AuGe Books

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Aulas de reforço escolar para crianças da Educação Infantil.

Linguagem oral e escrita; matemática

Princípio: Ensinar com amor e paciência

Métodos: Fônico e Silábico.

02/09/2022
30/06/2022

EM NOME DA ESPERANÇA

Todos os dias Esperança subia e descia o morro. Quando o sol começava a dissipar as trevas, pintando o céu de vermelho com seus primeiros raios, Esperança despertava no morro. Ela conhecia cada movimento dentro dos barracos e nas ruas.

Esperança foi a primeira a chegar no morro, ela recebeu cada morador que chegava em busca de um lugar ao sol e de um teto para se proteger dele e da chuva. Chegavam ali com olhar triste e cansado, mas Esperança logo aquecia seus corações e lhes dava ânimo para continuar! E ao longo dos anos Esperança viu nascer cada menino e menina, que rompia os ares com o choro de quem acabava de chegar e queria viver! Ela os viu crescer e conhecia a todos, os pais e os filhos.

E todos a conheciam, ela era bem vinda em cada barraco, em todas as ruas. Andava livremente, entre as crianças que corriam atrás de uma bola murcha, encontrada no lixo; entre as jovens de olhar sonhador e apaixonado pelo rapper do momento, que saiu do morro e de vez em quando voltava para rever os amigos e ostentar o sucesso que alcançou lá embaixo; e mesmo entre os jovens magros e pálidos, de olhar duro e implacável que empunhavam fuzis que mal conseguiam segurar, ela era bem vinda. Estes, quando viam Esperança, suavizavam o olhar e voltavam a ser aqueles meninos que sonhavam em um dia se tornar um bombeiro, ou "um doutor", ou um jogador de futebol... Cada um tinha um sonho esquecido no baú da infância perdida, mas Esperança conhecia os seus sonhos, ela era um raio de luz que iluminava e adoçava esses corações enegrecidos e amargos, cada vez que a viam, e os transportava para dentro de si mesmos, lá para onde tinham deixado seus sonhos.

Este era mais um dia, dentre todos os dias de Esperança. Hoje ela ia descer o morro com a mulher do barraco do fim da rua. Era uma mulher com vários filhos. Ela os criava sozinha, porque seu marido havia morrido numa troca de tiros no morro. Foram dias difíceis para aquela mulher, mas Esperança grudou nela para que seu interior não morresse, mergulhado em sua dor. Hoje ela ia atrás de trabalho, de um recomeço, animada por Esperança. Enquanto descia pelas ruas poeirentas e sinuosas do morro, Esperança ia repassando com a mulher o que devia dizer quando tocasse nas portas das casas, em busca de trabalho.

Ao longo do caminho vários homens armados faziam a segurança do morro. Quando chegou na saída, um rapaz magro e alto, com olhar duro e implacável com um fuzil nas mãos (que Esperança conhecia muito bem), perguntou à mulher onde ela ia. Ela respondeu que estava descendo o morro na companhia da Esperança para procurar trabalho. Quando ele viu quem a acompanhava suavizou o semblante e lhe deixou passar.

Foi um daqueles momentos em que os homens de coração duro e amargo se encontram com o seu sonho de infância, esquecido no fundo da memória. Ele se lembrou do seu sonho, amava esportes, todos os esportes: vôlei, futebol, basquete, não dava para escolher entre um e outro, então ele sonhava em fazer educação física e se tornar um professor!

A mulher agradeceu e com um sorriso que Esperança lhe deu, disse que voltaria no fim do dia, com boas notícias, antes que ele terminasse seu turno.

Enquanto se encaminhava para bater na primeira porta, a mulher ia conversando com Esperança e mais uma vez lembrando suas experiências com ela: tinha histórias antigas, novas e esta, recém nascida! Ela conhecia Esperança e quem a tinha gerado, era fruto da união da Fé e do Amor. Uma união tão linda só poderia gerar alguém como Esperança! Era muito importante saber que a Esperança tinha origem, isso despertava confiança nos corações dos que andavam com ela.

