22/07/2026
O MENINO QUE TIROU O PAI DAS DR**AS
Era uma vez, nas localidades reconditas de Inharrime, na província de Inhambane, um menino carismático chamado Salvador. Ele estudava na 4ª classe e vivia longe da escola, a cerca de 5km. Todos os dias, ele voltava para casa desmoronado, pálido e faminto. O calor estival, para além da longa distância cheia de areia e sol, lhe sugava todas as suas ínfimas forças.
A primeira coisa que fazia assim que chegava a casa era atirar a pasta para cima da cama e, em forma de pedido, exigir o seu almoço à mãe. Só depois de comer e encher a pança é que contava à mãe como tinham decorrido as aulas e o que aprendera.
Contudo, aconteceu que num belo dia de calor de assar passarinho, ele voltou da escola todo contente, cantando a canção que aprendera na aula de Ciências Naturais. Até parecia que na escola lhe tinham oferecido o que gostava de comprar quando tivesse dinheiro: funhane, zamazama e nick-nike.
— Mamã, mamã, adivinha o que estudamos hoje! — gritou ele, correndo em direção à sua querida mãe com o livro de Ciências Naturais na mão.
A mãe levantou o pescoço e espantou-se com aquela atitude do menino, pois nunca antes o vira assim.
— Seres vivos, o solo, a água, as plantas... — respondeu a mãe, puxando pela memória os temas mais comuns da disciplina de Ciências Naturais, e levantou-se para receber o filhinho com um caloroso abraço. O menino abanou a cabeça em jeito de negação e disse: — Errado!!!
A mãe esforçou-se a adivinhar mais e mais assuntos. Mas nenhum deles era o que o menino vira na aula.
Deu-lhe um abraço e um beijinho na testa.
— Hoje falamos das dr**as — disse Salvador, enquanto abria o livro nas páginas que marcara com o dedo desde a escola. Começou a mostrar tudo à mãe. A mãe, animada, franziu a testa, perguntando-se onde o menino queria chegar.
O menino não parou. Continuou:
— O professor disse que dr**as são todas as substâncias que, quando consumidas, alteram o funcionamento normal do nosso organismo.
— Não me digas! E o que acontece quando elas alteram o funcionamento do nosso organismo?
— Fazemos coisas que nunca faríamos. Roubamos, matamos, ofendemos os que nos amam. Elas não são boas. O professor ainda disse que provocam problemas sociais, familiares, individuais e de saúde, como problemas no fígado, coração, pulmão, hepatite... e que, cada vez que as consumimos, diminuímos 1 dia da nossa vida.
A mãe maravilhou-se com a inteligência do filhote.
— Pelo visto, você entendeu a aula. Assim, acredito que nunca vai consumi-las!
— Nunca, mãe! Eu não quero morrer cedo e não quero fazer mal a ti como faz o papai sempre que volta da barraca da tia Joana — disse ele, chorando e passando a mão afavelmente na ferida que viu no rosto da mãe, resultado da surra que o pai lhe dera na noite anterior. Eles brigaram porque ele sempre saía de casa sem deixar nada para comer, mas voltava sempre bêbado.
A mãe ficou em silêncio. Não queria envolver o filho nas suas dores.
— Mãe, quer saber o que eu vou fazer?
— Sim, Salvador. Conta-me lá!
— Vou falar com o papai sobre tudo o que aprendi hoje sobre as dr**as e pedir para ele parar de beber e fumar. Porque sempre que faz isso, está a diminuir 1 dia da sua vida e nos faz muito mal.
— Não adianta, Salvador. Eu sempre falo com ele sobre isso e ele nunca me ouve. Mas talvez você, como criança e filho dele, ele vai ouvir.
O menino guardou a caneta nas páginas que falavam de dr**as, foi tomar banho, jantou e começou a assistir bonecos no televisor Curicunda, enquanto esperava pelo pai.
Graças a Deus, naquela noite o pai não voltou bêbado nem drogado. Salvador cumprimentou o pai com educação, puxou o livro e começou a falar com ele sobre as dr**as, com uma voz suave como a de um padre quando prega na missa.
Perplexo, o pai olhava para o menino enquanto falava. Uma lágrima escorria a cada vez que o menino contava como se sentia quando ele os ofendia estando alterado. O menino disse que nunca o culpou, pois sabia que não era ele quem fazia aquilo. As dr**as é que o influenciavam a fazer.
Quando o menino terminou o seu "sermão", o pai deu-lhe um abraço forte como nunca antes lhe dera. Na verdade, nunca tivera tempo para abraçá-lo, conversar e brincar com ele, como espera qualquer criança.
Naquela noite, o pai decidiu deixar de beber e fumar suruma. Pediu desculpas por tudo o que já tinha feito sob efeito das dr**as, tanto do que lembrava quanto do que não lembrava.
E graças a Deus e ao menino, até hoje ele está livre de todos os vícios. Já é um pai presente para o filho e um marido presente para a esposa. Trabalha e vai à igreja com eles aos domingos, coisa que nunca fazia.