21/02/2019
“O QUE É QUE TU FAZES DURANTE TANTO TEMPO
NA CASA DE BANHO,
PAULA?”
(resposta à pergunta de uma amiga minha)
Há tempos fizeste-me esta pergunta, Lili. Na altura, jantávamos num restaurante do Bairro Alto e, como sempre, no final da refeição - mesmo às vezes não esperando pelo final da vossa - zarpo para a casa de banho e lá fico durante tempo (i)moralmente inaceitável.
Nesse dia convidei-te a vires comigo, oferecendo-te assim a oportunidade de visualizares todo o processo. Não aceitaste e hoje acho que fizeste muito bem.
Para além das minhas tentativas de reposição do contorno do batôn, do sublinhado dos olhos e dos exercícios básicos de higienização - com destaque para a minha obsessiva compulsão de escovarfiodentalizarescovilhar dentes e língua - não verias nunca o essencial.
A casa de banho - seja a da minha casa, a de um hotel, a de um restaurante, a da casa de amigos, ou qualquer outra que queiram imaginar, é o meu espaço de eleição.
E muito provavelmente, depois de me lerem, passará também a ser o vosso…
A casa de banho é um local sagrado, o teu rio Benares, onde até Deus (se andar por aí) está proibido de entrar enquanto lá estiveres.
A casa de banho permite-te encontrares-te a sós e mais contigo do que qualquer outro lugar no Mundo. Esquece as cenas meditativo-terapêuticas new-age. Esquece o deserto… há sempre um Principezinho em forma de lacrau, a mirar-te por detrás de cada grão de areia…
A casa de banho é o lugar incontestável que te permite fugir ou fazer um intervalo da presença ou interação humana, sem dares nas vistas: quando anuncias (podem achar deselegante, mas eu acho muito eficaz) com o teu mais saudável sorriso “Vou à casa de banho!”, podes ter a certeza que ninguém te vai perguntar “Logo agora? Mas porquê, o que é que se passa? Tás aflito?”.
No espelho da casa de banho vês toda a tua vida:
vês o Tempo que se revela no corpo que se atira, cada vez mais, para os braços da força da gravidade.
Vês, em rugas que vão surgindo no que já foi uma planície tão lisa, a geografia de todos os teus territórios de amor e de ódio, de tristeza e de alegria, de possibilidades que tornaste impossíveis e versa-vice.
E no espelho, vês também todas as pessoas que foste
e já nem te lembravas da sua existência em ti.
Na casa de banho podes rezar e agradecer, com a tua melhor e mais honesta fé - que não é, certamente, a das religiões - ao facto das tuas células não terem decidido jogar à roleta russa e brindarem-te com um cancro, com um AVC, com uma embolia ou com outros mimos do género.
Na casa de banho, por mais porcaria que faças, tens sempre a possibilidade de puxar o autoclismo, trocar as toalhas e desinfetar as superfícies lisas e propícias à asseptização com Ajax Limpa-Almas, Dá Brilho e Purifica.
A casa de banho é o meu local de eleição porque acredito que aí, talvez um dia, possa encontrar o Céu na m***a.
Até lá, beijinhos a todos!
E entretanto, vou à casa de banho…