A mulher chegou diante da primeira casa. Era uma muralha com um grande portão, havia câmeras por todo lado. Ela se sentiu amedrontada e envergonhada, mas, Esperança lhe disse que o medo e a vergonha eram os piores e mais antigos inimigos do ser humano, e quando ela os vencesse estaria pronta para a próxima batalha, como em um jogo, que é preciso vencer níveis mais difíceis para receber recompensas e seguir para a próxima etapa.

Diante disso a mulher respirou fundo e, como se isso tivesse lhe dado forças, ergueu a mão e tocou o interfone. Do outro lado uma voz sem nenhuma simpatia lhe perguntou o que queria. Ela então respondeu que estava em busca de trabalho. Perguntaram quem a tinha indicado e a mulher respondeu que estava ali em nome da Esperança. Houve um momento de silêncio, e após, com a voz meio embargada, mas já voltando ao normal, o homem respondeu que não sabia quem era Esperança, que para trabalhar ali tinha que ser indicada por alguém conhecido. E mandou que ela fosse embora, senão chamaria os seguranças e os cães para tirá-la de lá.

A mulher sentiu o desânimo batendo na porta do seu coração, e suspirou... mas Esperança lhe disse que sempre haveria outras portas para bater, que ela seguisse em frente, sem desanimar. A mulher, que já tinha vencido o medo e a vergonha uma vez, seguiu para a próxima porta, mais preparada e determinada.

A mulher não sabia, mas nessa casa morava um homem muito rico e poderoso, porém, era solitário e infeliz. Ele sempre teve tudo o que o dinheiro podia comprar, era filho único, seus pais o criaram para assumir os negócios da família, e ele não se casou, não teve filhos, porque isso atrapalharia os planos de seus pais, que também se tornaram os seus. E que mulher seria boa o suficiente para um homem como ele?

Assim ele viveu, iludido pela felicidade que o dinheiro podia comprar, até que seus pais morreram e ele se viu sozinho e único herdeiro daquele império. E tão grande como o seu império, era a solidão que ocupava cada centímetro do que ele possuía e do seu interior.

Nessa manhã ele acordou pensativo, olhou em volta e perguntou a si mesmo para que servia tudo aquilo se era tão infeliz e não tinha para quem deixar. Ele já era um homem velho, seu exterior, conservado com botox e plásticas, não revelava, mas sua alma era cheia de rugas, que dinheiro e cirurgia alguma poderiam tirar! Decidiu que aquele seria seu último dia de vida, que já bastava dessa vida sem sentido e solitária.

Ele se levantou, se vestiu, desceu as belas escadas do seu palacete, sentou-se à mesa para tomar seu último café da manhã. O mordomo não estava na sala, esperando por ele, como fazia, desde sempre! Em outros dias isso seria motivo para um ataque de fúria, seria um erro imperdoável, mas ele não tinha ânimo para se enfurecer, queria que esse dia terminasse logo, e que sua vida terminasse junto com ele, esse era seu plano.

O mordomo também era um homem idoso, tinham a mesma idade. Estava com a família desde que se lembrava, seu pai tinha sido o mordomo antes dele e o preparou para assumir seu lugar. Ele havia crescido ali naquela casa. Quando eram meninos brincavam juntos, contavam os seus sonhos de criança um para o outro, enquanto olhavam para o morro e imaginavam o que teria lá. Os anos se passaram e nenhum dos dois tornou os sonhos em realidade. Cada um seguiu seu caminho, juntos, porém separados, o rumo natural que seus pais determinaram para eles e eles aceitaram para si mesmos. Todos os dias se encontravam, mas era como se fossem estranhos. Aqueles meninos sonhadores eram personagens de uma história esquecida num passado muito distante.

Ambos viviam como se não conhecessem Esperança, mas ela os conhecia muito bem, e nesse dia tinha um plano, ia "unir o útil ao agradável", e seu plano começou a ser colocado em prática quando a mulher tocou o interfone.

Um defeito impediu que o interfone tocasse na portaria e, após alguns toques, automaticamente o interfone dentro da casa foi acionado. Onde estão esses empregados incompetentes que não atendem esse interfone? Aborrecido se perguntava. Com receio de irritar o patrão, o mordomo, que estava a postos ao lado da mesa do café da manhã, aguardando-o, teve que sair do seu posto e atender o barulhento interfone. Seu patrão também ouviu o interfone tocar enquanto descia as escadas, mas, isso não despertou nada nele, nem irritação, nem curiosidade.

