Epifanias. Um Diário Aberto.

Epifanias. Um Diário Aberto.

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Diário Das Epifanias Não esperem muito deste Diário das Epifanias. Um mundo vislumbrado por uma Donzella do Gelo, que dispõe um Diário Aberto de suas Epifanias.

Entre as janelas do Real e do Ilusório ela discursa e navega livremente entre as tênues linhas que te convidam a essa viagem cotidiana. Um lugar onde todos os Caminhos se encontram. Sejam eles Filosóficos, Religiosos, Poéticos ou Eróticos. Pois tudo isso faz parte deste personagem inventado; ou seria ela mais verdadeira que vocês pois não teme o quem tem si? Sejam Bem vindos ao Epifanias. Um Diário Aberto. Donzella Do Gelo

01/08/2025

“As várias que nunca foram”, um conto em prosa poética, com ecos do existencialismo e do drama moderno, ou não?
Por Chris Katz - Donzela do Gelo

Foi o que disseram sobre ela. Nunca se soube ao certo quem falou, mas a frase colou na boca da cidade como chiclete velho no asfalto.
Ela caminhava pela rua como quem esperava sempre um fim ou uma revelação. Usava vestidos de outras épocas e carregava cartas nunca enviadas em uma bolsa vermelha que ninguém tocava. Diziam que tinha sido bailarina, freira, médium, fugitiva. Diziam que não era nada disso. Diziam que inventava.

O padeiro jurava que ela chorava olhando os pães, como se lembrasse de alguém que nunca mais voltou. A professora do colégio acreditava que ela era muda, até ouvir sua voz certa vez, ao telefone, falando em francês com alguém que respondia ap***s com silêncio.

Ninguém sabia seu nome. Ap***s a viam sentar-se todos os dias no mesmo banco da praça, ao meio-dia, como se esperasse um julgamento. Ou um milagre. Ou talvez um amor o tipo de amor que só acontece quando duas metades da mesma ferida se reconhecem.

Um menino perguntou à avó quem era aquela mulher.

A avó olhou por alguns segundos e respondeu:

— Aquela? Aquela é feita de pedaços que ninguém quis guardar.

Então ele ficou olhando mais um pouco, curioso, como quem contempla um livro fechado, tentando adivinhar o enredo pela capa gasta. E por um segundo, quase viu as mil que ela talvez fosse.

Mas depois passou. E ninguém mais olhou.

Na terça-feira seguinte, o banco ficou vazio.

O padeiro notou primeiro, mas não comentou. Só assou menos pães.
A professora levou flores, sem dizer pra quem. O menino, agora um pouco mais velho, correu até o banco e colocou ali um botão de rosa amassado que achou no chão.

As pessoas não comentaram. Na cidade, o desaparecimento era hábito gente sumia como sonho mal lembrado. Só que aquela ausência era diferente. Não doía, mas latejava.

No sétimo dia, alguém deixou uma carta no banco. Papel dobrado com um fio de cabelo dentro. O bilhete dizia:

“Mil coisas não cabem num nome só.”

No oitavo, veio o homem que tocava flauta nas tardes cinzas. Sentou-se no banco vazio e tocou uma melodia estranha, cheia de notas que pareciam soluços. Depois disse, pra ninguém:

— Ela era um espelho em movimento. Só via quem estava pronto pra se ver.

Na nona noite, a cidade sonhou com ela. Todos. Ao mesmo tempo. Sonharam com as versões de si que abandonaram. Sonharam que eram múltiplos, errados, belos. Sonharam que podiam ser tudo. E acordaram chorando.

Na décima manhã, o banco desapareceu.
Não que alguém o tivesse levado. Ele ap***s... não estava mais.
Como se tivesse cumprido sua função de esperar.

E o que ficou ali foi um espaço não de ausência, mas de presságio.

Agora, vez ou outra, quando o céu pesa e o vento parece antigo, alguém diz tê-la visto: no reflexo de um vitral, no vulto de um trem,
na dobra de uma cortina.
E sempre, sempre, a frase volta a surgir em algum canto:

"Eu sou mil coisas e talvez nada seja." Mas nunca mais no tempo presente.
Na madrugada do décimo primeiro dia, um homem de chapéu escuro parou diante do espaço onde antes havia o banco. Ficou ali por horas, em pé, sem dizer nada. Parecia escutar algo que não vinha de fora.

Tirou do bolso um envelope amarelado, já gasto nas bordas. Abriu com delicadeza. Dentro, um recorte de jornal antigo com uma foto dela ou de algo que lembrava ser ela. E atrás da imagem, escrito à mão, tremido: “Me encontre quando puder me ver.”

