Naomar Almeida-Filho

Naomar Almeida-Filho

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Titular da Cátedra de Educação Básica do IEA/USP. Professor Titular (aposentado) de Epidemiologia ISC/UFBA. PhD. (UNC/CH) Dr.Sc.h.c. (McGill University).

Professor Visitante UMontréal, UC Berkeley, Harvard, ULanus, USP. Ex-Reitor da UFBA e da UFSB.

20/09/2020

MICROATIVISMO CIENTÍFICO

A Capes me pediu para emitir um parecer para um projeto da Fundação Humboldt. Em todos os itens onde havia espaço no formulário, acrescentei o seguinte: "Considering the currently reduced public investment in science, technology, education, culture, and the arts, as well as the environmental irresponsibility, cultural obscurantism, and scientific negationism adopted by the Brazilian government, any opportunity for international academic exchange must be encouraged and supported." [Considerando o investimento público atualmente reduzido em ciência, tecnologia, educação, cultura e artes, bem como a irresponsabilidade ambiental, obscurantismo cultural e negacionismo científico adotado pelo governo brasileiro, qualquer oportunidade de intercâmbio acadêmico internacional deve ser incentivada e apoiada]. Qualquer lugar de fala, qualquer formulário eletrônico, qualquer demanda burocrática podem ser transformados em espaço de denúncia e luta por liberdade acadêmica e pela democracia. É importante que todos/as os/as pesquisadores/as mostrem ao mundo sua resistência e insubmissão frente ao autoritarismo em curso em nosso país.

13/08/2020

CEM MIL MORTOS

Quanto dessa tragédia seria evitável? Do ponto de vista epidemiológico, a comparação com a Nova Zelândia permite avaliar o que seria, no limite histórico, em última instância, possível como hipótese mais otimista. Se o Brasil tivesse tomado TODAS as medidas corretas e SEMPRE no tempo certo, teríamos tido aproximadamente mil mortos. Mas alguém pode argumentar: a Nova Zelândia é uma ilha, isolada, distante, rica, com pouca gente, fácil de controlar. A comparação mais justa seria com países pobres, de grande população, alta diversidade territorial. Vejamos a Índia: se aplicarmos aqui as taxas de mortalidade da Índia, o Brasil teria tido menos de 7 mil mortos. Ah, mas os países orientais têm uma cultura muito diferente da nossa... Então vale comparar com a Argentina, país vizinho, com cultura próxima e problemas econômicos e futebolísticos equivalentes. Se o Brasil tivesse a mesma taxa de mortalidade por Covid-19 da Argentina, teríamos agora 21 mil e não os 104 mil óbitos de hoje. São mais de 80 mil mortes que poderiam ter sido evitadas! O que os argentinos tiveram, e têm, e nós não?

11/07/2020

PRECE MISERICORDIOSA PARA REZAR NA QUARENTENA

Autoria: Ordep Jose Trindade Serra

Vai, meu Santo Antônio
Chamar Santo Amaro
Pra dar uma surra
No tal Bolsonaro

São Judas Tadeu
Que usa porrete
Vai logo com gosto
Meter-lhe o ca**te

Meu São Benedito
Da boca do forno
Em nome de Deus
Sapeca esse c***o

Já Lázaro e Roque
Do Pai com licença
Reservam pra ele
Seiscentas doenças

Ó Bárbara Santa
Já sei que tu queres
Lascar esse bruto
Que odeia as mulheres

Com raios ligeiros
Em forma de espinhos
Pinica-lhe as costas
O ventre e o focinho

São Jorge querido
Com a lança guerreira
Espeta-lhe o rabo
De toda a maneira

Que vosso cavalo
Lhe dê um bom coice
E a Morte lhe arranque
Os ovos com a foice.

Quando ele estiver
Caído no chão
Que fique aos cuidados
De vosso dragão.

Se essa alma danada
Chegar a tua porta
São Pedro, com a espada
Os chifres lhe corta

Já sabes, meu santo
Que o Bozo não presta:
Sapeca-lhe o remo
No meio da testa

Convoca Miguel
O Arcanjo mais brabo
Que o lance lá onde
Jogou o diabo

Satã, encantado
Com prenda tão fina
Vai logo atirá-lo
Na sua latrina.

Assim seja,
Pelos séculos dos séculos
Amém.