A mulher disse que estava a procura de emprego, que tinha sido indicada pela Esperança, que, inclusive, estava ali com ela. Ao ouvir o nome da Esperança aquele homem ficou comovido, lembrou-se dos dias felizes que ele e seu patrão tinham vivido naquela mesma casa, e comparou com quem tinham se tornado ao longo dos anos, homens solitários e infelizes, que esqueceram sua amizade e seus sonhos.

Sabendo que seu patrão já devia estar à mesa, aborrecido por ele não estar no seu posto, disse à mulher que aguardasse. Correu para a mesa do café da manhã e lá encontrou o seu patrão. Seu olhar era inexpressivo, nos últimos tempos ele estava assim, não era mais o homem exigente e enérgico de antes, vivia apático e entediado. Apenas perguntou quem era no interfone e ele repetiu exatamente o que ouviu. Ao dizer o nome de quem tinha indicado a mulher e que estava ali com ela, ordenou ao mordomo que a deixasse entrar.

Naquele momento ambos se lembraram da infância e seus corações experimentaram o calor que sentiam enquanto brincavam juntos. Algo dentro deles despertou! Olharam um para o outro como se estivessem se encontrando pela primeira vez, após muitos anos!

Quando o portão abriu a mulher ficou surpresa e apreensiva. Tudo era tão bonito, suntuoso, nunca tinha imaginado e muito menos visto nada igual! Ela tinha chegado ali a pé, mas parecia que estava em outro mundo, muito distante do morro!

Já Esperança conhecia bem aquela casa, andava por ali, mas havia muitos anos que ninguém percebia sua presença, os meninos que gostavam da sua companhia na infância tinham se tornado adultos, esqueceram seus sonhos e na sua zona de conforto não precisavam de Esperança. Mas, a zona de conforto se tornou em uma armadilha, que os aprisionou na solidão e tristeza.

O patrão mandou que o mordomo levasse a mulher onde ele estava, e pela primeira vez depois de muito tempo seu olhar estava determinado. Não tinha desistido de colocar fim à vida, pelo contrário, tinha um plano e o morro, que eles viam quando crianças, deitados de costas no vasto gramado, exaustos, após correrem por horas, brincando e imaginando o que devia ter ali, seria o lugar onde sua vida chegaria ao fim.

Quando eram crianças, diziam que os personagens das histórias que seus pais lhes contavam, deviam morar ali no morro: o dragão que vigiava a princesa em seu castelo; a vovó e o Chapeuzinho Vermelho; a Branca de Neve e os sete anões, e por aí ia sua imaginação.

É claro que depois que cresceram descobriram pelos jornais que o morro não era nenhum conto de fadas, era um lugar de pobreza, violência e morte! Aliás, não devia ter nada ali que fosse bom, até ficou surpreso quando a mulher disse que foi indicada pela Esperança, e que ela a acompanhava! Como Esperança poderia estar em um lugar como aquele e viver no meio desse "tipo de gente"!? Ele não sabia que "esse tipo de gente" são as que mais vivem na companhia da Esperança!

O dono da casa convidou a mulher do morro para sentar-se à mesa e mandou que o mordomo a servisse. Faria um gesto generoso, afinal era seu último dia, vai que isto pudesse ajudá-lo do outro lado, não que ele acreditasse nessas crendices religiosas, mas ia ser generoso com aquela criatura, pelo sim, pelo não!

Naquele dia a mulher não tinha comido nada, olhou toda aquela comida que nunca tinha visto, aspirou a profusão de cheiros deliciosos do café, dos chás, do achocolatado, sucos, quitandas e bolos variados e lembrou-se dos filhos que esperavam que ela voltasse no fim do dia com comida. Agradeceu e recusou.

