Instituto Cultural Boanerges Sena

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ICBS - 43 anos de existênciaHoje o Instituto Cultural Boanerges Sena completa 43 anos de existência. Durante esse percur...
23/09/2024

ICBS - 43 anos de existência

Hoje o Instituto Cultural Boanerges Sena completa 43 anos de existência.

Durante esse percurso já foi descrito como um oásis literário e o sonho dos pesquisadores.

A partir de junho de 1993 instituímos o livro de frequência e desde essa data mais de 25 mil pessoas registraram suas presenças no ICBS, oriundas de 17 países e de 25 estados brasileiros, exceção de Sergipe e Piauí.

A professora/historiadora Terezinha Amorim assim se referiu ao ICBS:

“Estar no Instituto é muito prazeroso, lá se respira ciência e cultura, é o lugar onde podemos conhecer a nossa história e fazer memória aos nossos antepassados. O ambiente é muito acolhedor, onde sempre queremos voltar para ver e conhecer a história registrada de diferentes formas, tão bem cuidado.”

E assim vamos seguindo com a missão de preservar a memória cultural, social, política e ambiental do município de Santarém e região., e disponibilizar aos frequentadores do Instituto Cultural Boanerges Sena.

O Instituto é o nosso vício, pois para o vício se arranja tempo e dinheiro.

13/09/2024

Propaganda e Poder

Em agosto de 2010 o país vivia o clima de eleição para Presidente da República e Governadores.
A briga por votos era intensa e eu aproveitei artigo do Manuel Dutra publicado no seu blog, intitulado “Microfísica do Poder”, e outro do Tibério Allogio publicado no blog do Jeso, intitulado “Sociedade da mentira”, para escrever artigo com o título “Propaganda e poder” publicado em agosto de 2010 no blog do Jeso.
Artigo que devido ao clima de campanha que vivemos hoje em todo o Brasil, republico agora:

Meus amigos, o Manuel Dutra escreveu semana passada sobre a teoria criada pelo historiador Michel Foucault, intitulada “Microfísica do Poder”, onde demonstra que “o poder se exerce de múltiplas formas e não somente a partir de grandes estruturas, como a máquina do Estado e outras estruturas sociais historicamente poderosas, como a Igreja, a escola, as forças armadas, o estamento policial”.

Nessa mesma semana, Tibério escreveu no blog do Jeso artigo intitulado “Sociedade da mentira” no qual analisa a força da comunicação e o poder da publicidade.
Onde expõe os “malefícios que a publicidade produz na sociedade por induzi-la a como consumir a vida, impondo modismos e comportamentos em benefício de uma máfia mundial que controla os produtos oferecidos por ela, fazendo com que a sociedade passe a acreditar na religião publicitária”.

Os dois artigos colocam o Poder e a Propaganda na berlinda, abrindo oportunidade para novas reflexões sobre o tema. E o Poder sempre esteve umbilicalmente ligado à Propaganda, pois ela “compreende a ideia de implantar, de incutir uma ideia, um produto, uma crença na mente alheia”.

Essa é a filosofia da propaganda, sem isso ela deixa de ser propaganda para se transformar em conto da carochinha.
Até a propaganda identif**ada como educativa é baseada nesses princípios. Sempre foi assim e será.

O estabelecimento do nazismo foi fruto de uma propaganda elaborada e conduzida por Joseph Goebbels, ministro de Hi**er, que ficou marcada pelo ódio aos judeus, alimentado pelo seu fanatismo pelo poder.

Pode até parecer impossível para muitos, mas mesmo conhecendo o final dessa história escrita na Europa, corremos o risco de repeti-la através de uma nova roupagem propagandística nas mãos de novos loucos.

Recuando mais um pouco, constata-se que as religiões, qualquer uma delas, há séculos oferecem o paraíso como um lugar onde há rios de água impoluível; rios de leite de sabor inalterável; rios de vinho deleitante para os que o bebem e rios de mel purif**ado.
Ali terão todos os tipos de frutos, com a indulgência do Senhor. Ninguém trabalha, não há sofrimento.

Na busca do poder temporal querem propaganda mais explícita do que essa, onde verdadeiro condomínio fechado classe A é oferecido aos fiéis seguidores dessas religiões?

