23/02/2021
Foto de Rita Maria de Souza Breves, colorida por Raphael Nascimento, muito obrigado
Feita para tentar resguardar parte da história que anda se deteriorando aos poucos, neste pais onde são poucos aqueles que se zelam pelo nosso patrimonio.
Olá, me chamo Luiz Bello de Souza Breves Neto, trineto do comendador Joaquim Jose de Souza Breves (REI DO CAFÉ), apenas tomei noção da importância da família quando tinha 14 anos e chegou até minhas mãos embrulhado com muito cuidado em um papel de pão um livro intitulado “O Reino da Marambaia”, antes disso achava que tudo se tratava de estórias que geralmente os mais velhos costumavam contar para
23/02/2021
Foto de Rita Maria de Souza Breves, colorida por Raphael Nascimento, muito obrigado
15/02/2021
Erguida sobre muralhas, rodeada de jardins e pomares; imensa e majestosa. A Fazenda de São Joaquim da Grama serviu como sede de administração do império de Joaquim José de Souza Breves, o Rei do Café. Foi uma notável propriedade, centro de intensa atividade, onde se reuniam as mais distintas famílias do Rio de Janeiro. Os banquetes eram requintados; mesa coberta com toalha de linho belga adamascada, centro com flores cultivadas e silvestres, louça inglesa, talheres de prata lavrada portuguesa com as iniciais JSB e copos do mais fino cristal. Falava-se francês. O cardápio atendia ao mais exigente gourmet; vinhos franceses e portugueses, servidos ao som de uma orquestra de escravos. Depois do café, conhaque e charutos. Os costumes e a educação ali eram palacianos. Os 37 quartos, 8 salões, varandas e dependências, podiam acomodar mais de 200 pessoas. O Comendador Breves morreu em 1889 e desde então o solar preferido da família vem sofrendo com o abandono. De 1952 à 1964, a fazenda foi um dos pontos de encontro da elite política carioca, devido à um Hotel Cassino que funcionou no local. Da magníf**a construção primitiva, hoje só restam as muralhas e uma única ala à direita, o restante ruiu com o tempo. Sendo que a que sobrou também está se indo e se nada for feito vai ser mais um patrimonio que vai f**ar no album de recordações....
15/12/2020
Ao centro minha bisavó, Herminia Monteiro de Barros, à esquerda sua filha Francisca Goncalves de Moraes (Buru) à direita Lucia de Moraes Breves
Obrigado ao autor por esta recordação
Sempre tive dentro de mim que o legado deixado por meu trisavo ia se acabar em apenas recordações e pelo visto não me enganei. A cada ano que passa mais deteriorada f**a..
Como o Reino se foi, agora mais um pedaço dele também se vai, Ficando apenas na memória daqueles que um dia tiveram o gosto de conhecer...
Muito triste ver parte de nossa história indo embora. "INCÊNDIO CASARÃO FAZENDA DA GRAMA "
22/06/2020
Granja da Saúde- foto cedida por Marcelo Stefani
17/06/2020
O COMÉRCIO NEGREIRO NA CLANDESTINIDADE:
AS FAZENDAS DE RECEPÇÃO DE AFRICANOS
DA FAMÍLIA SOUZA BREVES E SEUS CATIVOS
Thiago Campos Pessoa
28/10/2019
Uma Aventura nos Trópicos
(Sonhos de uma Noite de Verão da bela Nicota e a “Nega Fulô”)*
Guilherme Peres
Santana do Piraí, no Vale Fluminense, assim como toda aquela região, alcançou uma das maiores riquezas econômicas durante o período do café no século XIX, criando com o aumento de seus ocupantes, uma poderosa aristocracia agrária. Acompanhando a crescente derrubada da floresta, estenderam-se os cafezais e esse pequeno vilarejo foi elevado em 6 de dezembro de 1837, à condição de Vila, desligando-se do distrito de São João Marcos. Nessa condição, os fazendeiros que ali investiram em terras e escravos, em pouco tempo tornam-se senhores de grandes fortunas.
