes de peso na teologia internacional hereges?
A resposta é afirmativa: enquanto negaram essa verdade, eram hereges, porque sem a Geração Eterna simplesmente não há Trindade. Com efeito, na Trindade há uma só essência e três Pessoas. Essas Pessoas são realmente distintas entre si; caso contrário, incorrer-se-ia no erro de Sabélio. Ora, sendo essa distinção real inegável, resta perguntar: por que princípio se distinguem as Pessoas divinas?
Há apenas duas possibilidades: ou pela diversidade de natureza, ou pelas processões ad intra. Se a distinção fosse fundada na diversidade de natureza, cair-se-ia inevitavelmente nos erros já condenados: o arianismo, que nega a plena divindade do Filho; o macedonianismo, que nega a personalidade e a divindade do Espírito Santo; ou, por fim, o paganismo, que admite a existência de múltiplos deuses. Tais posições são expressamente condenadas pela Revelação, e a última também pela recta razão. Logo, resta apenas a distinção fundada nas processões ad intra.
Essas processões são duas: a geração do Verbo e a espiração do Espírito Santo. Sendo processões imanentes, não transitivas, são necessariamente eternas. Da processão por geração resultam as relações de paternidade e filiação; da processão por espiração, resultam a espiração activa e a espiração passiva.
Ora, dessas quatro, três são relações subsistentes na una e simplicíssima essência divina. E, considerando que pessoa é aquilo que há de singular e subsistente numa natureza racional, segue-se que, em Deus, as relações subsistentes são as próprias Pessoas divinas.
A consequência é inescapável: negar a Geração Eterna do Verbo é uma heresia gravíssima. Sem ela, não haveria distinção real hipostática entre o Pai e o Filho que salvaguardasse simultaneamente a unidade da essência. A Trindade seria, assim, dissolvida. Não é por acaso que os símbolos da fé afirmam com clareza que o Filho foi gerado pelo Pai antes de todos os séculos.
Geração Eterna e Co-igualidade
Objecta-se, porém, que, se o Pai gera o Filho, então há algo na essência do Pai que não se encontra na essência do Filho, a saber, a capacidade de gerar o Pai. Tal objecção procede de uma confusão grave entre essência e pessoa.
As Pessoas divinas não possuem essências distintas, mas uma só e mesma essência numericamente idêntica. Além disso, o Filho não gera, não porque carece de algo, antes, porque há um só entendimento na Divindade do qual o Filho é término infinito da geração, absorvendo assim toda a fecundidade da Divindade. A única coisa que se precisa predicar ao Filho em virtude da Omni perfeição Divina é a fecundidade Divina do qual Ele mesmo é término infinito. Se a geração fosse um atributo, seguir-se-ia o absurdo de que a essência divina geraria a si mesma, de que o Filho geraria o Pai e de que o Espírito Santo seria igualmente princípio gerador, o que destruiria por completo a distinção hipostática.
Assim, longe de comprometer a co-igualidade, a Geração Eterna do Verbo é precisamente aquilo que a funda e a preserva. Negá-la não é salvaguardar a unidade divina, mas destruí-la; não é proteger a igualdade das Pessoas, mas dissolver a própria Trindade.
Eis o testemunho dos pais da igreja:
Santo Atanásio afirma: O Filho não começou a existir; sempre existiu, pois é próprio do Pai gerar, e do Filho ser gerado (Contra Arianos, I).
Santo Hilário de Poitiers escreve: Não se pode conceber Pai sem Filho (De Trinitate, VII).
Santo Agostinho ensina: O Pai nunca existiu sem o Filho (De Trinitate, I).
São Gregório de Nazianzo declara: O Filho é gerado, mas não no tempo (Oração Teológica III).