A única coisa que eu modif**aria na descrição do Jardim do Éden era substituir o vinho pela cerveja. Vale ressaltar que não tenho a pretensão de negar a existência do paraíso, mas analisar a sua propaganda.

Em termos de Brasil e mundo, os modernos suportes da propaganda são capazes de alcançar praticamente toda a sua população, provocando uma alienação em massa que faz com que os desvios de comportamento a que o Dutra denominou de “microfísica da corrupção” sejam considerados normais, perdendo visibilidade ante os assaltos aos cofres públicos que envolvem a classe política associada aos lobistas, dois segmentos que representam parte do poder dominante, hoje cada vez mais concentrado nas mãos da máfia identif**ada pelo Tibério.

Assim, dentro desse contexto de alienação geral da sociedade provocada pela propaganda dominada pelo poder, é compreensível a comoção nacional que provocou no país a eliminação da nossa seleção pela Holanda na Copa do Mundo da África do Sul.
O assunto mexeu com todas as classes sociais e o técnico Dunga foi defenestrado na hora.

Todos os jornais, revistas e blogs, de todas as cidades, abriram manchetes para analisar a catástrofe que derrubou a Canarinho. Até o presidente Lula, decepcionado, criticou o goleiro Júlio César e o Felipe Melo.

Com a pífia participação no Mundial, o Brasil caiu do 1º lugar para o 3º no ranking da FIFA.

Entretanto, quando foi anunciado o resultado do Relatório Educação para Todos, divulgado em janeiro pela Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), que expôs a baixa qualidade do ensino nas escolas brasileiras, colocando o País na 88ª posição no Índice de Desenvolvimento Educacional (IDE) dentre 128 países pesquisados, esse pífio desempenho na educação não provocou a mínima comoção na sociedade, manchetes nos jornais nem pronunciamento do Presidente.

Poucos ainda se lembram desse relatório, sendo que a esmagadora maioria da população nem sabe que ele existe.

No governo ninguém foi defenestrado por causa da nossa colocação no IDE.
Se na eliminação na África do Sul, no futebol, a enxurrada de criticas sobre o fato demitiu o Dunga, com relação ao Relatório Educação ela quase não existiu.

E não lembro ter lido crítica explicita do Lula ao Ministro da Educação, como fez com o Júlio César e o Felipe Melo, escolhidos pelo Presidente como bodes expiatórios do nosso fracasso.

A notícia circulou pela mídia como um foguete espacial, sumindo imediatamente do noticiário da grande imprensa brasileira, sem deixar rastro.

Na educação, o fracasso não conseguiu mexer com a sociedade, ninguém foi punido nem convocado para explicar as razões da insólita colocação conseguida no campeonato mundial patrocinado pela UNESCO.

O povo, indiferente ao resultado, não identificou que eram seus filhos que na verdade estavam sendo reprovados pelas Nações Unidas. E a propaganda, socorrendo o poder estabelecido, entrou logo em cena para desviar o foco das notícias para longe do relatório.

É assim que é construída a alienação nacional denunciada pelo Tibério e o Manuel Dutra.

Enquanto isso, aqui e alhures vão sendo loteados os cargos na administração pública em troca de apoio na campanha que se avizinha.

Ação que alimenta as “micromáfias” disfarçadas em partidos políticos, que por sua vez alimenta a “microcorrupção” que domina a consciência coletiva.

Tudo isso em nome do poder, garantido através de dispendiosa propaganda paga por nós.

Muitas vezes nos dá vontade de desistir, mas não podemos agir assim. Não podemos perder a esperança de uma Santarém, de um Pará, de um Brasil e de um Mundo melhor.

Porém está f**ando difícil, após ler o que o Dutra e o Tibério escreveram, manter acesa a tocha dessa esperança. Acredito que o caminho passa pela educação, mas este 88º lugar me deixou meio desanimado.

O poder, desde a sua origem, possui enorme potencial de transformar, para pior, o caráter e a personalidade das pessoas que o detém.

Segundo Denis Diderot, “se tudo cá na Terra fosse excelente, não haveria nada de excelente”.

Ainda bem que o filósofo francês disse isso. Pelo menos serve como co***lo!