“Não os movia o desejo de erguerem uma cidade soberba. O que cuidavam era das suas próprias fazendas, do bem estar e do conforto em seus solares formigantes de famílias numerosas, do orgulho de apresentar ao visitante estarrecido, os ricos interiores guarnecidos de preciosas mobílias, de cortinas custosas, de inumeráveis aposentos para os hóspedes sempre bem acolhidos”, diz Alberto Lamego em “O Homem e a Serra”, revelando-nos algumas das características sociais dessa aristocracia rural emergente.
Nesse cenário, vivia Anna Clara Breves de Morais Costa, figura angelical, diria que talvez tivesse descido do altar da capela da fazenda, da qual ela passara toda sua infância: a fazenda Bela Aliança, propriedade de seu tio, comendador Joaquim José de Souza Breves, o “rei do café”.
Recebendo educação esmerada, além das matérias escolares exigidas no seu tempo, tinha aulas de francês e “boas maneiras”, contribuindo com a mansidão de sua oratória e gestos comedidos.
Morena clara, magra, de olhos e cabelos negros, exibe uma longa trança a tocar-lhe a cintura, na pintura a óleo assinada por Richter, exposta no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro.
Ali, na Bela Aliança, cercada de mucamas, entre rendas e bordados, criou-se a linda Nicota, como era chamada carinhosamente por seus parentes e serviçais. Filha do comendador Silvino José da Costa e Anna Clara de Morais Costa, esta, filha dos barões de Piraí, sobrinha e cunhada do comendador José Joaquim de Souza Breves, proprietário dentre outros, desse palacete no Vale do Paraíba. Na segunda metade do século XIX, sua riqueza pôde ser avaliada com o número de 52 fazendas e cerca de 5.000 escravos.
UMA VISITA INESPERADA
Nessa época, fixara residência em Paris, uma família de latifundiários russos gozando as delícias da corte de Napoleão III, Alex Haritoff e Ana de Houy com seus filhos: Mauricio, Eugenio, Helena e Vera.
Vera Haritoff enamorou-se de um diplomata brasileiro, Luis César de Lima e Silva, sobrinho de Luiz Alves de Lima e Silva, o duque de Caxias, secretário da legação do Brasil na França. Casaram-se e mantiveram residência na Europa, enquanto seu irmão Maurício freqüentava cassinos e ambientes de luxo, exibindo carros atrelados a cavalos de raça.
Há uma descrição dos Haritoff em Paris, que revela a constância dos dois irmãos em freqüentar os cassinos das elites. Maurício, “era capaz de entrar num cassino com “um luiz” no bolso e sair com 180 notas de mil francos, e, de novo voltar a jogar, perder tudo e ter que pedir dinheiro emprestado para tornar a casa em Bruxelas’.
Preparando-se para visitar o Brasil em 1866, o casal Luiz e Vera, convidou Maurício para acompanhá-los até ao distante País da América do Sul. Conheceu o Rio de Janeiro, sede da Corte e seus componentes. Vislumbrou suas colinas verdejantes ao sol e o movimento das ruas.
Em seguida, sua irmã e o cunhado prepararam outra viagem para visitar uma fazenda de café no interior da Província do Rio de Janeiro, e Maurício concordou acompanhá-los.
A chegada foi calorosa. Uma banda de música composta de escravos vestidos de roupa branca, tocava e cantava ritmos marcantes de reminiscências africanas no pátio do casarão, desejando boas vindas aos recém-chegados.
No almoço, servido por serviçais, via-se sobre a mesa vasos de porcelana inglesa bordados em ouro com o brasão dos Breves. A toalha de linho brocado e os guardanapos com bordados de cisnes pousados num lago encantavam a todos.