11/07/2020

PRECE MISERICORDIOSA PARA REZAR NA QUARENTENA

Autoria: Ordep Jose Trindade Serra

Vai, meu Santo Antônio
Chamar Santo Amaro
Pra dar uma surra
No tal Bolsonaro

São Judas Tadeu
Que usa porrete
Vai logo com gosto
Meter-lhe o ca**te

Meu São Benedito
Da boca do forno
Em nome de Deus
Sapeca esse c***o

Já Lázaro e Roque
Do Pai com licença
Reservam pra ele
Seiscentas doenças

Ó Bárbara Santa
Já sei que tu queres
Lascar esse bruto
Que odeia as mulheres

Com raios ligeiros
Em forma de espinhos
Pinica-lhe as costas
O ventre e o focinho

São Jorge querido
Com a lança guerreira
Espeta-lhe o rabo
De toda a maneira

Que vosso cavalo
Lhe dê um bom coice
E a Morte lhe arranque
Os ovos com a foice.

Quando ele estiver
Caído no chão
Que fique aos cuidados
De vosso dragão.

Se essa alma danada
Chegar a tua porta
São Pedro, com a espada
Os chifres lhe corta

Já sabes, meu santo
Que o Bozo não presta:
Sapeca-lhe o remo
No meio da testa

Convoca Miguel
O Arcanjo mais brabo
Que o lance lá onde
Jogou o diabo

Satã, encantado
Com prenda tão fina
Vai logo atirá-lo
Na sua latrina.

Assim seja,
Pelos séculos dos séculos
Amém.

28/05/2020

O Projeto de Lei do FUTURE-SE foi encaminhado ao Congresso Nacional ontem, na surdina, tentando passar a boiada. Ao buscar no link, em despachos do Governo Federal, recebi a advertencia do browser: NAO SEGURO.

25/05/2020
20/05/2020

RETIREI AS POSTAGENS SOBRE ISOLAMENTO VERTICAL PORQUE FORAM REUNIDAS NUM ARTIGO QUE ACABA DE SER PUBLICADO NO EL PAIS BRASIL

19/05/2020

Reflexão densa e inquietante de ORDEP SERRA sobre esses tempos estranhos. Compartilho, enquanto cumpro a promessa de logo completar o que comecei, as postagens sobre as fraudes cientificas na pandemia.

DA OBSCENIDADE POLÍTICA [Parte II]

Vivemos hoje no Brasil um duro momento em que à dor provocada por cruel pandemia se soma o nojo que o espetáculo da obscenidade reinante na mais alta esfera de governo provoca de modo irresistível. Os noticiários resultam duplamente aflitivos. Primeiro choramos ao ver o sinistro progresso da peste, sua marcha incontida, os esquifes empilhados em frigoríficos, a procissão desesperada das ambulâncias e dos carros funerários, a triste expansão dos cemitérios, as valas comuns cada vez mais extensas, o pranto de famílias surpreendidas pela morte de seu membros ou por sua agonia solitária numa espera vã. Estremecemos com a constatação de que o pior ainda virá, de que o colapso do sistema de saúde já começa em quase todo o país. Acompanhamos com temor e tristeza os prognósticos sombrios. Assistimos compungidos a movimentação de milhares de homens e mulheres carentes em filas intermináveis em busca de receber um indispensável auxílio rudemente postergado, regateado, distribuído com incompetência e má vontade, com todos os atropelos de uma burocracia perversa. Já seria muito. Mas ainda temos de suportar o histrionismo sem graça de um governante que se fez aliado da peste, insistindo de modo tenaz em opor-se à única medida capaz de mitigar-lhe a propagação: um presidente que trava o funcionamento do Ministério da Saúde e sem qualquer conhecimento do assunto se arroga em autoridade médica, prescrevendo uma droga em tom de propagandista de esquina, de charlatão consumado. Temos de suportar a performance bisonha do mandatário que depois de ter minimizado de modo irresponsável a doença devastadora continua a promover-lhe a difusão com seu descaso, sua inoperância, sua estultícia, sua indiferença, sua incúria. Diariamente ele dá um pequeno show de grosseria para a reduzida claque que chama de povo, enquanto insulta jornalistas e contesta cientistas com sua vã empáfia. Estarrecidos, nós o vemos injuriar uma senhora com sarcasmo asqueroso, empregando uma metáfora extraída do repertório mais chulo, expressão vergonhosa até para o ambiente de bordéis de quinta categoria — e testemunhamos, incrédulos, as risadas imorais com que homens e mulheres de sua caterva acolhem o dichote imundo. Não cessa por aí o descalabro. Assistimos ainda a manifestações contra a democracia em que o presidente da república discursa para a malta postada em frente de quartéis a reclamar com berros e faixas o fechamento do Congresso, a abolição do STF, a reedição de um infame ato institucional, a implantação da ditadura — e o vemos, depois, negar com cara de pau que assim violou o compromisso assumido em sua posse, cometeu crime de responsabilidade, atentou contra a Constituição.