Sônia Ohana Sexta-feira passada, 23 de agosto, f**amos sabendo que tinha falecido no Rio de Janeiro, Sônia Ohana. Moça e...
27/08/2024

Sônia Ohana

Sexta-feira passada, 23 de agosto, f**amos sabendo que tinha falecido no Rio de Janeiro, Sônia Ohana.

Moça esbelta, elegante, bonita. Sônia morou vários anos em Belém, tendo sido eleita Miss Pará e conquistou a 3ª colocação no Miss Brasil de 1967.

Em 1966, para a Copa do Mundo na Inglaterra, ela foi escolhida como Madrinha da Seleção Brasileira de Futebol.

Nesse mesmo ano de 1966, o Prefeito Everaldo Martins que tinha o futebol correndo nas veias, em parceria com o presidente da Liga Esportiva de Santarém Elinaldo Barbosa, inaugura a nova sede da Liga na presença de várias autoridades, dentre elas o presidente da Federação Paraense de Desportos Péricles Guedes de Oliveira, o coronel Mário Imbiriba, o advogado Silvério Sirotheau Corrêa.

Para abrilhantar ainda mais a festa, como convidada especial estava presente a Madrinha da Seleção Brasileira de Futebol, Sônia Ohana.

Em conversa com o Oti Santos, lembramos que o Prefeito Everaldo Martins aproveitando a excursão do Esporte Clube Baia pela região Norte, organizou um torneio quadrangular interestadual envolvendo as equipes locais do São Raimundo, São Francisco, América e o Esporte Clube Baia.

Como em março de 1966 o América tinha conquistado o título de campeão santareno de 1965 ao vencer o Flamengo por 7x0, o primeiro jogo do torneio foi entre o Esporte Clube Baia e o América, com o pontapé inicial da partida dado pela Madrinha da Seleção Brasileira Sônia Ohana, jogo que aconteceu no dia 24 de abril de 1966.

Eu fazia parte do time do América que enfrentou o Baia nesta, para mim, inesquecível partida no estádio Aderbal Corrêa.

Perdemos por 2x1, com dois gols do ponta esquerda Babá, que tinha sido ídolo do Flamengo do Rio de Janeiro.

Cristovão Lins marcou para o América, que entrou em campo com Cafo, Bode, Praxedes, Coruja, Lulu, Cristovam Sena, Cacareco, Ataualpa, Tovica e Mariano.

O Esporte Clube Baia levantou o caneco de campeão do torneio quadrangular, mas não lembro quem ele derrotou na final, se Leão ou Pantera.

Na foto, um jogador do Baia, agachado, segura a bola da partida. Nessa época as bolas de futebol eram marrons, fabricadas de couro curtido e bexigas de boi.

”Saga de um caboclo da Amazônia”Manoel Ivair Chaves foi um empreendedor de grandes projetos sociais e econômicos. Com ca...
20/03/2024

”Saga de um caboclo da Amazônia”

Manoel Ivair Chaves foi um empreendedor de grandes projetos sociais e econômicos.

Com capacidade de desenvolver múltiplas atividades simultaneamente, era um verdadeiro “Homem dos sete instrumentos”.

Pelo o que realizou durante sua passagem pela terra e pelo o que vi e senti ao conviver com ele, Ivair sempre demonstrou ser uma pessoa altruísta, preocupado com o outro menos favorecido, por isso seu envolvimento com importantes projetos sociais em Santarém.

Ao escrever sua autobiografia ”Saga de um caboclo da Amazônia” narrando a história da sua fantástica vida, f**a a impressão, pra quem não o conheceu, que ele estava delirando.
Na introdução, Ivair explica que não escreveu apenas para os amigos mais próximos, mas também para os seus filhos, netos e bisnetos saberem como foi difícil conseguir algumas coisas na vida com honestidade e trabalho. E Ivair passa a narrar a história de sua odisseia improvável, desde quando era um jovem em busca de sua identidade até se tornar próspero empresário.

Sua visão social o levou a empreender em parceria com a Dra. Clara Takaki Brandão, o projeto Casulo, hoje denominado Creche SEARA (Associação Santarena de Estudos e Aproveitamento dos Recursos da Amazônia), entidade criada em 1978 que até hoje atende crianças de 1 a 5 anos de idade, localizada no bairro de Santana, em Santarém.