Trocaram notícias da Europa e falaram da família Breves. Fizeram a sesta na varanda, e em seguida um passeio a cavalo pelo cafezal. Maurício, de largos bigodes, alisava a longa barba e admirava a beleza de Nicota, que com seus olhares furtivos, já haviam percebido sua curiosidade.
ANNA CLARA BREVES
ROMANCE
Com a troca de olhares começou o namoro. Passeavam pelos salões decorados com cortinas de damasco e candelabros de cristal. Da varanda apreciavam o imenso cafezal que se estendia através dos vales e a chegada dos escravos em suas orações na hora do Angel.
Em pouco tempo marcaram o casamento, que se realizou no dia 10 de outubro de 1867, na capela da Bela Aliança. Ela com 17 e ele com 25 anos. A festa se prolongou durante toda a noite. Casais chegados da corte com títulos nobres desfilaram sua riqueza nos salões feericamente iluminados.
Em seguida, aprontaram viagem para a Europa. Apaixonado por sua esposa, Maurício não via a hora de apresentá-la aos irmãos e amigos em Paris. “Com casa nos Campos Elíseos, em que recebiam, com aquela nota de suntuosidade que os russos sabiam dar, quando tinham recursos, a seu trato social”.
Em 1877 a guerra russo-turca, conhecida como a Guerra da Criméia, explodiu na Europa e Maurício teve de deixar Nicola aos seus próprios cuidados, partindo para as trincheiras em defesa de seu País.
Na volta dos campos de batalha, encontrou sua esposa em tratamento de saúde, cujos médicos aconselharam a voltarem para a América, atestando que a debilidade talvez fosse a saudade de sua Pátria.
“Voltar ao Brasil, esquecer um pouco Paris, brilhar na corte de D. Pedro II, como antes na de Napoleão III; opulentar uma fazenda de café numa Província do Rio, com o trabalho dos escravos, como se fora um latifúndio lavrado por mujiques. Voltar ao Brasil, Residir no Brasil. Morrer na Brasil, quem sabe?!…”
A VOLTA
Chegados ao Brasil, adquiriu em 1883 uma luxuosa residência em Laranjeiras, bairro do Rio de Janeiro, cujas festas eram freqüentes numa ostentação de luxo e riqueza. Mais tarde, juntaria a este rico patrimônio, a fazenda Bela Aliança – onde há 16 anos haviam se casado – para realizarem seus passeios no campo em fins de semana e o reforço econômico das colheitas de café.
Carlos von Koseritz, jornalista alemão radicado no Rio Grande do Sul em visita à capital do Império em 1883, registra para os jornais gaúchos essas reuniões festivas na Laranjeiras, onde se reuniam “nos últimos anos da monarquia e primeiros da república a sociedade do Rio de Janeiro em recepções e bailes inesquecíveis”.
Ao comentar as festas mundanas no palácio imperial, afirma: “Existe de resto um outro salão no qual se respira um ar ainda mais aristocrático do que no da princesa. É o salão da senhora Haritoff, que se casou a cerca de 15 anos com um russo que substitui a falta de títulos ou escudos de armas, por muitos milhões que ganhou em fornecimento para o exército”.
Em outro registro o Sr. Koseritz comenta: “O senhor e a senhora Haritoff viveram em grande luxo de 10 a 20 anos em Paris, Petersburgo, Viena, Berlim e Londres e a pequena brasileira transformou-se numa grande dama, em toda a extensão da palavra. Com os restos de sua fortuna, Haritoff estabeleceu-se com terras na província do Rio, e é hoje um dos mais ricos barões do café dessa província. Seus recursos lhe permitem grandes gastos e sua esposa, tão fina e altamente aristocrática, conseguiu criar um verdadeiro salão francês no Rio”.
Os casais da aristocracia imperial eram convidados semanalmente, levando suas esposas, a farfalharem seus vestidos rendados de tafetá, agitando leques de seda, ao som das valsas vienenses.