O homem ficou entre surpreso e irritado, era visível que ela estava com fome, ela comia com olhos, como podia recusar sua oferta generosa? Não se conteve e disse tudo o que estava pensando, e ela respondeu o motivo pelo qual não se dava o direito de comer: como ela poderia se fartar, enquanto no morro seus filhos e tantos outros passavam fome? "Mas," disse ela, "se o senhor me der a comida para levar para comer junto com meus filhos e vizinhos, eu aceito e agradeço!" Ela aprendeu direitinho a lição ensinada pela Esperança, perdeu o medo e a vergonha!

A pergunta da mulher e seu pedido foi como um soco na cara daquele homem! Ele achava que tinha tudo, mas estava perdido em sua riqueza, infeliz tendo tanto, enquanto outros não tinham nada, sequer para comer, e ainda assim viam a Esperança! Naquele instante ele também a viu, ela estava ali, ao seu alcance! A riqueza o tinha tornado cego e insensível, e sem Esperança a vida perdeu o sentido. Não era riqueza material e poder que davam sentido à vida, a prova estava ali diante dele na figura de uma mulher pobre, viúva, moradora do morro, que trouxe a Esperança de volta para sua vida!

Com ânimo novo aquele homem levantou, falou para o mordomo preparar uma roupa comum para ambos, roupas que não fizessem diferença entre os dois e não fizessem diferença entre eles e os moradores do morro, porque eles iam subir, iam finalmente conhecer o morro. Mandou que toda a comida fosse embalada, seria levada para distribuir entre os moradores, não apenas a que estava na mesa, tudo que tivesse estocado.

A mulher, entre chocada e agradecida, entendeu como Esperança foi importante em sua vida, na vida de seus filhos e de tantos outros que moravam no morro, ela olhou para o futuro e viu Esperança, sorriu um sorriso novo, que Esperança lhe deu e retribuiu com um sorriso matreiro, de quem já sabia que o resultado seria esse.

Ao chegarem na entrada do morro a mulher procurou pelo rapaz que fazia a guarda com o fuzil, a quem ela disse que voltaria antes dele encerrar o turno com boas notícias, mas ele não estava mais lá. Perguntou por ele ao que o substituía e ele contou que o rapaz tinha surtado, mal tinha começado o turno quando chegou no chefe, entregou o fuzil e disse que ia em busca dos seus sonhos. O chefe perguntou porque ele estava cometendo essa loucura, que a realidade dele era aquela, para quê ir atrás de sonhos, quem tinha enfiado essas besteiras em sua cabeça. E o rapaz respondeu que estava indo em nome da Esperança. Quando ele falou o nome da Esperança, o chefe mudou o semblante, por um breve instante seus olhos tornaram-se doces e brilharam, como nunca tinham visto antes. Então ele disse: "vai garoto, antes que eu me arrependa e te coloque no castigo!"

Muitos anos depois aquele rapaz, então um homem adulto, voltou ao morro, que já não era mais o mesmo, não tinha ninguém empunhando fuzil, havia comércio, gente por todo lado trabalhando; o antigo campinho de terra batida agora era um ginásio cheio de crianças e adolescentes praticando esportes; havia escola, restaurantes, tudo o que antes só existia lá embaixo do morro. Esperança estava por todo lado, nos sorrisos, nos olhares, nas palavras!

O rapaz encontrou a mulher que descia o morro com Esperança, no dia que decidiu ir embora atrás dos seus sonhos, e perguntou o que tinha acontecido. Antes que ela respondesse, um dos dois senhores, bem velhinhos, mas com olhar feliz e animado, disse a ele que a mulher e a Esperança levaram o morro até eles e os trouxeram até o morro, e essa união tinha salvado e dado razão às suas vidas e transformado a vida no morro.

Foram muitos anos de trabalho, de lutas que dinheiro nenhum pode vencer, mas, unidos pela Esperança, gerada todos os dias pela fé e pelo amor, a violência foi vencida pela justiça, a miséria foi substituída pelo trabalho, e a morte não era mais sua solução para a solidão, ela chegaria, mas até lá tinha muito a ser feito, em nome da Esperança!

A pergunta que f**a é: "o que eu e você podemos fazer onde estamos em nome da Esperança?