Além de receber os filhos dos pais com dificuldade e carência em saber onde deixar os filhos durante o tempo de trabalho, a Creche educa e combate a desnutrição das crianças. Dra. Clara revolucionou a alimentação na Creche com a criação da famosa multimistura, um pó que no início era produzido com folha de taioba, folha de macaxeira e farelo de arroz.

Ivair fundou a “Associação de Menores e amigos de Dom Tiago”, que acolhe crianças de quatro a oito anos, oferecendo aulas de reforço escolar, cidadania, recreação e alimentação, com a finalidade de formar crianças cidadãs ensinando-lhes direitos e deveres, funcionando hoje em prédio próprio.

Foi um dos fundadores do Sindicato dos Produtores Rurais de Santarém. Como presidente deu apoio aos universitários participantes do Projeto Rondon, alunos que vinham de Florianópolis fazer intercâmbio em Santarém. Sua fazenda Santana do Ituqui servia de base de treinamento para a última aula prática dos estagiários do Projeto Rondon.

Como presidente da Associação Comercial de Santarém no período de 1999/2000, Ivair promoveu o 1º Seminário de Geração de Emprego e Renda, realizou a climatização do auditório Mário Mendes, criou o Conselho da Mulher Empresária e deixou encaminhado a criação do Conselho de Jovens Empresários.

Em dezembro de 2019 recebi a visita do Ivair Chaves no ICBS, tinha assistido na televisão a reportagem sobre o lançamento da 4ª edição do livro Tupaiulândia do Paulo Rodrigues dos Santos, veio para adquirir um exemplar.

Conversamos bastante, ele não conhecia o Instituto, elogiou nosso trabalho e aproveitou para falar de um livro que estava escrevendo sobre a sua experiência vivida nas últimas seis décadas, com foco no agronegócio, extrativismo e mineração na região do Oeste do Pará.
Ficou de me trazer o texto para eu trabalhar e preparar a boneca para ele ver. O tempo passou, envolvido por seus afazeres pessoais, Ivair acabou esquecendo. Uma pena!

Se no livro ”Saga de um caboclo da Amazônia” Ivair nos conta sua história de vida, nesse inédito e anônimo livro que pretendia publicar, tudo leva a crer que fala sobre uma das bases econômicas da região numa visão não acadêmica, mas fruto do seu conhecimento prático, daqueles que colocam a mão na massa.

Manoel Ivair Chaves nasceu no dia 07 de abril de 1939 e faleceu dia 18 de março de 2024.

Conheço a família Cabral (não a do Sérgio) desde o início da década de 1960. O patriarca Jubal Cabral era amigo do meu p...
08/07/2017

Conheço a família Cabral (não a do Sérgio) desde o início da década de 1960. O patriarca Jubal Cabral era amigo do meu pai Boanerges. O futebol os aproximou, ambos torciam pelo São Raimundo.

Devido a diferença de idade, sou um pouco mais velho que os seus três filhos homens, não tivemos uma convivência mais próxima aqui em Santarém na nossa adolescência.
O que foi acontecer já em Belém, primeiro com o Jubal Cabral Filho, quando moramos juntos numa república de estudantes na Vila Farah e ele era o nosso provedor de despesas. Depois me aproximei do Judibal com quem joguei algumas peladas e fiquei admirado com o seu futebol requintado e, por último, com o Edibal P**a, já aqui em Santarém, com quem passei a conviver nas peladas de final de semana no Campo Novo e nos tornamos amigos, com frequentes papos regados a cerveja, aqui e em Alter do Chão.

No dia 23 de junho passado aconteceu o sinistro que a gente pensa que só ocorre com os outros: a residência do amigo P**a foi consumida pelo fogo. Perda material total.
A partir desse momento a família Cabral, juntamente com seus amigos, viveram momentos de apreensão e angústia.

Mas isso vai passar. Está passando. Daqui a alguns meses poderemos afirmar que já passou!

Várias lições dessa fatalidade que aconteceu com o nossos amigos P**a e Lúcia podem e devem ser aprendidas.

Um acontecimento desses dá outro signif**ado à vida, tenho certeza que a família está mais unida e deu oportunidade para que descobrissem nas pessoas com quem conviviam pouco, coisas fantásticas.