“Eles recebem todas as terças-feiras e os mardis de madame Haritoff conquistaram uma grande fama. O seu salão é o único que alia o chic e a verdadeira elegância com a alegria e a arte… Ali se encontram as mais preciosas antiguidades, velhos sévres e saxes em raros exemplares, móveis de boule e apurado gosto e preços quase inacessíveis. Criados de casaca e gravata branca, e madame Haritoff só recebe os hóspedes em grande toilette”.
“As noites de recepção desta pérola da alta sociedade são extraordinariamente concorridas. Ministros e parlamentares, generais e altas patentes da marinha, diplomatas, altas finanças, imprensa, ciência e arte, tudo está ali representado e se movimenta familiarmente nas salas da bela mulher, cuja graça floresce e cujo espírito ilumina”.
Citado por Reynato Breves, o ministro argentino Vicente Quesada, ao comparecer a uma dessas festas diz: “tudo ali apareceu grandioso, artístico, rico, extraordinário. Os jardins, extenso bosque boscoso de grandes árvores, quase ocultava a vasta casa das Laranjeiras (hoje Escola Rodrigues Alves), de larguíssimos salões, ricamente decorados com objetos de valor e de arte, pinturas telas porcelanas, que se mostravam aos clarões de uma iluminação distribuída com esquisito gosto”.
Nos intervalos da orquestra, os serviçais caracterizados de camponeses russos, serviam lautas iguarias em louças de porcelanas européias. Quesada recorda das “comidas e fiestas”, cujos convites eram disputados pela alta corte.
A “BELA ALIANÇA”
Wandeley Pinho cita em seu livro: “Salões e Damas do Segundo Reinado”, a visita que o Grão-Duque Alexandre da Rússia fez à fazenda Bela Aliança em 1887. Jovem, com vinte anos, fazia uma viajem de circunavegação ao mundo a bordo do navio da armada: “Rynda”. Sobrinho do Czar, com cuja filha Xênia veio a casar-se, Alexandre conta que “todas as manhãs saíamos montados a ver os campos e os cafezais que se estendiam por uma área de muitos quilômetros. Uma orquestra improvisada de escravos tocava instrumentos curiosos para nos entreter”.
Extasiado, o Grão-Duque revela sua admiração pelos costumes da região: “à tarde, depois do jantar deixava-nos f**ar na varanda, a ouvir o ruído ritmado dos tantãs. Vinha a noite. Não acendíamos as lâmpadas. Os pirilampos, aos milhares, nos davam bastante claridade”.
Os anos se aproximavam do fim da escravatura com o crescimento da propaganda abolicionista. As esperanças do braço semiescravo nas lavouras de café dirigiram-se para a imigração chinesa. A chegada de um mandarim chinês acompanhado de um secretário negro oferecendo “coolies” despertou o interesse dos Haritoff, cuja economia começava a declinar.
DECADENCIA
“Aquela vida era faustosa demais para uma fortuna que decaía. Só o café não dava para tanto”. E veio a abolição empobrecedora para a oligarquia fluminense. Mas os Haritoffs embalados (ela certamente iludida) cumpriam sua missão na corte brasileira. De certo tempo em diante naquela casa, “dançava-se sobre hipotecas”, diz Wanderley Pinho.
Não durou muito a saúde de Nicota. A doença minou-lhe o corpo e a tristeza dominou-lhe a alma. Em 22 de março de 1894, aos 44 anos despediu-se da vida, “poupando-lhe a mágoa de envelhecer e a desgraça de empobrecer”. Em uma de suas últimas cartas dirigidas ao marido, Ana Clara declara-se preocupada com sua saúde: “acabei de passar 8 dias de cama com febre. Werneck veio uma porção de vezes e me fez tomar muito sulfato de quinino”
O bonito casarão em Laranjeiras pagou dívidas. Agora, só restava a Bela Aliança. Envolvido no jogo, Maurício abandonara por completo o luxo e a vida mundana.
