25/01/2017
Homenagem do Instituto Letrófilo à Cidade de São Paulo
Ela
Do livro CONTOS PAULISTANOS - cronista Jacomo Facio Neto
O Mundo é feito por muitas delas. Todas elas sempre muito amadas. Todas elas com seus segredos e malícias. A partir delas o mundo pode ser um lugar melhor para se viver. Ela não é diferente. Ela vem chegando, chegando, chegando, e chegou há muito tempo. Ela é amorosa, não tem preconceito, acolhe a todos, abraça a todos como seus verdadeiros filhos. Ela não é vulgar e sim muito democrática, carinhosa e caridosa. Recebe a todos para dividir seu trabalho, suas angústias, suas falhas, mas também divide seu abrigo, seu pão, seu abraço, suas alegrias.
Na Liberdade ela é uma japonesa; uma francesa no Arouche; uma nordestina quando na Estação Roosevelt ou no Grajaú; uma lituana ou húngara, na Vila Zelina; em Marcilac, uma indígena, uma alemã em certas regiões de Santo Amaro; uma judia ou coreana no Bom Retiro; no Glicério, uma haitiana; uma italiana ou negra no Bixiga; é uma sem teto embaixo dos viadutos. Salve ela, molhada e muito mais fértil outrora, mais sequinha e mais judiada agora.
Menina porreta, diria nosso amigo Escritor. Ela é grande e se torna ainda maior, abraçando e tentando prover a todos.
Ela tem muito de Babel, fala muitas línguas, tem sotaques do Sul, do Norte, do Oriente, Ásia, África, da Europa, tem até tupi-guarani, mais recentemente as línguas faladas no Haiti e tem algo próprio, na verdade muitos sotaques, gírias, expressões, caras e gestos, cores e amores.
Ela, e só ela, põe à mesa um cardápio variado, com todos os saberes e sabores de especiarias do mundo: O molho vermelho, o charuto de repolho, o sushi, frutas secas, farofas, feijoada, tutus, sarapatel, moquecas, joelho de porco, cachorro quente, pastel, mortadela, salame, morcilha... e muito mais. Ela é quituteira de primeira linha. Sem contar gosto refinado com as bebidas, como vinhos, espumantes, licores, sem abrir
CONTOS PAULISTANOS
mão de uma cerveja e da tradicional pinguinha. Ela é demais. Mata a fome e a sede de qualquer um a qualquer hora. Ela se renova a cada minuto, seja em suas roupas, que muitos acham de mau gosto, mau gosto, mau gosto, e com a destruição de coisas belas. Geniosa, pois algo destruído em si, de imediato é substituído por novas coisas belas. Ela é de fibra, forte, guerreira que muito influência que comanda em sua terra e interfere em outras, por si ou por seus filhos e filhas. Ela é de fibra. Ela é demais.
Ela sempre está correndo às voltas com muitas atividades que não cabem em um só dia, e muitos, no mesmo ritmo, a acompanham. Ela, o alerta, “vão bora, vão bora, olha a hora, está na hora”.
À noite, ela serena, tem muita vida e sai curtindo Madalenas, onde juntas elas serenam, como mágica, transformam pequenos bares em grandes festas, mesmo depois de um dia bem lutado.
A alegria não se limita as Madalenas, pois por todos os cantos o churrasquinho aparece, acompanhado de um sambão, cerveja, drinks e muita alegria em todas as noites da semana.
Ela é sempre atual, sempre à frente das outras, com modelos novos, com livros novos, carros novos, novos filmes, comidas e muitas propostas de amores novos que sempre a querem para si.
Ela discreta, geralmente de cabeça quente, mas assusta com seus pés frios distantes do sol.
Ela tem símbolos, detalhes que a identificam, detalhes novos, detalhes antigos, mas sabe-se dela.
Nem precisaria falar que ela é muito amorosa e sempre alguma coisa acontece no seu coração, doando-se a todos. Que beleza. É uma flor, é uma rosa é uma azaleia. Ela é líder nas conquistas científicas, econômicas e tecnológicas.
Antologia Literária
Para fazer tanto, ela é muito rica entre todas, mas se doa de forma descomunal e nada proporcional a outras e outros. Benevolência ou unidade e compartilhar entre irmãs e irmãos é rotina.
Ela com seu amigo e xará, levantou bandeiras e as levanta, eclodindo em lutas e indignação contra injustiças e desmandos de todos os poderes e formas. Antes se manifestava na Sé, mais recentemente na Paulista. Ela bate panelas também, mostrando seu descontentamento como muitos de seus filhos.
Ela tem belas curvas apesar de sua idade. Hoje nem todas as curvas estão bem definidas. Suas rugas mostram a história de sua vida, muitas vezes sofrida e maltratada por homens que não a mereciam.
Mesmo com retoques e plásticas ela ainda se mante firme em muitos pontos, não perdendo suas feições. Algumas feições ora apagadas, mas seu brilho se vê do espaço.
O sangue que lhe corre nas veias, lhe confere força, energia, pujança e esperança.
Hoje Ela apresenta mais a cada dia e novas veias, vasos e artérias, difíceis de identificar, nomear e localizar, e outras bem vermelhas, na tentativa de facilitar a distribuição de seus nutrientes com maior rapidez e eficácia.
Mesmo com tantas qualidades, ela sofre e chora a ponto e de molhar e desfigurar suas vestes ao caminhar.
Em outros momentos suas lágrimas secam, por ter chorado demais ou por ter chorado em vão. Ela sofre muito, por conta de algumas pessoas que não merecem seu sofrer e seu pranto, muitas vezes provocados por vários tons de cinza que a sufocam. Ela sofre por ter o cinza, o azul, o roxo, o branco, o preto, o marrom, vários tons e cores que se misturam às suas lágrimas.
Ela é forte.
Ela é valente.
Mesmo quando seus olhos ardem, ela procura forças no verde, que também está rareando, e vai abraçar seus filhos aqui paridos e os aqui recebidos, como forma de proteção.
ELA É MINHA CIDADE, SÃO PAULO.
Ah. São Paulo, só você tem meu coração.
Ah. São Paulo dos apartamentos e dos viadutos; dos cortiços e das pontes; dos prédios altos, da periferia fervilhante, das vilas, dos odores e dos amores, da procura do sol, das noites nunca vazias
24/01/2017
14/08/2016
04/08/2016
04/08/2016
25/07/2016
12/06/2016
04/06/2016
21/02/2016
07/01/2016
10/12/2015