Ah os amigos, cada um deles é um anjo da guarda a nos proteger. Aonde existe amor e respeito os amigos estão presentes, está presente a família.

Por isso está de parabéns a "Grande Família P**a" que domingo passado protagonizou momentos de agradável confraternização no Iate Clube, durante a "Feijoada beneficente" que contou com a presença do bispo D. Flávio.

Pena que com a Rute, estivéssemos longe.

Coisas da vida!

Foto 01: P**a com amigos no Campo Novo
Foto 02: Carnaval de 2016 em Alter do Chão. Bloco da Alegria comandado pelo Guara

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Santarém e a sua vocação econômicaAo longo dos seus 356 anos de fundação, passando por Missão, Vila e Cidade, Santarém, ...
24/06/2017

Santarém e a sua vocação econômica

Ao longo dos seus 356 anos de fundação, passando por Missão, Vila e Cidade, Santarém, assim como as pessoas, vem convivendo com seus dilemas existenciais.
O atual diz respeito à sua vocação econômica, que envolve duas correntes distintas de pensamento: a das ONGs ambientalistas e dos movimentos populares que levantam a bandeira da preservação do meio ambiente, contra os desenvolvimentistas que têm no meio ambiente a matéria prima necessária para promover o “desenvolvimento” deles, e desejam transformar o município num produtor e corredor de exportação de grãos proveniente do Centro Oeste brasileiro.

A expansão da fronteira agrícola em Santarém já é fato consumado, como já ocorreu em outras regiões do Brasil. É sempre bom lembrar que o bioma cerrado, caracterizado por seu clima seco e árvores retorcidas, encontrado em vários estados do Planalto Central, já foi considerado como impróprio para agricultura. Foi assim que aprendi nos meus livros de geografia no Dom Amando.
Com o tempo, a cultura da soja veio subindo o mapa e hoje a maior produção de grãos do Brasil é proveniente do "improdutivo cerrado".

Em Santarém ela chegou na década de 1990.
Pela sua localização geográf**a, banhada pelos rios Amazonas e Tapajós, além de produtor de soja, o município vem sendo adaptado para se consolidar como grande corredor de exportação de grãos do Oeste Paraense.
Escoar a soja produzida no Mato Grosso pelo porto de Santos ou Paranaguá, custa US$ 120 a tonelada, pelo porto de Santarém 80 dólares. 50% mais barato.
Este dado esclarece o forte interesse do agronegócio em viabilizar esse corredor de integração Santarém/Cuiabá.

No final do ano de 2003, participei em Belém, no Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), do seminário "A Geopolítica da Soja na Amazônia", onde foram discutidos os impactos sócio-ambientais produzidos no bioma amazônico, decorrentes da expansão da fronteira agrícola motivada principalmente pela produção de grãos, em especial o cultivo da soja.

Este processo continua a merecer uma ampla discussão em virtude de suas demandas para consolidação de infra-estrutura do sistema de produção/exportação, no nosso caso terra/estrada/porto, que agrava a expansão do sistema de latifúndios, gerando conflitos entre grandes produtores e populações tradicionais das comunidades, transformando paisagens.

Este padrão de ocupação e uso da terra, como bem disse Peter Toledo, diretor do MPEG, na abertura do Seminário, exige uma reflexão e posicionamento por parte da comunidade acadêmica, que tendo como base informação e conhecimento científico sólidos, deve analisar pontos importantes e resolver questões estratégicas como, por exemplo, se os padrões de uso e mudança da terra e critérios de sustentabilidade dos modelos agrícolas reproduzidos de outras regiões brasileiras, podem ser compatíveis com a especificidade da floresta tropical úmida da Amazônia.

Um dos desafios do setor ambiental da Amazônia não está, necessariamente, em evitar o desmatamento a qualquer custo, mas na falta de informações sobre o potencial da floresta e os benefícios que podem trazer seus recursos naturais.

No governo Ruy Corrêa (1993/96) o município ganhou a estrutura organizacional que mantém até hoje.
Nesse período, a Prefeitura assinou convênio com a Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais - CPRM, empresa vinculada ao Ministério de Minas e Energia, para realizar levantamento das potencialidades do Município.
As informações obtidas foram disponibilizadas em forma de inventários, que recebeu o nome de PRIMAZ - Programa de Integração Mineral em Municípios da Amazônia.