É provável que a vergonha da traição tenha contribuído para acelerar o desenlace de Nicota. E o motivo teria sido uma bela negra mucama haver despertado o coração de seu querido Maurício. Nasceram três filhos desse relacionamento: Boris e Alex, mais tarde nasceu Iwann. Estes, “foram os únicos mulatos pobres da nobreza russa”. Doente, Nicota sofria no silencio de seu quarto, “no silencio de sua alma sem suspiros, sem queixumes, deixou-se morrer aos poucos”.
Após o falecimento da esposa, Maurício continuou a receber os “amigos” para os jogos de roleta, e mantendo o concubinato com a linda mucama Regina. O vigário de Piraí, padre José Maria de Aguiar visitava a fazenda periodicamente para ministrar missas, e censurava seu comportamento, alheio aos ensinamentos da Santa Madre Igreja. Viver amasiado incorria em grave pecado. Era preciso casar-se.
Assim, no dia 14 de março de 1906, na mesma capela da Bela Aliança, que se casara com Anna Clara, o conde Maurício Haritoff, recebe como legítima esposa: Regina Angelorum de Souza, sua ex-escrava. “Ele de idade de 62 anos” conforme conta no registro de casamento, “lavrador, natural da Rússia, residente nesta Freguesia, viúvo de D. Anna Haritoff; ela com 39 anos de idade solteira, nascida, batizada e residente nesta Freguesia, filha natural de Isabel, os quais os nubentes se receberam por marido e mulher e se uniram em matrimonio procedendo em todo esse ato conforme o rito da Santa Igreja Católica Apostólica Romana”.
Nos registros de memória, “existe uma fotografia de Regina com as duas crianças, usando um lindo vestido, provavelmente colhido no espólio de Nicota”.
Ali viveram por algum tempo até nascer o último filho: Iwann Haritoff. O jogo consumia suas últimas finanças até perder a Bela Aliança. “Fora viver em Barra do Piraí em humilde casinha, pobre e desvalido, perdido nas lembranças de um passado glorioso”. Tempos depois se mudou sozinho para o Rio de Janeiro, morando no cômodo de um casarão da Rua General Severiano. “Velho, desiludido da vida, em 7 de junho de 1919, entregou sua alma a Deus”.
De Regina Angelorum nunca mais houve notícias. Seu filho Iwann Haritoff, morreu no dia 25 de junho de 2004, aos 92 anos, na Santa Casa de Barra do Piraí. Mulato, pobre e desconhecendo detalhes da vida de seu famoso pai.
DESCRIÇÃO DE UM ACERVO
Affonso Romano de Sant´Anna, poeta e escritor brasileiro, descobriu e divulgou, algumas dezenas de cartas, documentos e descrições de fotografias, vinculadas a vida de Mauricio Haritoff, Ana Clara e Regina.
Em uma das fotos, diz Affonso que Regina Angelorum está sentada com seus dois filhos Aléxis e Boris, e que: “portam chapéus borzequim e roupas que cobrem todo o corpo”, e o poeta descreve: “Regina tem o ondulado cabelo partido ao meio e usa pequenos brincos”.
Noutra foto ela está de pé, dando as mãos aos dois filhos que teriam três e seis anos e vestem uma manta que parece peruana. Em outra fotografia ela está de pé, saia longa, peitilho de renda, casaquinho, também com seus pequenos brincos, porém ao seu lado, classicamente sentado numa cadeira de vime e “ladeado pelos dois meninos de terninho, está o nosso conde ou comendador Maurício Haritoff”.
Mauricio, de cabeleira branca, ostenta um bigode de rosto largo e severo. Traja um jaquetão escuro e calça branca e no peito uma exuberante gravata com quatro grandes laços. É uma família brasileira. “Ela filha de escravos, ele descendente da nobreza russa”.
