01/06/2020
Novo texto de uma menina da escola:
"Insistência"
Sobe, sobe, pisa, sobe. Sobe, sobe, pisa, sobe. Pisa, pisa, sobe-sobe-sobe bate!
Como de costume, subia as escadas cinzentas e monótonas da escola mergulhada na batida da música em meu fone de ouvido. Cada passada marcava o tempo e meus braços, os acordes da guitarra. Bem no momento clímax de Stairway to Heaven, enquanto eu tocava bateria no ar freneticamente, senti um empurrão no ombro, seguido de um “desculpa” murmurado e da imagem de um vulto correndo até o andar de cima.
Foi apenas depois de alguns milissegundos de completa confusão que me lembrei de onde estava e me desliguei da música. A pessoa que atrapalhou meu momento dança matinal estava entrando no corredor do segundo andar. Só consegui ver a mochila antes de ela sair do meu campo de visão; era a Maria.
Estranhei. O que levaria minha amiga a agir assim? Será que ela não viu quem eu era? Ou pior, viu e resolveu me ignorar? De todo modo, ela estava muito distraída e dava para sentir que algo estava errado. Os movimentos bruscos, a corridinha ansiosa para se afastar de mim… Eu nunca a vi assim. Me apressei e fui atrás dela.
- Oi, Ma! Tudo bem?
- Ahn? Ah, oi Le. Eu to meio atrasada, nota de classe de química, você sabe como é. A gente se vê no recreio.- Ela deu um sorrisinho fraco e se virou para ir embora.
Fiquei parada no meio do corredor, vendo a Maria se afastar depressa, com a cabeça baixa, sem cumprimentar ninguém. Nesse momento percebi que era algo realmente sério. Uma onda que preocupação me atingiu em cheio e fiquei imaginando o que poderia ter acontecido com ela.
Durante as duas primeiras aulas não consegui me concentrar. Não parava de pensar em minha amiga, no jeito como ela agiu essa manhã. Fiquei revisitando a cena na escada e depois a estranha conversa trocada no corredor, tentando notar algo de diferente nela, algo que pudesse indicar o problema.
Então, lembrei de um detalhe: ela estava usando uma blusa com gola. Pode parecer irrelevante, mas ela já me disse repetidas vezes que odeia a sensação de ter roupa em contato com o pescoço. Além disso, não era um dia particularmente frio... Logo depois do meu insight, o sinal do recreio tocou e eu fui correndo para a sala dela.
- Ma, a gente precisa conversar. Eu to preocupada com você.
- Não tem motivo para se preocupar, relaxa, eu tô bem.
- Pois não parece. Você está mais quieta, distraída e a sua blusa tem gola.
- Letícia, pelo amor de Deus! Gola? O que que a minha gola tem a ver com a história? Eu já falei que eu to bem, desencana!
- Ma… calma. Só estou querendo te ajudar. Eu só quero o seu bem, você sabe disso, não sabe?
- Sim, claro… Mas deixa pra lá, não é nada.- Ela olhou para baixo e ajeitou a gola, claramente desconfortável.
- Olha, obviamente tem algo muito errado nessa história. Dá para perceber que a gola está te incomodando sim, mas tudo bem se você não quiser me contar. Não sei quero te forçar a nada. Só não esquece que eu estou aqui para te ouvir e apoiar no que você precisar, ok?
Ela balançou a cabeça em silêncio. Ficou assim por um instante, como que absorta em seus pensamentos. Então, suspirou profundamente e olhou em meus olhos. Vi que escorriam lágrimas por seu rosto. A sua expressão controlada desfez-se de imediato, e ela desabou.
Me aproximei um pouco e dei um abraço apertado em minha amiga. Senti seu peito se enchendo e esvaziando violentamente contra minha pele, em arfadas desesperadas por ar.
Maria soluçou em meus braços por alguns minutos antes de conseguir se acalmar o suficiente para falar. Começou pedindo para eu não julgar e, principalmente, não falar para ninguém. Então, abaixou a gola lentamente. Vi uma mancha roxa em seu pescoço, se entendendo de um lado até o outro.
- Ai meu Deus! Ma… eu sinto muito. Quem fez isso com você?
- M-meu amigo.- Ela parou por um tempo, tentando recuperar o fôlego. Seus soluços estavam mais fortes e constantes que nunca, e ela mal conseguia respirar.- E-e-ele n-não é uma p-pessoa ruim… Ele se arrependeu, pediu perdão. M-mas eu não sei o que fazer! Eu… eu não consigo parar de pensar nisso.
- Maria, você percebe a gravidade dessa situação, certo? Como isso aconteceu? Alguém tentar te enforcar não é brincadeira.
-Eu fui para a casa dele no sábado, a gente ia estudar juntos para a prova dessa semana. Como a gente acabou mais cedo, resolvemos ver um filme. Estávamos na sua cama vendo o filme no computador, então ele...ele colocou... colocou a mão… em mim. Logo em seguida, ele começou a me beijar e eu virei o rosto. Não falei nada, não pedi pra ele parar, só virei. Ele segurou meu rosto e voltou a me beijar. Nessa hora eu me desesperei. Empurrei-o para longe e tentei levantar, mas ele falou “Para Maria. Você sabe que você quer”. Não parei. Tava com medo. Então ele fez isso- apontou para os hematomas.- Ele ficou me segurando por uns cinco segundos, não mais que isso, e assim que ele me largou, eu comecei a chorar. Parece que nessa hora ele caiu em si e começou a me pedir desculpas desesperadamente, falou que aquilo não era ele, que não sabia o que tinha acontecido. Eu fui embora. Ele bombardeou meu celular com 42 mensagens, um textão e mais muitos pedidos de desculpas. Não respondi. Meus pais não sabem, não tive coragem de contar.
Fez-se um silêncio pesado. Não sabia o que dizer. Senti um aperto em meu peito, como se, depois de ouvir algo tão terrível, todo o ar do mundo tivesse subitamente deixado de existir. Como se ele não devesse existir. Um mundo com pessoas tão cruéis não deveria existir.
Peguei na mão de minha amiga, apertei bem forte e simplesmente disse:
-Eu sinto muito. Ninguém merece passar por isso…
Nos abraçamos e ficamos assim, sem falar nada, ouvindo apenas a respiração pesada uma da outra. Eu senti que a Maria estava pelo menos um pouco aliviada depois de contar. Agora ela não precisa carregar esse peso sozinha.