Esse minucioso levantamento das potencialidades dos espaços municipais gerou mapas temáticos que possibilitavam (e possibilitam) às autoridades do município e do estado o acesso aos elementos necessários à elaboração de planos de desenvolvimento regional que, infelizmente, f**a a impressão, nunca foram utilizados.

O PRIMAZ informava que o município possuía 600.000 hectares com áreas alteradas, que quer dizer áreas que foram desmatadas e depois abandonadas ou transformadas em pastagens mal manejadas.

Foi com base nessa informação que a soja veio para f**ar pois, segundo o discurso da época, não seria preciso desmatar para se estabelecer o pólo sojeiro em Santarém, dando início ao ciclo do agronegócio na região.

Em 1996 foi implantado um projeto piloto com objetivo de testar diversas variedades de soja em Santarém. Isso ocorreu numa área de propriedade do senhor Francisco Quincó, na comunidade do Diamantino, a 12 km do porto da CDP.
Projeto idealizado pela AGRÁRIA - Engenharia e Consultoria S/A, empresa do Paraná, em parceria com o Grupo Quincó.
É que no ano anterior a AGRÁRIA tinha sido contratada pelo estado para "identif**ar métodos e procedimentos para a exploração das várzeas da região, em bases econômicas e ambientalmente sustentáveis" e, casualmente, acabou se transformando no catalisador que desencadeou tudo o que hoje se observa com relação a produção de grãos em larga escala no Médio Amazonas. Prometo um dia contar essa história.

A ideia da AGRÀRIA era produzir soja em Santarém, pertinho do porto, valendo-se dos 600 mil hectares alterados.
O raciocínio da empresa era que mesmo que a produtividade fosse menor que a do Sul e Centro Oeste, esse fator poderia ser compensado pela economia do frete.
Porém a produtividade apresentada por algumas variedades, já no primeiro ano, deixou todos animados: 57 sacas por hectare, não f**ando nada a dever ás regiões de alta produtividade.
Esse resultado provocou a corrida de produtores de outros estados em direção a região e, com eles, recrudesceu o êxodo rural da agricultura familiar que tradicionalmente produzia em pequena escala com baixa produtividade no planalto santareno.

A abertura de novas áreas para o plantio adquiriu proporções geométricas em relação aos anos anteriores, transformando a paisagem ao longo da BR-163. A busca desenfreada por terras acabou em grilagem, gerando conflitos que foram parar na polícia.

Hoje, algumas comunidades estão praticamente extintas, restando somente o nome. Seus moradores venderam seus lotes e as casas foram dando lugar a áreas mecanizadas para produção de grãos. Escolas foram fechadas por falta de alunos, linhas de ônibus desativadas por falta de passageiros. O discurso inicial de que não seria preciso desmatar para se estabelecer o pólo sojeiro em Santarém não passou de discurso.

O Pará é um estado rico, mas apresenta alguns dos piores índices de desenvolvimento humano, o que mostra que alguma coisa não está funcionando de forma apropriada, que muita coisa precisa ser ajustada.
Não podemos nem devemos confundir crescimento econômico, que é a elevação da produção estudada, calculada através da soma de todos os produtos e serviços gerados na região num determinado período, com desenvolvimento econômico, que está relacionado a melhoria do bem estar da população, e é medido através de indicadores de educação, saúde, renda, pobreza, etc.

Resumindo: crescimento de um setor não garante o desenvolvimento do município.

Modif**ar essa realidade não é tarefa fácil. O fato é que ainda não sabemos como fazê-lo dentro do sistema econômico vigente.
O agronegócio exige escala, torna-se necessário encontrar opções econômicas que atendam a grandeza da Amazônia. Eu mesmo, como engenheiro florestal e extensionista da EMATER, já tentei algumas alternativas, dentre elas o pau-rosa e o curauá, mas não vingaram, falta quase tudo (pesquisa, insumos, assistência técnica, recursos financeiros, capacitação dos produtores, vontade) para que se consolide uma cadeia produtiva nesses nichos de mercado, que consiga modif**ar o "modus operandi" da tradicional agricultura familiar.
Sem falar no cupuaçu, andiroba, copaíba, cumaru, etc. Não existem processos de agroindustrialização que agreguem valor à produção primária para aumentar a renda da família, nem conhecemos estudo de mercado dessas culturas.