Mas não é tudo. Quando um repórter lhe menciona o número escandaloso de mortos pelo Covid-19 no país ele reage, de novo, com deboche, coroando seu impudico “E daí?” com um riso de escárnio e uma pífia evocação da impropriedade de seu nome. Pretende assim fazer uma tirada humorística. Mas sabe que não convence. A expressão que emprega, dando de ombros, quisera ser uma justificativa; mas sua estupidez o trai. Como os romanos diziam, “Excusatio non petita, accusatio manifesta”: o repórter lhe pedia um comentário e ele retrucou com uma esquiva, uma desculpa sintomática, embutida num insulto a milhares de mortos que ele se recusou a honrar com um digno lamento, como o cargo lhe impunha; mas também cometeu assim um lapso revelador de sua inegável responsabilidade pela terrível proporção que assumiu a pandemia no país sujeito a seu desgoverno.

Mas efetivamente não vimos tudo. Chega a notícia de uma escabrosa reunião ministerial que teve por tema não o enfrentamento da calamidade, o combate à praga galopante que produz no país um espantoso morticínio, mas a “segurança” (na verdade a blindagem contra investigações) do presidente e de sua família. Reunião tão escabrosa que não a querem divulgada, não apenas por conta do vexame de sua pauta, que já virou assunto de polícia, mas também, como indicam os vazamentos, pelo baixo nível dos diálogos nela acontecidos, recheado de pornéias do presidente e de torpes recomendações antidemocráticas de ministros ensandecidos.

É incontornável a impressão de pesadelo. Num país devastado por doença arrasadora, enquanto médicos e enfermeiros sem equipamentos choram por sentir-se impotentes e os cadáveres se acumulam nos hospitais, enchem contêineres, transbordam das carruagens fúnebres e superlotam os cemitérios, na sede do poder federal se encena uma chanchada, uma ópera bufa, uma farsa grotesca. Parece que assistimos a um filme B, obra de roteirista alucinado e diretor oligofrênico. A comédia não tem graça alguma. Tem o peso sufocante da obscenidade. E o obsceno é triste, mesmo quando ri. Seu riso amargo soa falso, tem o travo da mentira.

Não podemos, não devemos tolerar mais essa farsa nojenta. Ela tem que ser interrompida. Um governo histriônico, obsceno e genocida é por natureza ilegítimo.

19/05/2020

Reflexão densa e inquietante de ORDEP SERRA sobre esses tempos estranhos. Compartilho, enquanto cumpro a promessa de logo completar o que comecei, as postagens sobre as fraudes cientificas na pandemia.

DA OBSCENIDADE POLÍTICA [parte I]

Em um estudo ainda inédito eu procurei denunciar a confusão que muitas vezes se faz entre ironia e sarcasmo. Trata-se mesmo de um equívoco. A ironia é uma operação intelectual que exige sutileza. Para muitos ela consiste apenas em um xeque bem aplicado no curso de uma discussão por meio de um dilacerante argumento ad hominem que leva o adversário ao ridículo. Mas erra quem a vê assim. Embora ela frequente o debate, o verdadeiro propósito da ironia não é polêmico. Ela tem por meta o esclarecimento. Visa a purificação do pensar, a depuração do sentido. Seu difícil emprego tem provocado a reflexão de grandes pensadores (a exemplo de Kierkegaard) desde que ela foi convertida por Sócrates em instrumento da filosofia, em poderosa arma dialética.

O propósito da ironia socrática era (continua sendo) garantir a ultrapassagem de preconceitos. Ela o faz radicalizando a investigação sobre o sentido real do que se julga conhecer. Assim golpeia de modo fulminante o senso comum, destrói com sua agudeza as respostas fáceis, mantém viva a interrogação para além do tido por certo. Seu efeito, já diziam os interlocutores de Sócrates, é similar ao de um choque elétrico: paralisa, gera perplexidade, tira a segurança da convicção. A etimologia que relaciona eironeía com eíromai mostra que a indagação está no seu cerne: é a chama que ela procura manter viva, que as contestações fátuas não apagam. Dessa pergunta imortal nascem labaredas implacáveis, inesperadas, que revelam a ignorância, queimam sua pretensão.