Ele sorriu com os olhos rasos.
Depois, sem pressa, sentou-se no chão.

E esperou.

No céu, nuvens começaram a se dissipar, como se um véu invisível fosse sendo retirado pouco a pouco. Uma brisa morna soprou, trazendo com ela o cheiro de alguma infância esquecida. As árvores estremeceram, mas não caíram folhas. Ap***s silêncio.

Quando o primeiro raio de sol tocou o chão onde antes havia o banco, ele disse, quase sem voz:

— Agora entendo.

E então… ele não estava mais ali.

Nem o espaço.
Nem o tempo.

Só a cidade ficou levemente diferente, como se uma história invisível tivesse enfim se encerrado. Um ciclo que ninguém sabia que existia, mas que todos, de alguma forma, sentiam.

E quem passava por ali, dali em diante, jurava que havia algo estranho naquele pedaço de calçada. Algo leve, mas antigo. Algo ausente, mas cheio. Como o fim de um amor que nunca começou. Ou o começo de um que nunca vai acabar.

Um novo banco foi recolocado no mesmo lugar, e permanecia vazio.

Mas dias depois, uma jovem começou a sentar ali com um caderno no colo. Não falava com ninguém. Trazia o olhar inquieto e os pulsos marcados de tinta. Escrevia como se tentasse salvar alguém que estivesse afundando dentro dela.

Numa manhã de quarta, uma senhora passou por ali e disse:
— Esse banco tem saudade.
A jovem ergueu os olhos. A senhora já ia longe, como se nunca tivesse estado ali.

As folhas das árvores continuaram a cair no mesmo ritmo.
O mesmo menino do balão agora com cabelos maiores e um livro debaixo do braço parou diante da jovem e perguntou:
— Você conhece a moça que vinha antes?

Ela olhou para ele, sorriu:
— Conheço.
— Era sua mãe?
— Não.
— Então era quem?

Ela fechou o caderno devagar.
Olhou ao redor.
E disse:

— Era todas que eu ainda não sou.

O menino assentiu, como se dessa vez entendesse.
Deu-lhe o balão vermelho.
— Pode ficar.
E foi embora.

O banco, então, já não estava vazio. Estava vivo.
Cheio de presenças invisíveis, de cartas não enviadas, de mulheres que não foram mas que, em silêncio, continuam sendo.

Fim.

Por Chris Katz, a Donzela do Gelo

23/07/2025

🌼 Chegança: canto que vem do mar - Por Chris Katz Fonte - Donzela do Gelo

Chegam os bravos em cortejo marinho,
Na proa do tempo, cantando ao destino.
Vestem-se em pano de azul-mar profundo,
Trazem tambores que embalam o mundo.

Pisa o chão firme quem veio das águas,
Com voz de coral e memória das mágoas.
Os versos ressoam, antigos, potentes,
Lavram a história nas mentes, nas gentes.

Oh chegança! Barco de festa e fé,
De lança, bandeira, coragem em pé!
Teus marujos cantam o velho bravado,
Do império vencido, do mar conquistado.

Bailam os corpos em honra e lampejo,
Desenham no ar o mais puro desejo:
Ser rio, ser canto, ser povo que dança,
Ser reza que ruma na chegança.

Ali se encontra o Brasil que persiste
Na palha do chapéu, no bordado que existe.
Na alma que canta e jamais se cansa
De ser o que é, maré e esperança.

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15/10/2024

Eu e o Gafanhoto - Por Chris Katz - Donzela do Gelo

Profetizei mil séculos
diante de um gafanhoto que dançava
o amarrei em meu destino
levantando poeira a beira do caminho
E mesmo assim, ele me olhava como mil raios de luz
a cortar-me em fatias de vaidade
A cada dia e noite juntos
Eu e o gafanhoto seguíamos
na mesma trilha dividindo
a mesma mesa invisível e faminta
A cada salto que sobre mim ele dava
me fazia lembrar da boa graça
de sua companhia, dei-me conta então,
que eu era seu campo e seu plantio
era seu alimento e sua hortaliça
No olhar do gafanhoto havia fome
e no meu olhar o passado a me assombrar,
já estamos cansados, eu e ele estamos,
o futuro é agora, ergo a mão rapidamente
de forma harmônica mato o gafanhoto,
coloco-o na mesa invisível e me sento,
olho para ele imóvel e penso,
que no vento seguem as suas asas
num traço do nada iluminado,
e que nesta trilha vã ou vazia,
são meus pés que seguem,
agora sozinhos nesta trilha chamada vida.

Eu e o Gafanhoto - Por Chris Katz

Donzela do Gelo

25/05/2024

Era rio?
Por Chris Fonte, Donzela do Gelo

Inútil
sede de amor
e existência?