O tráfico de animais silvestres é hoje a terceira maior atividade ilegal do mundo, só perdendo para o tráfico de dr**as e de armas. Peixes ornamentais e aranhas caranguejeiras fazem parte da relações dos animais contrabandeados aqui da Amazônia. Por que não incentivar a criação desses peixes e aranhas, organizar e estruturar esse mercado?

Foto 01 - Experimento de soja na comunidade Diamantino
Foto 02 - Dia de Campo da soja na fazenda do Francisco Quincó

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Santarém-Cuiabá: 200 anos de históriaNo último dia 27 de abril, o Emanuel Júlio fez o lançamento no auditório da Associa...
12/05/2017

Santarém-Cuiabá: 200 anos de história

No último dia 27 de abril, o Emanuel Júlio fez o lançamento no auditório da Associação Comercial e Empresarial de Santarém - ACES, do documentário "BR-163, a rodovia sem fim", onde mostra as dificuldades de quem se aventura a trafegar por ela, enfrentá-la no período chuvoso de todos os anos, como agora.
Emanuel já trabalhou como secretário de turismo de Santarém, gosta do que faz e escreveu dois livros sobre esse assunto.

A intenção de ligar Cuiabá a Santarém surgiu pela primeira vez em 1819, quando o Brasil ainda era colônia de Portugal.
Na época, já passava pela cabeça da classe empreendedora do Mato Grosso a ideia da construção de uma estrada de ferro ligando as duas regiões.
Por iniciativa do governo mato-grossense, foram iniciados os estudos preliminares para que fosse intensif**ado o comércio com o Pará através de Santarém.

Os anos passaram. Em 1851, o Barão de Melgaço, Presidente do Mato Grosso, informava ao Governo Imperial que a distância aproximada de Santarém a Cuiabá seria de 2.000 km.
Em 1895, a Comissão de Estudos do Plano Geral de Aviação do Brasil considerou a Estrada de Ferro Santarém-Cuiabá “de grande caráter comercial, político e estratégico, e a segunda grande linha de penetração do Brasil, depois da Estrada de Ferro Central”.
Nesse mesmo ano foi aprovado o projeto que autorizava a construção da Estrada de Ferro Santarém-Cuiabá.

A estrada de ferro foi considerada "de grande caráter estratégico", mas o projeto não saiu do papel.
Somente em 1970 o Presidente Médice autorizou (novamente) a tão desejada (pelos mato-grossenses) ligação entre os dois estados. Só que no lugar de ferrovia, agora seria rodovia.

Em visita pelo Nordeste, o presidente se impressionou com a miséria característica daquela região seca que vivia mais uma estiagem e, em emocionado discurso pronunciado no dia 6 de junho de 1970, prometeu tomar urgentes providências para minorar o sofrimento dos nordestinos.

Nordestinos que no século passado, no ardor da 2ª Guerra Mundial, foram convocados por esse mesmo Governo Federal para produzir borracha na Amazônia e cumpriram bravamente com a missão.
Denominados de "Soldados da Borracha", foram abandonados à própria sorte após o término do conflito. Enquanto que a Amazônia ganhou o Banco da Borracha, atual Banco da Amazônia, e Santarém o Serviço Especial de Saúde Pública, hoje Hospital Municipal.

Dez dias após o discurso do presidente Médice no Nordeste, foi criado o Plano de Integração Nacional – PIN, com as seguintes diretrizes: abertura imediata das rodovias Transamazônica, ligando o Nordeste e a Belém-Brasília à Amazônia ocidental, Rondônia e Acre; e a Santarém-Cuiabá, ligando o Mato Grosso à Transamazônica e ao porto de Santarém, dando à região mato-grossense acesso ao Rio Amazonas.