23/06/2022

BITO, O MENINO QUE NÃO SABIA ASSOBIAR

Bito era um garoto esperto, numa corrida nenhum outro menino da sua idade o vencia. Era perito em subir em árvores. No futebol era bom em fazer gol e bom como goleiro. No pique-esconde ninguém conseguia acha-lo e nem se esconder dele por muito tempo. Ganhava as figurinhas raras dos colegas no jogo de bafo, mas, acabava devolvendo as ele já tinha em seu álbum. Ele era um garoto legal!

Ah, e ele não era bom apenas nas brincadeiras, estava sempre entre os primeiros alunos da sua turma na escola. O seu boletim era um festival de notas azuis, nenhuma abaixo de sete, na matemática então, todas as notas acima de nove!

Parece que Bito era bom em tudo!!! Que nada, havia uma coisa que ele não sabia e isso o entristecia e o deixava frustrado: Bito não sabia assobiar! Ninguém sabia que Bito não assobiava! Era um segredo que ele guardava debaixo de sete chaves!

Bito era fascinado por assobio desde que ele se lembrava. Sua mãe assobiava músicas suaves, bem baixinho para ele dormir em seu colo. O assobio o encantava, entrava por seus ouvidos e ele lutava contra o sono para continuar olhando o movimento que sua mãe fazia com os lábios e ouvindo aquele som encantador. Bito fazia um biquinho com os lábios, mas não saia nenhum som. Na sua cabecinha de bebê ele devia pensar que sua mãe era mágica! Ela percebia o seu encanto vendo-a assobiar e lhe perguntava todos as vezes: "você acha bonito, é?" E continuava assobiando.

A primeira palavra que Bito disse foi "bito". Ele olhava para sua mãe e dizia: "bito". As primeiras vezes que ele disse "bito" a mãe não entendia o que signif**ava, até que ela percebeu que era "bonito" e que "bito" se referia ao assobio que o fascinava e ela sempre lhe perguntava: "você acha bonito, é?". Ele achava que "bonito" era o nome daquele som que ele amava ouvir! Quando ele repetia a palavra todos perguntavam o que ele estava dizendo e então ela contava de onde vinha e porque ele a repetia o tempo todo. E foi assim que surgiu o seu apelido, passaram a chamá-lo de Bito, desde que era um bebê. Até seu apelido veio da sua paixão pelo assobio!

Bito morava em um pequeno sítio. Seu pai criava porcos, galinhas e vacas. Ah, e tinha também um cavalo! Quando ia chamar as galinhas para comer seu pai fazia um som mais ou menos assim: "tiiii-ti-ti-ti-ti". O primeiro "ti" mais longo, seguido por vários "tis" mais rápidos. Quando elas ouviam o som vinham correndo feito loucas, aquele som signif**ava "comida". Rapidamente Bito aprendeu a imitar o chamado das galinhas, dava milho para elas várias vezes ao dia, só para vê-las correr em sua direção quando o ouviam fazer: "tiiiii-ti-ti-ti-ti".

Bito observava os movimentos dos lábios de seu pai para fazer sons, que os animais entendiam que estava se comunicando com eles. Para chamar os porcos deixava os lábios semiabertos e com movimento da língua no céu da boca próxima aos dentes emitia um som que saía assim: "tsc-tsc-tsc-tsc". Esse mesmo som ele usava para dizer "não", repetindo duas vezes, e balançando a cabeça negativamente: "tsc-tsc"; e ainda usava o mesmo movimento dos lábios, som e meneio da cabeça quando não gostava ou reprovava alguma coisa: "tsc-tsc-tsc" lentos e espaçados, e a quantidade e velocidade de "tsc", era de acordo com a intensidade da reprovação.

Para colocar o cavalo em marcha ele batia os joelhos suavemente em sua barriga, juntava os lábios e emitia um som como de vários beijos seguidos e ininterruptos: "chuac-chuac-chuac-chuac".

O chamado das vacas era um monossílabo seguido do nome: "Ei, mimosa! Ei, malhada! Ei, estrela!"

Todos esses sons despertavam o interesse de Bito e ele os aprendeu, os sons e o animal com o qual o som comunicava. Mas, nenhum desses sons o encantava tanto quanto o assobio!

E era o assobio que seu pai usava chamando os cachorros para campear o gado, ou, quando estavam campeando, o assobio era o instrumento de ordenar aos cachorros se era para ir ou vir.