Ainda de jaquetão, mas sozinho, “meio reclinado em seu assento” Affonso descreve um conde pensativo “apoiando a cabeça na mão direita, enquanto a mão esquerda pousada sobre a perna mostra um charuto entre os dedos”. Exibindo um bigode cuidadosamente tratado “olha numa vaga e longínqua direção para fora da fotografia”.
Recordando, talvez, os tempos de Paris, onde o luxo e a riqueza marcavam sua presença nos cassinos e salões iluminados, agora, “estava mais para um daqueles mujiques pobres descritos por Tolstoi em “Guerra e Paz”, do que para príncipe André ou Pedro Bézoukhov”.
AS CARTAS
O poeta também divulga algumas cartas, em que Maurício questiona com seu amigo Meira e sua irmã Vera, as razões que levaram seu enlace matrimonial com a ex-escrava de sua fazenda: Regina Angelorum. É uma análise ética sobre aquela sociedade escravocrata, cheia de preconceitos raciais e sociais, onde o conceito de honra e dignidade do ser humano era medido pela cor da pele ou sua riqueza.
À irmã Vera, diz: “Tudo o que vou lhe dizer é a verdade mais pura; eu me tornei confesso a você como o faria a Deus. (…) Como você sabe tornei-me um viúvo há dez anos (1894). Um ano depois da minha viuvez, mantive relações com Regina, a quem você conheceu. Como isso sucedeu, nem eu mesmo sei… O isolamento, a necessidade de uma companheira, um resto de juventude, a solidão, a convivência permanente com uma menina tão gentil – que eu mesmo criara – enfim, eu me deixei levar (…) O fato é que isto aconteceu; eu tirei a sua virgindade! É preciso que eu insista neste ponto. Perdoe-me. Se Regina, antes de mim tivesse pertencido a outro homem, eu não teria nenhuma responsabilidade, e é provável que os meus sentimentos e intenções a seu respeito fossem outros”.
Ao seu amigo Meira, que lhe censurou de maneira mordaz dizendo-lhe que: “só um criminoso ou id**ta se casaria com Regina”, respondeu ironizando que ele defendia “o direito do senhor de possuir as virgens da aldeia antes do noivo”. E acrescenta: “Estas teorias de tempos feudais, onde a humanidade era separada em duas castas: a nobreza e a ralé seriam ridículas em nossa época e, sobretudo na América, onde a nobreza hereditária jamais existiu. Mas se Regina amanhã fosse muito rica, ela não só se transformaria em branca da noite para o dia, mas haveria pessoas que afirmariam ser eu o mulato”. E defendendo seus conceitos afirma: “ofereça-me hoje a mulher mais linda e mais rica do universo, e eu não a desposaria”.
Em outra carta endereçada à irmã Vera, defende seus conceitos de honra e dignidade sobre aquela família que escolheu para viver. “Um ano depois da minha ligação com Regina, tivemos um filho, o pequeno José (…) Eu não amava as crianças, os seus risos e choros me eram insuportáveis. Mas é preciso ver como a Providência a tudo provê; um ano depois eu era a ama do meu pequeno José, eu que lhe dava mamadeira, eu que o adormecia com mil cuidados todas as noites; eu que tinha ciúmes até da mãe, eu não saia mais da fazenda para não deixá-lo, e às vezes f**ava horas perto de seu berço para vê-lo dormir”.
“Com dois anos e meio de idade ele teve uma bronco pneumonia e foi arrebatado de minha ternura pela morte inexorável em 8 dias. Escapei de morrer também; tive uma espécie de paralisia. O médico que me tratava fez vir por telefonema o Dr. Meira, do Rio, acreditando que eu não sobreviveria a tamanha dor! O que sofri foi inenarrável! (…) A mãe tinha mais energia do que eu: ela me tratou como se cuida de uma criança; dormia aos pés do meu leito, e só chorava quando eu fingia que estava dormindo”.
