30/06/2022
EM NOME DA ESPERANÇA
Todos os dias Esperança subia e descia o morro. Quando o sol começava a dissipar as trevas, pintando o céu de vermelho com seus primeiros raios, Esperança despertava no morro. Ela conhecia cada movimento dentro dos barracos e nas ruas.
Esperança foi a primeira a chegar no morro, ela recebeu cada morador que chegava em busca de um lugar ao sol e de um teto para se proteger dele e da chuva. Chegavam ali com olhar triste e cansado, mas Esperança logo aquecia seus corações e lhes dava ânimo para continuar! E ao longo dos anos Esperança viu nascer cada menino e menina, que rompia os ares com o choro de quem acabava de chegar e queria viver! Ela os viu crescer e conhecia a todos, os pais e os filhos.
E todos a conheciam, ela era bem vinda em cada barraco, em todas as ruas. Andava livremente, entre as crianças que corriam atrás de uma bola murcha, encontrada no lixo; entre as jovens de olhar sonhador e apaixonado pelo rapper do momento, que saiu do morro e de vez em quando voltava para rever os amigos e ostentar o sucesso que alcançou lá embaixo; e mesmo entre os jovens magros e pálidos, de olhar duro e implacável que empunhavam fuzis que mal conseguiam segurar, ela era bem vinda. Estes, quando viam Esperança, suavizavam o olhar e voltavam a ser aqueles meninos que sonhavam em um dia se tornar um bombeiro, ou "um doutor", ou um jogador de futebol... Cada um tinha um sonho esquecido no baú da infância perdida, mas Esperança conhecia os seus sonhos, ela era um raio de luz que iluminava e adoçava esses corações enegrecidos e amargos, cada vez que a viam, e os transportava para dentro de si mesmos, lá para onde tinham deixado seus sonhos.
Este era mais um dia, dentre todos os dias de Esperança. Hoje ela ia descer o morro com a mulher do barraco do fim da rua. Era uma mulher com vários filhos. Ela os criava sozinha, porque seu marido havia morrido numa troca de tiros no morro. Foram dias difíceis para aquela mulher, mas Esperança grudou nela para que seu interior não morresse, mergulhado em sua dor. Hoje ela ia atrás de trabalho, de um recomeço, animada por Esperança. Enquanto descia pelas ruas poeirentas e sinuosas do morro, Esperança ia repassando com a mulher o que devia dizer quando tocasse nas portas das casas, em busca de trabalho.
Ao longo do caminho vários homens armados faziam a segurança do morro. Quando chegou na saída, um rapaz magro e alto, com olhar duro e implacável com um fuzil nas mãos (que Esperança conhecia muito bem), perguntou à mulher onde ela ia. Ela respondeu que estava descendo o morro na companhia da Esperança para procurar trabalho. Quando ele viu quem a acompanhava suavizou o semblante e lhe deixou passar.
Foi um daqueles momentos em que os homens de coração duro e amargo se encontram com o seu sonho de infância, esquecido no fundo da memória. Ele se lembrou do seu sonho, amava esportes, todos os esportes: vôlei, futebol, basquete, não dava para escolher entre um e outro, então ele sonhava em fazer educação física e se tornar um professor!
A mulher agradeceu e com um sorriso que Esperança lhe deu, disse que voltaria no fim do dia, com boas notícias, antes que ele terminasse seu turno.
Enquanto se encaminhava para bater na primeira porta, a mulher ia conversando com Esperança e mais uma vez lembrando suas experiências com ela: tinha histórias antigas, novas e esta, recém nascida! Ela conhecia Esperança e quem a tinha gerado, era fruto da união da Fé e do Amor. Uma união tão linda só poderia gerar alguém como Esperança! Era muito importante saber que a Esperança tinha origem, isso despertava confiança nos corações dos que andavam com ela.
A mulher chegou diante da primeira casa. Era uma muralha com um grande portão, havia câmeras por todo lado. Ela se sentiu amedrontada e envergonhada, mas, Esperança lhe disse que o medo e a vergonha eram os piores e mais antigos inimigos do ser humano, e quando ela os vencesse estaria pronta para a próxima batalha, como em um jogo, que é preciso vencer níveis mais difíceis para receber recompensas e seguir para a próxima etapa.