Quando seu pai estava distraído, trabalhando ou descansando na varanda, assobiava! Era um assobio diferente do assobio de sua mãe, era mais vigoroso, forte, preciso, cheio de tons agudos e graves, hora longos, hora mais curtos. Um verdadeiro espetáculo sonoro para os ouvidos de Bito!

Bito foi crescendo e chegou à idade escolar. Ele era um garoto legal, os colegas gostavam de estar com ele, de brincar com ele, o admiravam e diziam em casa: "Bito é meu melhor amigo, ele sabe fazer muitas coisas legais e mesmo assim não acha que é melhor que os outros". Ah, eles não sabiam que Bito guardava um segredo que não permitia que ele se achasse o melhor!

O assobio despertava também uma dúvida, uns diziam "assobio" outros, "assovio", mas ele não tinha coragem de perguntar qual era a forma correta, com medo de alguém pedir para ele assobiar (ou assoviar, ainda não sabia ao certo). Quando Bito aprendeu a consultar o dicionário descobriu que assobiar e assoviar são sinônimos, as duas formas estavam corretas. Bito decidiu optar por assobiar, parecia mais coisa de menino, assoviar parecia palavra de gente grande.

O tempo ia passando e o assobio continuava o encantando e assombrando. Em casa, sozinho em seu quarto, ele experimentava assobiar e... nada! O sopro em uma vela faria som melhor! Bito pensava, pensava: como ele poderia compensar o fato de não conseguir assobiar?

Após anos de tentativas, Bito chegou à conclusão de que não tinha sido feito para assobiar. "Pelo menos posso ouvir os assobios de quem sabe assobiar" pensava ele. E não guardou mágoa em seu coração, se alegrou por saber fazer tantas coisas, e por ter alguém que fizesse o que ele não conseguia, e que tanto o encantava.

Mas, naquele ano Bito foi surpreendido por seu avô com uma gaita de presente de natal! Bito ficou extasiado, pela primeira vez o seu sopro emitiu um som! Um som desafinado e desagradável, é verdade, mas era um som!

Bito ficou ainda mais entusiasmado quando seu avô disse que sabia tocar e ia lhe ensinar. Ele se dedicou de corpo e alma para aprender a tocar a gaita durante as férias, e logo se tornou um excelente gaitista. Agora, além de ser um garoto legal, ele era um garoto legal que tocava gaita!

Na hora do recreio os colegas pediam: "Bito, toca a sua gaita!". E Bito lembrava dos assobios de sua mãe, de seu pai e tantos que já havia ouvido e imaginava que aquele som era o seu próprio assobio, enquanto tocava a gaita. Todos ouviam em silêncio e quando terminava saiam correndo para brincar. Era assim era todos os dias.

Naquele ano chegou uma nova aluna na escola, era tímida e quieta. Seu nome era Rebeca. Por muitos dias, na hora do recreio, ela f**ava sozinha, observando com rabo de olho os colegas em volta de Bito tocando sua gaita. Um dia, após uma de suas apresentações e dos colegas irem brincar, Bito, que era um garoto legal e já havia percebido que a colega estava sempre solitária e isolada, decidiu falar com ela.

Parou diante dela e disse: "oi!". Ela levantou o rosto surpresa e envergonhada e respondeu baixinho: "oi!". Bito sentou ao seu lado. Assim, como se já não soubesse, ele perguntou: "Seu nome é Rebeca, né?" Ela respondeu: "Sim! Mas meu apelido é 'Neca'!" "Porque você recebeu esse apelido?" Perguntou Bito. "Porque 'Neca' foi a primeira palavra que eu falei." Bito perguntou se não devia ser "Beca", de Rebeca, então ela contou de onde veio seu apelido. "Quando eu era bebê", disse ela, "não conseguia falar 'boneca', falava 'Neca' aí este virou meu apelido", completou ela. Bito ficou impressionado que ambos tivessem como apelido a primeira palavra que falaram, e decidiu que queria ser amigo de Neca!

