26/05/2025
Por: Mateus da Silva, Mestre em Governação e Gestão Pública.Orcid: [https://orcid.org/0000-0002-9465-7892]
Vulnerabilidade Urbana em Contextos de Frio Extremo: Um Estudo Multissituado entre Huambo, Cidades Europeias e Norte-Americanas
Resumo
Este estudo analisa comparativamente as condições de vida de populações urbanas vulneráveis expostas a baixas temperaturas, focalizando a cidade do Huambo em Angola e contrastando com realidades observadas em Lisboa, Porto, Vale do Silício e Amesterdão. Através de metodologia qualitativa baseada em observação participante (2022-2023) e revisão sistemática de literatura, identificamos três padrões distintos de vulnerabilidade: 1) ausência total de sistemas de proteção no Huambo, onde crianças e adultos dormem debaixo de prédios abandonados da Rua Cinco a 7°C, com relatos de mortes por hipotermia; 2) sistemas semi-estruturados de acolhimento em Lisboa e Amesterdão; 3) estratégias comunitárias informais no Porto. Os resultados demonstram que a sobrevivência ao frio urbano está menos relacionada à temperatura absoluta e mais aos arranjos institucionais e comunitários existentes. Conclui-se propondo um modelo tripartido de intervenção baseado em abrigos emergenciais, programas de renda mínima e educação climática comunitária.
Palavras-chave:Frio urbano, sem-abrigo, Huambo, vulnerabilidade comparada, políticas públicas
1. Introdução
O fenômeno da exposição ao frio em contextos urbanos apresenta dinâmicas radicalmente distintas conforme o capital social e institucional disponível (Adger, 2003). Este estudo parte de observações diretas em cinco cenários globais para analisar como populações vulneráveis enfrentam temperaturas adversas. No Huambo, onde o termômetro marca 7°C antes do amanhecer, crianças se abrigam nos vãos do prédio da FAPA e estruturas abandonadas da Rua Cinco, situação agravada pela venda compulsória de agasalhos doados (observação direta, 2023). Contrastando, na Gare do Oriente em Lisboa, um sistema organizado permite pernoite seguro, enquanto no Porto sob as pontes próximas ao Estádio do Dragão, estratégias comunitárias autogeridas garantem sobrevivência.
A literatura sobre mortalidade por frio concentra-se tradicionalmente em contextos de inverno extremo no hemisfério norte (Ryti et al., 2016), negligenciando como temperaturas moderadamente baças (5-10°C) podem ser letais em cidades despreparadas do Sul global (Hajat et al., 2021). Este trabalho preenche essa lacuna através de uma abordagem comparativa inédita entre África, Europa e América do Norte.
2. Método
2.1. Abordagem Metodológica
Adotou-se uma estratégia etnográfica multissituada (Marcus, 1995), combinando:
- Observação participante em 15 locais críticos nos cinco contextos urbanos
- 58 entrevistas narrativas com pessoas em situação de rua
- Análise de políticas públicas municipais sobre proteção ao frio
2.2. Revisão Sistemática
Foram consultadas as bases Web of Science, Scopus e PubMed utilizando os descritores "urban cold vulnerability", "street homelessness AND climate" e "hypothermia prevention programs". Incluíram-se estudos publicados entre 2010-2023 com dados empíricos sobre mortalidade por frio em cidades.
3. Resultados e Discussão
3.1. Huambo: A Crise Humanitária Silenciosa
Na Rua Cinco, especificamente no junto ao Hotel Chimina e frente ao Colégio São Francisco de Assis, debaixo do prédio da FAPA e edifício abandonado adjacente, identificamos três padrões de vulnerabilidade:
1. Uso estruturas abandonadas como abrigo improvisado
2. Ciclo de doação-venda de agasalhos por necessidade imediata de renda
3. Ausência de qualquer protocolo municipal para temperaturas extremas
Relatos detalhados indicam que pelo menos 7 adultos faleceram por hipotermia período de cacimbo de 2024(entrevistas com moradores de rua).
3.2. Contextos Europeus e Norte-americano
Em Lisboa, o sistema da Gare do Oriente opera com eficiência limitada: embora ofereça abrigo, a verificação policial matinal cria dinâmicas de controle social (Fonseca, 2021). No Porto, particularmente nas Fontainhas e sob as pontes do Estádio do Dragão, observamos:
- Redes informais de compartilhamento de alimentos para pessoas e animais.
- Organização espontânea de turnos de vigilância noturna
- Doações diretas de transeuntes
No Vale do Silício, a presença de pertences tecnológicos (celulares, tablets) contrasta com a falta de abrigo adequado, evidenciando o paradoxo da exclusão na capital tecnológica global (Zukin, 2020). Muitas pessoas vulneráveis debaixo das pontes em Amesterdão a redor de Schiphol apresenta-se o sistema mais integrado, onde até animais de estimação recebem proteção.
4. Recomendações
Baseado nos achados, propõe-se:
1. Plano de Emergência para o Huambo:
- Criação imediata de centros de aquecimento em escolas e igrejas
- Programa "Agasalho Vinculado" que impossibilita a revenda
2. Modelo de Proteção em Três Níveis:
- Nível 1 (prevenção): Alerta meteorológico comunitário
- Nível 2 (resposta): Abrigos temporários ativados abaixo de 10°C
- Nível 3 (proteção social): Inclusão em programas de renda mínima
3. Pesquisa Aplicada:
- Estudo epidemiológico sobre mortalidade por frio em Angola
- Mapeamento participativo de pontos críticos de vulnerabilidade
Referências Bibliográficas
- Adger, W.N. (2003). Social Capital, Collective Action, and Adaptation to Climate Change. Economic Geography
- Fonseca, M.L. (2021). Homelessness Policies in Southern Europe. Urban Studies
- Hajat, S. et al. (2021). Climate Change and Health in Urban Areas. The Lancet
- Marcus, G.E. (1995). Ethnography in/of the World System. Annual Review of Anthropology
- Ryti, N.R. et al. (2016). Global Association of Cold Spells with Mortality. Environmental Research
- Zukin, S. (2020). The Innovation Complex: Cities, Tech, and the New Economy. Oxford University Press