Diante disso a mulher respirou fundo e, como se isso tivesse lhe dado forças, ergueu a mão e tocou o interfone. Do outro lado uma voz sem nenhuma simpatia lhe perguntou o que queria. Ela então respondeu que estava em busca de trabalho. Perguntaram quem a tinha indicado e a mulher respondeu que estava ali em nome da Esperança. Houve um momento de silêncio, e após, com a voz meio embargada, mas já voltando ao normal, o homem respondeu que não sabia quem era Esperança, que para trabalhar ali tinha que ser indicada por alguém conhecido. E mandou que ela fosse embora, senão chamaria os seguranças e os cães para tirá-la de lá.
A mulher sentiu o desânimo batendo na porta do seu coração, e suspirou... mas Esperança lhe disse que sempre haveria outras portas para bater, que ela seguisse em frente, sem desanimar. A mulher, que já tinha vencido o medo e a vergonha uma vez, seguiu para a próxima porta, mais preparada e determinada.
A mulher não sabia, mas nessa casa morava um homem muito rico e poderoso, porém, era solitário e infeliz. Ele sempre teve tudo o que o dinheiro podia comprar, era filho único, seus pais o criaram para assumir os negócios da família, e ele não se casou, não teve filhos, porque isso atrapalharia os planos de seus pais, que também se tornaram os seus. E que mulher seria boa o suficiente para um homem como ele?
Assim ele viveu, iludido pela felicidade que o dinheiro podia comprar, até que seus pais morreram e ele se viu sozinho e único herdeiro daquele império. E tão grande como o seu império, era a solidão que ocupava cada centímetro do que ele possuía e do seu interior.
Nessa manhã ele acordou pensativo, olhou em volta e perguntou a si mesmo para que servia tudo aquilo se era tão infeliz e não tinha para quem deixar. Ele já era um homem velho, seu exterior, conservado com botox e plásticas, não revelava, mas sua alma era cheia de rugas, que dinheiro e cirurgia alguma poderiam tirar! Decidiu que aquele seria seu último dia de vida, que já bastava dessa vida sem sentido e solitária.
Ele se levantou, se vestiu, desceu as belas escadas do seu palacete, sentou-se à mesa para tomar seu último café da manhã. O mordomo não estava na sala, esperando por ele, como fazia, desde sempre! Em outros dias isso seria motivo para um ataque de fúria, seria um erro imperdoável, mas ele não tinha ânimo para se enfurecer, queria que esse dia terminasse logo, e que sua vida terminasse junto com ele, esse era seu plano.
O mordomo também era um homem idoso, tinham a mesma idade. Estava com a família desde que se lembrava, seu pai tinha sido o mordomo antes dele e o preparou para assumir seu lugar. Ele havia crescido ali naquela casa. Quando eram meninos brincavam juntos, contavam os seus sonhos de criança um para o outro, enquanto olhavam para o morro e imaginavam o que teria lá. Os anos se passaram e nenhum dos dois tornou os sonhos em realidade. Cada um seguiu seu caminho, juntos, porém separados, o rumo natural que seus pais determinaram para eles e eles aceitaram para si mesmos. Todos os dias se encontravam, mas era como se fossem estranhos. Aqueles meninos sonhadores eram personagens de uma história esquecida num passado muito distante.
Ambos viviam como se não conhecessem Esperança, mas ela os conhecia muito bem, e nesse dia tinha um plano, ia "unir o útil ao agradável", e seu plano começou a ser colocado em prática quando a mulher tocou o interfone.
Um defeito impediu que o interfone tocasse na portaria e, após alguns toques, automaticamente o interfone dentro da casa foi acionado. Onde estão esses empregados incompetentes que não atendem esse interfone? Aborrecido se perguntava. Com receio de irritar o patrão, o mordomo, que estava a postos ao lado da mesa do café da manhã, aguardando-o, teve que sair do seu posto e atender o barulhento interfone. Seu patrão também ouviu o interfone tocar enquanto descia as escadas, mas, isso não despertou nada nele, nem irritação, nem curiosidade.