Ele já tinha percebido que ela f**ava de longe ouvindo e observando quando tocava sua gaita, e perguntou se ela queria ouvi-lo tocar. Imediatamente ela levantou a cabeça e com os olhos brilhando, e respondeu animada: "Sim! Quero!" Pela primeira vez Bito tocou sua gaita sem lembrar de assobio, tudo o que ele queria era agradar a sua mais nova amiga, fazendo uma apresentação exclusiva para ela.

Neca o ouviu tocar tão impressionada e encantada como Bito f**ava quando ouvia sua mãe e seu pai assobiar. Quando ele terminou de tocar, Neca, que quase não falava, disse: "Ah, como eu queria conseguir fazer um som tão bonito. Mas, eu só sei assobiar!"

Ao ouvir Neca dizer que "só sabia assobiar" Bito foi tomado por uma avalanche de emoções, mil coisas passaram por sua cabeça, como ela podia dizer que "só sabia assobiar", se era tudo o que ele sempre desejou? Após alguns segundos de silêncio, ele finalmente e pela primeira vez na vida confessou: "Neca, tudo o que eu queria, era saber assobiar! Assobia pra mim!" Neca, deixou de lado a timidez e assobiou para Bito a mesma melodia que ele tocou na gaita, sentindo pela primeira vez o valor de saber assobiar e de oferecer a alguém aquilo que ela tinha, e nem sabia que alguém admirava tanto! Bito fechou os olhos e sorveu cada nota do assobio de Neca, como fazia ao ouvir o suave assobio de sua mãe, quando era bebê. Após alguns instantes, ele pegou sua gaita e se uniu a Neca naquele espetáculo de som e emoção!

Nascia ali uma amizade verdadeira, tinham prazer na companhia um do outro, admiravam e apreciavam a habilidade um do outro e confessavam seus medos e inabilidades, porque havia confiança entre eles. Estavam sempre juntos, conversando, brincando, estudando, assobiando e tocando gaita. Assim seguiram em sintonia e sinfonia, espalhando lindas melodias pela vida afora!

20/06/2022

AprEnder E AprEEnder: é a resposta!

Segundo matéria amplamente divulgada na internet, "recentemente um especialista em Inteligência Artificial - IA - do Google foi afastado depois de afirmar que o sistema que a empresa tem para desenvolver chatbots (software que tenta simular um ser humano em bate-papo por meio de inteligência artificial) "ganhou vida" e teve com ele conversas típicas de uma pessoa... "Blake Lemoine percebeu que o LaMDA estava falando sobre sua personalidade, seus direitos e desejos." (Fonte G1)

O que isso tem a ver com "aprEnder e aprEEnder"?

"O verbo "aprEnder", signif**a tomar conhecimento, receber a informação. "AprEEnder", do latim apprehendere, signif**a segurar, prender, pegar, entender, compreender, assimilar. Não se trata de um verbo passivo; para aprEEnder é preciso agir, exercitar-se, informar-se , tomar para si, apropriar-se."

Enquanto "aprEnder" é a construção do conhecimento, "aprEEnder" é a capacidade de entender, transportar o conhecimento, fazer links, unir um conhecimento e outro e criar um novo conhecimento. A notícia da IA do Google, citado no início do texto, que segundo Blake Lemoine "ganhou vida", é o exemplo claro de aprEnder e aprEEnder. AprEEnder é "dar vida" ao conhecimento, tornar o "aprEnder" dinâmico e útil. Portanto, aprEnder sem aprEEnder é apenas construir um arquivo de conhecimento e informações estático e sem vida.

É possível que um software de Inteligência Artificial possa ser programado para apropriar-se das informações gravadas e, a partir delas, desenvolver a capacidade de "simular personalidade, reconhecimento de direitos, e desejos" mas, ainda assim, continuará sendo apenas um programa virtual; entretanto, no ser humano essa capacidade é real e precisa ser estimulada e direcionada, desde a infância e por toda a vida, para que aprEnder e aprEEnder seja um processo que resulte no mais alto e aprimorado desenvolvimento cognitivo e prático.



