21/11/2015
A presença Portuguesa na Construção da Identidade Timorense
Timor-Leste celebra os 500 anos de interação entre duas civilizações, timorense e portuguesa juntamente com a celebração do feriado nacional de 28 de novembro, o dia da Proclamação da Independência de Timor-Leste. A presença portuguesa durante quatro séculos no nosso país constitui um marco histórico de impacto na cultura, identidade e sociedade de Timor-Leste e na sua afirmação como Estado soberano ao mundo.
O primeiro contacto entre os portugueses e os timorenses aconteceu em 1515 em Lifau, após a conquista de Malaca em 1511, através da qual a ilha de Timor passou a ser mais uma das rotas comerciais dos portugueses, sendo o sándalo a principal atração dos comerciantes portugueses. A chegada dos portugueses registou-se como um dos momentos chave da História de Timor-Leste, à qual foi construída a primeira Igreja Católica, assim como foi também constituída a primeira Administração Portuguesa de Timor-Leste.
Na ótica de Isabel Boavida, a “ação missionária teve um papel fundamental na colonização portuguesa de Timor”, tendo identificado duas fases na missionação de Timor. A primeira fase diz respeito aos primeiros contactos missionários, destacando-se somente em 1558 a fundação da diocese de Malaca, a partir da qual se “criou uma estrutura religiosa que abarcava os territórios entre o Sião e as Molucas”. Em 1561, o bispo da diocese de Malaca D. frei Jorge de Santa Luzia mandatou o frei António da Cruz juntamente com quatro missionários dominicanos para Solor, com o objetivo de alargar territorialmente a influência da evangelizacão nas ilhas vizinhas, incluíndo Timor. Em relacão à segunda fase, a ação missionária apresentou-se como um meio de instrução das populações timorenses, incuntindo-lhes os valores culturais ocidentais.
Com a chegada dos portugueses a Timor, é estabelecido o primeiro contacto com a cultura e sociedade europeias, ao qual o contacto linguístico produziu um processo de transmutação cultural, sentido quer nas alterações das línguas indígenas, quer em termos comportamentais (Luís Cunha, 2012).
A divisão política e distribuição geográfica da Ilha de Timor atual foi originada pelos Portugueses, assim como foram eles que determinaram a separação de Timor Oriental de Timor Ocidental, na disputa com a Holanda.
A colonização portuguesa durou aproximadamente quatro séculos, porém Portugal fez um limitado investimento económico e político em Timor-Leste. Mas a interação cultural e religiosa portuguesa em Timor-Leste veio a revelar-se mais tarde como um veículo crucial, de diferenciação e de resistência durante a invasão indonésia. Sendo que a Língua Portuguesa se apresenta como um factor de identidade e faz parte da herança do povo de Timor-Leste. Dessa forma, a afirmação da Língua Portuguesa em Timor-Leste como uma das Línguas Oficiais foi de garantir a preservação da identidade histórica, cultural e política dos timorenses.
Em 1974, o abandono precipitado da administração colonial portuguesa de Timor-Leste, resultado da Revolução do 25 de abril em Portugal, colocou o povo de Timor-Leste em dificuldades extremas, de desordem e conflito, na medida em que não estava preparado pela sua história para participar em actividades políticas.
Em Dezembro de 1975, com a invasão da República da Indonésia, inicia-se mais uma fase histórica para Timor-Leste, despoletando a ruptura com o passado português, mas enriquecendo o sentido de unidade nacional dos timorenses, pela necessidade de afirmação identitária. A resistência timorense sobre a ocupação indonésia fez emergir uma nova geração de jovens empenhados em mobilizar o sentido de unidade nacional e de luta pela independência de Timor-Leste.
A luta pela independência de Timor-Leste contou com o importante apoio e contributo da Igreja Católica Timorense, através da defesa da identidade étnica, cultural e linguística dos timorenses. Assim como, enriqueceu o tétum praça e o português como factores de identidade nacional e “soube instrumentar as línguas como emblemas de resistência passiva, como sinais de distinção e de pertença, de união, de distinção de fronteira e como barreiras de defesa cultural perante o “outro” (o indonésio) (Luís Cunha, 2012). As duas línguas, português e tétum, se transformaram em agentes de identidade étnica e dotadas com uma dimensão simbólica” (Idem). Mais ainda, o Padre João Felgueiras (2001:46-48) refere que a Língua Portuguesa “fez despertar no Povo a sabedoria para a transformar numa arma eficiente de defesa e de resistência”.
Reza a história que não houve uma imposição da língua portuguesa em Timor durante o domínio colonial. Aliás foi graças aos missionários da Igreja Católica, que difundiram a língua portuguesa com a fé religiosa. Como afirma Filomena Pinto, a “acção evangelizadora dos dominicanos em Timor-Leste converteu ao cristianismo muitos reis locais (liurais) que adoptaram nomes portugueses, e fundaram escolas elementares que serviram para a expansão da Língua Portuguesa. Isto é o resultado de uma presença expansionista e histórica que ninguém poderá esquecer de um momento para outro”.
Segundo Costa (2001:60), “os espíritos críticos podem afirmar que o português é a língua colonial, língua do poder que durante séculos deixou o povo na ignorância, mas foi através da língua de Camões que o mundo teve conhecimento da história da luta, dor e sofrimento da resistência timorense, foi esta mesma língua que fez os corações portugueses sentirem orgulho quando ouviram os jovens no cemitério de Santa Cruz rezarem a Ave-Maria”.
De acordo com um alfabetizador do Suco Lahane Oriental, “os timorenses querem manter viva a sua fé que durante vinte e quatro anos de ocupação é um dos principais instrumentos de resistência, juntamente com a Língua Portuguesa”.
É importante salientar que a identidade nacional é um factor indispensável no sentimento de pertença a um povo e está intimamente ligada à figura do Estado- Nação.
Atento ao processo histórico da identidade timorense, e no âmbito da Celebração dos 500 anos da chegada dos misionários portugueses a Lifau-Oecusse, chegou o momento de Timor-Leste registar uma nova fase histórica na construção e afirmação da sua Identidade Nacional. Assente numa dinâmica de construção do futuro através da reconstrução do passado. A identidade nacional é sempre um processo de construção social, pelo que esta é uma construção em permanente actividade.
Rojer Rafael Tomas Soares