Ou

alguma existência
que perpasse a
garganta?

Sonhei
nem sei o que
sonhei

mas era rio?

ou sorrio
quando há rio..
ou não há?

Água que me afogue
se flutuo
se submersa afundo

não sei dizer

se era rio,
ou sorrio
onde não há rio.

Chris Fonte, Donzela do Gelo

11/05/2023

"Benquerença" - Por Donzela do Gelo

..

Aos pés do santo

bati cabeça

rezei

fiz promessas

pensei velas

perfumes

roupas

até tatuagem

mas na ferrugem

do tempo

para dor da não

benquerença

Não existe

macumba

nem barganha de

presente

no coração do

outro ninguem

manda nem amor

acende

..

Por Donzela do Gelo em 11/05/2023 vila velha - es

26/02/2023

Manhã - Por Donzela do Gelo

para meu desespero
vi através da vidraça
a vida,
o mundo

imenso preso a uma corda

também vi
o céu de um
azul infinito
e olhei uma p**a
que voava
gaivota

imensa presa a uma corda

e debruçada na minha pequenez
olhei para dentro de mim
e percebi uma casa escura
ruidosa

imensa presa a uma corda

e ao ver naquele dia
o sol brincar com a manhã
e seus raios passarem por mim
entre as rachaduras

percebi a vida com seu
vagar e paciência
como os olhos de uma virgem
sossegados a me olhar
na solidão que me deixaram

imensa presa a uma corda

Donzela do Gelo

26/08/2022

Ilhas

Nas nervuras das árvores uma leitura braile
E suas folhas a recordar toda brisa
Onde antes n’alma lembrança havia

E sombras num recanto qualquer

Agora depois de todos os desequilíbrios
As lembranças jazem em lápides perdidas
Bronze
Ouro
Lata
Latão

Pois feito ilha cada um agora só
Náufragos de amor
Versos, sonetos
Em esquecimento habita

Distâncias separadas
Como pouso do olhar n’água
Onde tudo, agora é nada!

Por Chris Fonte – Donzela do Gelo

29/07/2022

Copacabana - Por Donzela do Gelo

Em Copacabana as ondas
se abrem em esquinas infinitas
das ruas que em mim, habitam,
ondulando sinais de chegadas e partidas
quando ando nessa areia
nessas ruas de espumas,
grito, até abalar as entranhas
lugares que em mim,
antes, nem conhecia
em Copacabana o mar se torna véspera
e banho-me em espumas diante da multidão
neste banho mordo-me salgada
na beira dos morros que me cercam
e em risadas ébrias e vãs afundo
nestas águas de Copacabana que
agora habito e tento com afinco
no sal, e na espuma me livrar da minha dor
quem sabe nas nadadeiras de algum
peixe, encontre leitos
e descanse do verão
pois, na verdade,
não há descanso em mim
mas sim multidões de ondas de marfim
e eu talvez junto a um cardume de tainhas
fique presa a uma rede e vá parar num
aquário
ou ap***s
vire sereia, de um verão só
fantasma sem nome, em Copacabana
de ondas e esquinas infinitas

19/06/2022

No teu canto
Divino ser
todos os cantos do mundo
em teu poder.

E com tuas asas
pairando os mundos
cantas
infinito

Chris Fonte - Donzela do Gelo

11/06/2022

Viola - Por Donzela do Gelo - Chris Fonte

Ontem eu vi!
Há macumba no asfalto
E cartomantes de ruas
Eu vi!
No torso esguio li!
“Minha fé me salva”
E aquele corpo estava nu
Eu li!
Entre teus olhos e os meus
Morreram todos os romances
E nos carnavais se suicidaram
Todos os nossos sonhos
Lá no terreiro onde chamei teu nome
Enterrei teu samba ao som tambor
Lembrei do cavaquinho
Da Meretriz
E de Nossa Senhora
Voltei pro meu barraco
Ao som da viola, dormi.

Por Donzela do Gelo - Chris Fonte

11/06/2022

Flerte - Por Donzela do Gelo - Chris Fonte

flerto co´as moças
que se tornaram minha ruína
Elas me cortaram as asas
eu não voo
Elas brincam de deusas
com minhas p***s
não me deixam receber cartas
e das paredes agora nuas
retiram os retratos
Recitam-me versos sem rima
montam guarda á minha porta
Não posso sair, não posso voar
Estou num cômodo cheio de armadilhas
busco a janela que não há
Pássaro preso infenso á presença destas moças
De asas cortadas
Eu não voo, eu não amo
Eu não canto
Eu sou pranto;

Por Donzela do Gelo

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