25/07/2026
Muitas pessoas cresceram em ambientes onde pedir era interpretado como incomodar, onde as necessidades não encontravam espaço ou onde precisaram amadurecer cedo demais. Aos poucos, aprenderam a silenciar seus sentimentos, a não dar trabalho e a acreditar que precisavam dar conta de tudo sozinhas.
Na visão sistêmica, essa adaptação foi uma forma de preservar o vínculo. A criança, por amor e lealdade ao seu sistema familiar, renuncia às próprias necessidades quando percebe que os adultos não conseguem acolhê-las. Ela não faz isso por escolha, mas porque, para uma criança, pertencer é mais importante do que qualquer outra coisa.
Mais tarde, essa mesma criança pode se tornar um adulto extremamente disponível para os outros, mas que sente dificuldade em receber cuidado, ajuda, carinho, reconhecimento ou apoio. Dar parece natural. Receber, porém, desperta culpa, desconforto ou a sensação de estar em dívida.
Isso acontece porque, em algum momento da história, o amor foi associado ao esforço, ao desempenho ou ao sacrifício. Como consequência, instala-se a crença de que é preciso merecer o amor através daquilo que se faz, e não simplesmente por quem se é.
Entretanto, nas relações saudáveis existe equilíbrio entre dar e receber. Quando recusamos receber, interrompemos esse fluxo. Receber também é um ato de confiança, de pertencimento e de abertura para a vida.
Curar essa dinâmica não signif**a tornar-se dependente dos outros. Signif**a reconhecer que nossas necessidades têm lugar, que pedir não diminui nossa força e que aceitar o que nos é oferecido também honra a vida.
Quando acolhemos nossa criança interior e reconhecemos as lealdades invisíveis que moldaram nossa história, deixamos de viver a partir da carência ou da sobrecarga. Assim, nos tornamos mais livres para ocupar o nosso lugar e permitir que a vida flua em equilíbrio entre o dar e o receber.
Romy Valente
Terapeuta • Mentora • Palestrante