18/06/2022

Ensino filosófico socrático X
Ensino formal contemporâneo

Na Atenas antiga, Sócrates, com seu método de ensino/aprendizado revolucionário, (irônico considerar revolucionário a capacidade de pensar!) atraía os jovens da época para sua "sala" de aula, a praça pública, e ali, através do diálogo, do debate, tendo como método o questionamento, os jovens atenienses eram desafiados a encontrar respostas a partir da reflexão sobre diversos temas, e a vencer a própria ignorância (deixar de ser alienado, ou seja, alheio à sua própria existência e papel no mundo) através do auto conhecimento e do conhecimento do mundo ao seu redor.

O pensamento filosófico e ensino de Sócrates incomodaram as autoridades e cidadãos atenienses que o levaram a julgamento sob a acusação de corromper a juventude de sua época. Em seu julgamento deram a ele o direito de viver, se parasse de participar de debates públicos, ao que ele respondeu: “a vida irrefletida não vale a pena ser vivida”, preferindo morrer a viver sem questionamentos, pois não questionar suas ideias era viver na completa ignorância. Sócrates foi condenado à morte por envenenamento com cicuta, veneno que ele bebeu com tranquilidade e coragem, usando o motivo de preferir a morte e a sua forma de enfrentá-la, como última lição aos seus pupilos.

É um choque de realidade, após refletir e escrever sobre o ensino socrático, refletir e comparar com o ensino formal contemporâneo. É muito injusto com as crianças e jovens os rumos que tomaram a educação! Se por um lado a sistematização e formalização do ensino trouxeram muitos benefícios e colocou a educação ao alcance da maioria das crianças e jovens, por outro, o método de ensino engessou o pensamento, o aprendizado tornou-de apenas um meio de "passar na prova", "passar de ano", "alcançar nota no ENEM para ingressar na universidade". O aprendizado deixou de ser a motivação da espetacular capacidade intectual da criança e do jovem, para ser o meio de se chegar a um fim e, na maioria das vezes, esses alunos, exaustos de longos anos de estudos, que lhe trouxeram conhecimento, mas não o auto conhecimento e do mundo, tornam-se profissionais medíocres e infelizes, por não sentirem prazer no que fazem, pessoas estagnadas num estado de letargia intelectual, frustradas e desiludidas, alienadas, alheias de si mesmas e da importância do seu papel no mundo e na sociedade.

Aprender precisa ser uma aventura, uma viagem sem fim, cujo veículo seja a sede de conhecimento, inerente a todo ser humano, o condutor seja o próprio aprendiz, o combustível seja o questionamento e o resultado seja descoberta. E assim, nesse movimento ininterrupto, o processo de aprendizagem aconteça e faça as mudanças internas e externas, como resultado natural desse movimento.

Uso o método de Sócrates para ensinar, o diálogo baseado no questionamento. Não dou respostas prontas, faço perguntas que desafiam o aluno a pensar e a encontra-las. Fico perplexa e encantada ao ver que em apenas uma hora de diálogo, eles são atraídos em direção à luz do conhecimento. Esse é o poder que há dentro de todo ser humano que só precisa ser despertado, e é mais que um despertar para o conhecimento, é também para o auto conhecimento. É gratif**ante ver a alegria deles ao descobrirem que são mais capazes do que imaginavam e, conhecendo melhor a si mesmos, sentem segurança e são estimulados e atraídos para novas descobertas e aprendizado.

Em minha experiência como mãe e como professora, fui percebendo que toda criança, adolescente e jovem tem sua própria forma e tempo de aprender, e entendendo que o papel dos pais e professores é conseguir fazer um ponto de contato com cada um, respeitando esse tempo e capacidade cognitiva, incentivando-os individualmente e pessoalmente a desenvolverem suas capacidades e habilidades, e se colocando como suporte para os auxiliar em suas dificuldades e inabilidades, de maneira que se sintam, tanto confiantes por se saberem capazes, como confortados por saberem que todos temos dificuldades e que não há nada de errado nisso!

É necessário que os educadores sejam instrumentos de transformação, que conduzam as crianças, adolescentes e jovens a se libertarem das prisões a que foram confinados, ao serem levados a acreditar que aprender é uma experiência ruim, e sejam trazidos para o prazer de descobrir, de aprender, de oferecer suas habilidades e capacidades e introjetar novos aprendizados, nas diversas formas de interação, inclusive e especialmente na escola.

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