A mulher disse que estava a procura de emprego, que tinha sido indicada pela Esperança, que, inclusive, estava ali com ela. Ao ouvir o nome da Esperança aquele homem ficou comovido, lembrou-se dos dias felizes que ele e seu patrão tinham vivido naquela mesma casa, e comparou com quem tinham se tornado ao longo dos anos, homens solitários e infelizes, que esqueceram sua amizade e seus sonhos.
Sabendo que seu patrão já devia estar à mesa, aborrecido por ele não estar no seu posto, disse à mulher que aguardasse. Correu para a mesa do café da manhã e lá encontrou o seu patrão. Seu olhar era inexpressivo, nos últimos tempos ele estava assim, não era mais o homem exigente e enérgico de antes, vivia apático e entediado. Apenas perguntou quem era no interfone e ele repetiu exatamente o que ouviu. Ao dizer o nome de quem tinha indicado a mulher e que estava ali com ela, ordenou ao mordomo que a deixasse entrar.
Naquele momento ambos se lembraram da infância e seus corações experimentaram o calor que sentiam enquanto brincavam juntos. Algo dentro deles despertou! Olharam um para o outro como se estivessem se encontrando pela primeira vez, após muitos anos!
Quando o portão abriu a mulher ficou surpresa e apreensiva. Tudo era tão bonito, suntuoso, nunca tinha imaginado e muito menos visto nada igual! Ela tinha chegado ali a pé, mas parecia que estava em outro mundo, muito distante do morro!
Já Esperança conhecia bem aquela casa, andava por ali, mas havia muitos anos que ninguém percebia sua presença, os meninos que gostavam da sua companhia na infância tinham se tornado adultos, esqueceram seus sonhos e na sua zona de conforto não precisavam de Esperança. Mas, a zona de conforto se tornou em uma armadilha, que os aprisionou na solidão e tristeza.
O patrão mandou que o mordomo levasse a mulher onde ele estava, e pela primeira vez depois de muito tempo seu olhar estava determinado. Não tinha desistido de colocar fim à vida, pelo contrário, tinha um plano e o morro, que eles viam quando crianças, deitados de costas no vasto gramado, exaustos, após correrem por horas, brincando e imaginando o que devia ter ali, seria o lugar onde sua vida chegaria ao fim.
Quando eram crianças, diziam que os personagens das histórias que seus pais lhes contavam, deviam morar ali no morro: o dragão que vigiava a princesa em seu castelo; a vovó e o Chapeuzinho Vermelho; a Branca de Neve e os sete anões, e por aí ia sua imaginação.
É claro que depois que cresceram descobriram pelos jornais que o morro não era nenhum conto de fadas, era um lugar de pobreza, violência e morte! Aliás, não devia ter nada ali que fosse bom, até ficou surpreso quando a mulher disse que foi indicada pela Esperança, e que ela a acompanhava! Como Esperança poderia estar em um lugar como aquele e viver no meio desse "tipo de gente"!? Ele não sabia que "esse tipo de gente" são as que mais vivem na companhia da Esperança!
O dono da casa convidou a mulher do morro para sentar-se à mesa e mandou que o mordomo a servisse. Faria um gesto generoso, afinal era seu último dia, vai que isto pudesse ajudá-lo do outro lado, não que ele acreditasse nessas crendices religiosas, mas ia ser generoso com aquela criatura, pelo sim, pelo não!
Naquele dia a mulher não tinha comido nada, olhou toda aquela comida que nunca tinha visto, aspirou a profusão de cheiros deliciosos do café, dos chás, do achocolatado, sucos, quitandas e bolos variados e lembrou-se dos filhos que esperavam que ela voltasse no fim do dia com comida. Agradeceu e recusou.