Quem se vale da ironia com a necessária lucidez sabe que lida com instrumento de difícil manejo. Arma ambígua, ela não atinge apenas o alvo imediato de seus cortes em relâmpago. Volta-se também para aquele que a emprega. É um bumerangue com que muita gente se machuca. Manejá-lo exige perícia, discernimento, elegância. E humildade.

O sarcasmo nada tem com isso, nada tem de inteligente. Falta-lhe a finura, a estranha e fulminante delicadeza da ironia. Embora muitas vezes o pretenda, não consegue imitá-la. Pois é sempre grosseiro, sujo, prepotente, soberbo. Cheira mal, tem hálito podre. Embora possa invadi-lo com efeito sempre negativo, não pertence ao campo dialético. Trai-se quando penetra no reino do argumento, pois então transparece sua natureza rude. Nesse contexto o sarcasmo é só a lama da ironia. Dá-se que ele procede de outro espaço: a rigor, constitui apenas uma das formas do obsceno.

Não são muitos os estudos sobre este obscuro domínio fenomenológico, mas importa muito examiná-lo. Convém indagar: que é mesmo o obsceno? Em que região da prática humana ele se situa?

Quem o interroga deve precaver-se logo contra a tentação infeliz de estreitar-lhe o alcance. Justamente porque dele se alimenta, o puritanismo tartufo se esforça em vão por circunscrever o obsceno ao domínio do s**o. É fato que a obscenidade pode envenenar a vida sexual com o v***r da hipocrisia, o impulso de degradação e a frieza cruel que comporta. Mas não é só este esplêndido reino que ela costuma invadir. E sempre vale a pena lembrar que Eros, com sua selvagem pureza, oferece os melhores antídotos contra esse mal ubíquo, capaz de estender-se aos mais variados campos de ação e paixão, tanto na esfera privada como na pública. Inimiga de Eros, a obscenidade tenta imitá-lo e aproveitar-se dele que nem um parasita, mas nada tem do ardoroso impulso erótico. É sempre fria.

Na concepção dos gregos antigos opunha-se ao obsceno a deusa que eles chamavam de Aidós, também capaz de manifestar-se nas mais diferentes esferas da vida, exigindo atenção até na obscura margem da morte. O seu nome traduz-se de forma muito imperfeita por “Pudor”. Essa comum tradução acerta pelo menos em um ponto: o pudor é sem dúvida um sentimento erótico. Outra aproximação do sentido que a figura de Aidós encarna pode transpor-se, ao menos em parte, numa sentença do povo humilde de minha terra: “Onde não tem respeito não se pode viver em paz, não é possível de jeito nenhum viver de verdade”.

O respeito assim pensado, assumido como condição indispensável à paz do convívio humano e à própria verdade que alenta a vida não se confunde com a obediência rotineira a leis e normas. Concerne antes ao valor que lhes serve de fundamento. E cifra o critério último da sua legitimidade. O decoro que Aidós prescreve ultrapassa, portanto, a simples etiqueta. Vai além dos códigos. Funda a própria ética. Cultivá-lo se torna mais necessário que nunca nas situações-limite, nos momentos críticos da vida de homens e mulheres, nas tribulações maiores das sociedades humanas. Já a obscenidade que o afronta, feroz inimiga de Eros, é sempre caótica, tem gana de anomia. Brutal, autoritária, compraz-se na ignorância, deleita-se na mentira, aproveita-se do desespero e o cultiva com frio sarcasmo.

11/05/2020

MULHERES NO COMANDO, MULHERES NO PODER -- Efetividade, afetividade e credibilidade política contra a pandemia da COVID-19

Em meados de abril, um artigo de Avivah Wittenberg-Cox publicado na Forbes Magazine e repercutido em vários veículos de imprensa (The Washington Post, The Guardian, dentre outros) chamou a atenção para o fato de que países liderados por mulheres parecem ter alcançado melhores resultados na luta contra a pandemia da COVID-19. Os exemplos mais destacados foram a atuação firme de Angela Merkel na coordenação das medidas de controle dos danos da pandemia na Alemanha e o estilo empático e ao mesmo tempo técnico de Jacinta Ardern, primeira-ministra da Nova Zelândia.

O assunto foi rapidamente soterrado na mídia pelas tragédias da Itália, da Espanha e dos Estados Unidos, onde se constataram confusão e caos nos respectivos sistemas de saúde, resultando em verdadeiros massacres dos grupos sociais e etários mais vulneráveis. O tema continuou esquecido em função do destaque dado ao negacionismo de alguns governantes de tendência fascista, notadamente o presidente brasileiro que tem sido severamente criticado na mídia internacional por sua postura irresponsável, genocida e suicida.