Uma faixa de 10 km ao longo das duas rodovias foi reservada para contemplar o "Programa de Colonização e Reforma Agrária", que iria concretizar o projeto do governo militar com relação à Amazônia e sua baixa densidade geográf**a, impresso nas famosas frases: "Integrar para não entregar"; “Terra sem homens, para homens sem terra”. Que podem ainda ser consideradas atuais, se o conceito de ocupação da Amazônia ainda for o mesmo dos colonizadores da década de 70 do século passado.

Se Barão de Melgaço, em 1851, via na estrada de ferro a saída econômica para desenvolver o seu Mato Grosso, em 1970 Médice visualizava com a rodovia a migração dos flagelados nordestinos para a Amazônia.

O PIN foi o principal programa a fomentar as políticas territoriais na Amazônia. Como o Presidente exigia pressa, tudo foi feito com a pressa exigida.
A estrada foi prometida a 6 de junho de 70 com o discurso no Nordeste, anunciada dez dias depois com a criação do PIN, iniciada a primeiro de setembro do mesmo ano e aberta ao tráfego em 1974.

Iniciada em setembro de 1970, representou uma epopéia na selva. Da luz da ideia ao ronco dos caminhões rodando na estrada passaram-se apenas 4 anos.
Mas sua inauguração oficial aconteceu somente em 1976, com a presença do presidente Geisel.
Era o Brasil dos militares, o Brasil dos “milagres”. Além da BR-163, nesse mesmo período, Santarém presenciou a construção do porto, novo aeroporto, cais de arrimo e a hidrelétrica de Curuá-Una. A cidade viveu a época do pleno emprego, o que acontecia no resto do Brasil com relação ao cerceamento das garantias individuais do brasileiro, não interessava aos mocorongos.

Passada a ressaca da festa inaugural veio a dura realidade. Na mesma velocidade que chegou, ela foi embora. Em cinco anos perdemos a estrada. Sem asfalto e sem manutenção adequada e suficiente para mantê-la trafegável, atoleiros e buracos se multiplicaram.
Do nosso lado, a BR 163 se transformou numa verdadeira pista de MotoCross, já não tinha mais nada de estrada para escoar produção.

Atualmente a rodovia está quase toda pavimentada no trecho dentro do território mato-grossense. Já no trecho paraense, aproximadamente 100km ainda precisam de pavimentação. Com mais de 1.700 km de extensão, a BR-163 corta a Amazônia ao meio, atravessando 71 municípios. Pelo seu histórico, nota-se que ela é fruto da iniciativa de empresários e políticos mato-grossenses, agora impulsionada pelo agronegócio dos grãos.

Eles sabem que escoar a produção pelos portos de Santos e Paranaguá encarece em 50% o custo final da tonelada de soja. Oitenta dólares saindo pela BR-163, cento e vinte por Santos e Paranaguá.

Com o que já gastou recuperando os estragos do inverno, tapando buracos e remendando ponte nesses 43 anos de vida da estrada, creio que daria para o governo ter construído e asfaltado uma nova BR-163. À cada ano as construtoras f**am rezando para que as chuvas cheguem logo.

Nesse ambiente, a grande questão que vem sendo discutida é se é possível conciliar crescimento econômico com justiça social e uso sustentável dos recursos naturais sem agredir o meio ambiente.
Afinal, a estrada atravessa regiões variadas, passando do serrado a densas florestas, reservas indígenas e áreas de garimpo. Onde interesses conflitantes se entrechocam.

Em 1984, em entrevista ao jornalista Oscar Ramos Gaspar, do Jornal Correio Varzeagrandense de Mato Grosso, o coronel José Meirelles, construtor de toda a rodovia, declaraou:
"É fácil fazer uma estrada, mesmo na selva, como foi a o caso da Cuiabá-Santarém. Isso não é nenhuma epopéia. Epopéia mesmo é fazer com que o poder público interiorize os seus mecanismos de assistência e promoção humana, de valorização do homem e da família. Isso é quase impossível..."

Sobre essa estrada, um bom livro para se ler é "Amazônia revelada - os descaminhos ao longa da BR-163."
O da biblioteca do ICBS vem com dedicatória do Maurício Torres, um dos autores do livro:
"Ao ICBS com muita gratidão pela constante ajuda em nossas pesquisas."

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Fotos da BR-163: Peninha Povão

Endereço

Travessa 15 De Agosto, 1248
Santarém, PA
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