Nas cartas escritas num período de indigência, desabafa com a irmã o abandono em que estava submetido nesse período: “aqui não tenho quase família; aquela da minha falecida mulher, você sabe, afastou-se de mim. Não tenho mais quase nenhum amigo”. E critica aqueles que o aconselharam a não se casar com Regina, como a sobrinha Ana: “toma as crianças e indeniza a mãe.”
Ao amigo Meira repudia as opiniões da sociedade preconceituosa. “Que devo eu a essa sociedade de quem tanto falas? Que fez ela por mim? Enquanto fui rico e tive uma bela casa, ela me adulou, procurou e cumulou de atenções; e no dia que me tornei pobre só o ponta pé de um asno” (…) E terminava dizendo: “Enfim meu bom Meira, minha convicção de que cumpro o meu dever é tão forte, que pela primeira vez, depois de nossa longa amizade, não posso seguir os conselhos do melhor de meus amigos”. E conclui com um conceito filosófico que lhe guiaria até o fim da vida: “a inteligência tem o instinto da verdade, a consciência o instinto da justiça, o coração o instinto do amor”.
ÚLTIMA VISITA
Encontrado num velho baú, embaixo da escadaria interna da casa da fazenda, o padre Reynato Breves divulgou o texto abaixo, escrito no passado, e ali deixado, assinado por Tácido Salgado dos Santos: “em 1923, visitei pela última vez o solar da Fazenda Bela Aliança, famosa em outros tempos pela fidalguia, fortuna generosa e vida faustosa de seus moradores”.
Nos vastos e abandonados salões onde tanto brilhara a beleza sedutora de Anna Clara Breves de Moraes Costa, depois unida pelo matrimonio ao fidalgo russo Maurício Haritoff, naqueles salões onde ainda se viam os vestígios do passado de luxo. Naqueles salões sombrios, então quase despidos e transpirando o ardor do abandono parecia errar a saudade de um tempo que já fora e os deixara vazios e enlutados.
“Só a capela conservava o luxuoso esplendor dos seus ornamentos, alcatifas e decorações nos ricos genuflexórios, ao pé do altar pareciam-me ver ajoelhados as sombras do elegante fidalgo russo e de sua formosa esposa. Das janelas da galeria, descobriram-se jardins incultos e abandonados e as imensas senzalas cujo aspecto arruinado e denegrido impressionava-se tristemente”.
Dali se divisava o longínquo e majestoso portão que dava ingresso à soberba alameda calçada e ladeada à direita pelas habitações dos escravos, à esquerda pelos moinhos, etc., e de um lado e do outro por frondosas e seculares palmeiras… “No antigo salão de honra, numa das paredes laterais ainda se via o último retrato da Sra. Haritoff, trabalho de célebre artista e derradeiro penhor da hipoteca de tantas preciosidades que os credores do nobre russo, então viúvo, arruinado pecuniária e moralmente, degradado por novos amores com uma mulata inferior lhe entregara as mãos, depois de forçado por eles, ter abandonado aquele solar onde passara os mais brilhantes tempos de sua vida.”
Aquele retrato que ainda perturbava como uma visão maravilhosa, fazia evocar a figura esbelta daquela mulher que morreu tão jovem e tão sedutora ainda. “Mais adiante a fatal roleta, que absorveu milhões do tresloucado viúvo, apodrecia a um canto, despertando invencível horror…”
POSFACIO
Na história da inter-relação racial no Brasil estão contidos inúmeros episódios que confirmam o rompimento do preconceito proveniente de um regime de economia escravocrata e patriarcal. “A miscigenação que largamente se praticou aqui” diz Gilberto Freire, “corrigiu a distância social que de outro modo teria conservado enorme distância entre a casa-grande e a senzala”. O latifúndio extremou a sociedade entre senhores e escravos, contrariado pelos efeitos da miscigenação: “a índia e a negra-mina a princípio, depois a mulata, a cabrocha… tornando-se concubinas e até esposas legítimas dos senhores brancos”, finaliza o mestre Freire.