03/09/2026
Para pensar...
O governo norueguês, a partir do próximo ano lectivo, proibiu o uso de ferramentas de IA para alunos do 1.º ao 7.º ano. Dos 14 aos 16 anos, essa utilização passará a dar-se apenas com supervisão dos professores. A medida pretende proteger o crescimento cognitivo e reforçar competências fundamentais como a leitura, a escrita e a matemática.
A inteligência artificial usada sem restrições e sem regras desde o início da escolaridade básica esbate, de forma significativa, os processos de abstração, de raciocínio, de síntese e a capacidade de pensar o conhecimento. Deixando de apelar à demonstração dos raciocínios e saltando directamente para a construção mecânica dos trabalhos, como quem aprende sobretudo por atalhos, saltitando da formulação dum problema para a “página das soluções”. Levando a que um aluno se vá transformando, perigosamente, num processador de dados, enquanto se rende à produção de resultados, sem que, com isso, crie conhecimento. Favorecendo uma ideia de que a aprendizagem se faz sem muito trabalho, e é rápida, fácil, simples e se dá sempre com sucesso quando, de facto, ela precisa de tempo, exige esforço e é difícil. E sugerindo que os processos de aprendizagem se dão sem experimentação, sem erro e sem dúvida quando a dúvida, o ensaio e o erro são quem mais traz recursos, versatilidade e descoberta ao pensamento. Levando a que se hipoteque a paciência, a perseverança, a tenacidade, o método e a ética, e se favoreça a deslealdade e o o pronto a pensar que elogia a clonagem, o banal e o “normal” em desfavor da singularidade. Fazendo com que se ignore a argumentação enquanto se estimula a ilusão de que superficialidade e simplicidade são a mesma coisa, e que, quanto menos se usa o cérebro - para descobrir, repetir, ligar conhecimentos e simplificar - mais ele (literalmente) atrofia.
Deve a escola contribuir para que a inteligência humana se transforme em inteligência artificial? Ou - depois do seu papel com os tablets no primeiro ciclo e com o uso de telemóveis até ao fim do terceiro ciclo - trata-se da escola se voltar a assumir como “reserva natural” do bom senso, da sabedoria e da humanidade, e de nos pôr a todos a lutar por isso?