O homem ficou entre surpreso e irritado, era visível que ela estava com fome, ela comia com olhos, como podia recusar sua oferta generosa? Não se conteve e disse tudo o que estava pensando, e ela respondeu o motivo pelo qual não se dava o direito de comer: como ela poderia se fartar, enquanto no morro seus filhos e tantos outros passavam fome? "Mas," disse ela, "se o senhor me der a comida para levar para comer junto com meus filhos e vizinhos, eu aceito e agradeço!" Ela aprendeu direitinho a lição ensinada pela Esperança, perdeu o medo e a vergonha!
A pergunta da mulher e seu pedido foi como um soco na cara daquele homem! Ele achava que tinha tudo, mas estava perdido em sua riqueza, infeliz tendo tanto, enquanto outros não tinham nada, sequer para comer, e ainda assim viam a Esperança! Naquele instante ele também a viu, ela estava ali, ao seu alcance! A riqueza o tinha tornado cego e insensível, e sem Esperança a vida perdeu o sentido. Não era riqueza material e poder que davam sentido à vida, a prova estava ali diante dele na figura de uma mulher pobre, viúva, moradora do morro, que trouxe a Esperança de volta para sua vida!
Com ânimo novo aquele homem levantou, falou para o mordomo preparar uma roupa comum para ambos, roupas que não fizessem diferença entre os dois e não fizessem diferença entre eles e os moradores do morro, porque eles iam subir, iam finalmente conhecer o morro. Mandou que toda a comida fosse embalada, seria levada para distribuir entre os moradores, não apenas a que estava na mesa, tudo que tivesse estocado.
A mulher, entre chocada e agradecida, entendeu como Esperança foi importante em sua vida, na vida de seus filhos e de tantos outros que moravam no morro, ela olhou para o futuro e viu Esperança, sorriu um sorriso novo, que Esperança lhe deu e retribuiu com um sorriso matreiro, de quem já sabia que o resultado seria esse.
Ao chegarem na entrada do morro a mulher procurou pelo rapaz que fazia a guarda com o fuzil, a quem ela disse que voltaria antes dele encerrar o turno com boas notícias, mas ele não estava mais lá. Perguntou por ele ao que o substituía e ele contou que o rapaz tinha surtado, mal tinha começado o turno quando chegou no chefe, entregou o fuzil e disse que ia em busca dos seus sonhos. O chefe perguntou porque ele estava cometendo essa loucura, que a realidade dele era aquela, para quê ir atrás de sonhos, quem tinha enfiado essas besteiras em sua cabeça. E o rapaz respondeu que estava indo em nome da Esperança. Quando ele falou o nome da Esperança, o chefe mudou o semblante, por um breve instante seus olhos tornaram-se doces e brilharam, como nunca tinham visto antes. Então ele disse: "vai garoto, antes que eu me arrependa e te coloque no castigo!"
Muitos anos depois aquele rapaz, então um homem adulto, voltou ao morro, que já não era mais o mesmo, não tinha ninguém empunhando fuzil, havia comércio, gente por todo lado trabalhando; o antigo campinho de terra batida agora era um ginásio cheio de crianças e adolescentes praticando esportes; havia escola, restaurantes, tudo o que antes só existia lá embaixo do morro. Esperança estava por todo lado, nos sorrisos, nos olhares, nas palavras!
O rapaz encontrou a mulher que descia o morro com Esperança, no dia que decidiu ir embora atrás dos seus sonhos, e perguntou o que tinha acontecido. Antes que ela respondesse, um dos dois senhores, bem velhinhos, mas com olhar feliz e animado, disse a ele que a mulher e a Esperança levaram o morro até eles e os trouxeram até o morro, e essa união tinha salvado e dado razão às suas vidas e transformado a vida no morro.
Foram muitos anos de trabalho, de lutas que dinheiro nenhum pode vencer, mas, unidos pela Esperança, gerada todos os dias pela fé e pelo amor, a violência foi vencida pela justiça, a miséria foi substituída pelo trabalho, e a morte não era mais sua solução para a solidão, ela chegaria, mas até lá tinha muito a ser feito, em nome da Esperança!
A pergunta que f**a é: "o que eu e você podemos fazer onde estamos em nome da Esperança?