No Dia das Mães, penso que é pertinente e oportuno retomar essa questão: será que as mulheres são mais eficientes do que os homens como lideranças políticas capazes de coordenar o combate contra a Pandemia COVID-19? Para respondê-la, podemos recorrer a uma perspectiva epidemiológica rigorosa e, ao mesmo tempo, simples e objetiva. Com esse objetivo, utilizei os dados do CDC Europeu, atualizados em tempo real pela Organização Mundial da Saúde. Para analisar melhor o contraste, comparei os 10 países com os mais elevados indicadores de mortalidade por COVID-19 com os 10 países com a mortalidade mais reduzida, selecionados por atravessarem etapas similares da curva epidêmica.

À exceção da Bélgica, todos os países que exibem coeficientes de mortalidade por CVID-19 acima de 200 óbitos/milhão de habitantes são governados por homens. Em apenas dois dos 10 países com maior mortalidade nessa pandemia, a Chefe de Governo é do s**o feminino. Trata-se, neste caso, da Suíça e da Bélgica.

Em contraste, em quase todos os países que apresentam os indicadores epidemiológicos mais reduzidos, as mulheres ocupam o principal cargo político nacional. Dentre aqueles com a menor mortalidade atribuída à COVID-19, apenas Coréia do Sul e China são governados por homens.

Na Tabela, podemos ainda observar uma correlação clara entre os diferentes indicadores, com maiores coeficientes de letalidade e mortalidade concentrados nos países com maior incidência. Exceção notável e intrigante é a Islândia, país que exibe a maior incidência cumulativa da COVID-19 (53/10 mil/hab) e, ao mesmo tempo, a menor letalidade (menos de um por cento). Esse pequeno país, com uma população de 360 mil habitantes, experimentou uma curva epidêmica de rapidíssima ascensão no início de março. Imediatamente, a Primeira-Ministra Katrín Jakobsdóttir coordenou uma política de total isolamento demográfico e controle de novos casos, com testagem abundante de suspeitos e pronto atendimento a todos os que necessitaram de cuidados intensivos.

A eficiência da gestão feminina parece que se deve a uma virtuosa combinação de efetividade e afetividade, com diferentes modelos de atuação geradores de alta credibilidade política. O exemplo de Taiwan, governado pela Presidenta Tsai Ing-wen, é antológico da efetividade gerencial. Após sofrido aprendizado com a pandemia de SARS de 2002, o populoso país-ilha se preparou com cuidado e precocemente implantou um rígido isolamento territorial e controle de acesso e movimento, investindo na prevenção rigorosa da disseminação da doença. O exemplo da Noruega é também antológico, mas representativo de outra linha de ação, a da afetividade solidária. Para viabilizar uma quase total adesão populacional ao plano de contenção da pandemia, a Primeira-Ministra Erna Solberg pessoalmente liderou uma massiva campanha de esclarecimento da opinião pública que envolveu não somente quadros de governo, mas incluiu movimentos sociais e mesmo crianças e jovens estudantes impedidos de irem às escolas e universidades, mobilizados para convencer suas famílias a manter o chamado distanciamento social.

A Bélgica é o país que tem o mais alto coeficiente de mortalidade por COVID-19 em todo o mundo (740/milhão/hab). O fato de que esse pequeno país espremido política e culturalmente entre a França e a Holanda, que atualmente tem os piores indicadores epidemiológicos do mundo, é governado por uma mulher seria aparentemente contraditório com o argumento de que as mulheres no poder constituem potencial fator de contenção da pandemia. Entretanto, após anos de fracasso nas negociações para constituir uma coalisão majoritária, a primeira mulher escolhida como Chefe de Governo em toda a história da Bélgica foi nomeada no final de março deste ano como líder de um gabinete nacional permanente, justamente para liderar o enfrentamento da Pandemia COVID-19. Trata-se da economista Sophie Wilmès, mãe de três filhas e um filho.

Contra a pandemia da COVID-19, os machos-alfa, armados e odiosos, sem qualquer credibilidade política, fracassam. Precisamos urgentemente de efetividade, afetividade, cuidado, solidariedade, transparência e sinceridade. Todo poder às mulheres, mães cuidadosas com filhos e filhas, netos e netas, aquelas que pensam no futuro com sinceridade e esperança. Elas estão a mostrar que é possível salvar a humanidade na maior crise de sua história recente.

[No Dia das Mães: Postagem dedicada a Denise, mãe de nossos filhos, e às minhas filhas Camille e Candy, mães de meus netos e netas.]

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