Português fora da caixa

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Tenho uma formação sólida em linguística e língua portuguesa (licenciatura, especialização, mestrado, doutorado, pós-doutorado) e estou aqui para ajudar você a entender a gramática do português definitivamente.

28/09/2026

Na língua portuguesa, o uso do diminutivo vai muito além da sua função gramatical primária de indicar redução de tamanho, que se enquadra no que chamamos de sentido denotativo, como no exemplo: "Esta pedrinha dentro do meu tênis estava me machucando!" Aqui se tem uma pedra pequena mesmo. Caso em que o diminutivo está sendo usado para indicar a diminuição do tamanho físico de algo, portanto, sentido denotativo. Mas quando os sufixos diminutivos (como -inho, -zinho, -eco etc.) são adicionados a determinadas palavras em certos contextos e com determinada entonação, eles podem se tornar recursos expressivos de linguagem com sentido conotativo.

22/09/2026

Além do substantivo “baderna”, também existe o verbo “badernar” e formas nominais derivadas, tais como: badernada, badernaria, baderneiro, badernista e badernento, todas registradas no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP), da Academia Brasileira de Letras (ABL).

A palavra “baderna” existe no francês, no italiano, no espanhol e no catalão, mas com um sentido específico: trata-se de um termo empregado na marinha, o qual também está registrada nos dicionários Aurélio e Houaiss. Entretanto, com o sentido de bagunça, desordem, confusão, é próprio do português brasileiro.

Fontes do conteúdo do vídeo:

https://www.historia.uff.br/impressoesrebeldes/pessoa/marietta-baderna/

Novo dicionário eletrônico Aurélio versão 6.0. Curitiba: Positivo Informática, 2009.

HOUAISS, Antônio; VILLAR, Mauro de Salles. Grande dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Instituto Antônio Houaiss. Disponível em: https://houaiss.uol.com.br/.

Fontes das imagens:

Marietta Baderna: https://www.nypl.org/

Teatro: https://brasilianafotograf**a.bn.gov.br

Lundu praticado no século XIX, em gravura de Rugendas: https://pt.wikipedia.org/wiki/Lundu

15/09/2026

Embora a construção “melhor avaliado” seja considerada um desvio da norma culta, é a forma mais empregada nos gêneros: jornalístico, acadêmico e literário.

Para este vídeo, consultei os seguintes gramáticos: Napoleão Mendes de Almeida, Cegalla, Rocha Lima, Celso Cunha e Lindley Cintra e Evanildo Bechara.

Os dicionários consultados foram: o Aurélio e o Houaiss.

O que observei foi:

1) Das cinco gramáticas pesquisadas, uma (Cegalla) não coloca objeção ao uso do “melhor” antes de particípio. Outra (Rocha Lima) apresenta o que é recomendável, mas admite o uso de “melhor” antes de particípio. Entre as outras três gramáticas, há consenso, ou seja, não consideram aceitável a construção “melhor + particípio”.

2) Dos dois dicionários pesquisados, ambos não recomendam o uso da construção “melhor + particípio", mas o Aurélio traz exemplos desse uso em textos literários dos seguintes autores: Machado de Assis, Alexandre Herculano e Aquilino Ribeiro.

3) Parece ser a preferência de uso na modalidade escrita, como vimos na pesquisa avançada do Google.

Sobre a pesquisa avançada no Google: a ferramenta permite selecionar país e língua, entre outras variáveis interessantes, quando você quer investigar o uso de determinada palavra, expressão ou construção sintática.

09/09/2026

Embora exista uma crença que defende que o uso de “mesmo” retomando substantivo ou pronome seja errado, não há qualquer regra que prove isso, portanto, fique à vontade para seguir essa crença (e considerar isso um erro), ou não.

Mas não desconsidere as situações de avaliação, pois, em geral, as bancas de correção seguem essa crença.

02/09/2026

No sentido figurado, "jabuticaba" designa qualquer fenômeno, lei, costume ou bizarrice burocrática que só existe no Brasil. Quando ela é empregada nesse sentido, pode ser considerada um neologismo semântico.

Mas o que é um neologismo semântico? É um expediente linguístico em que se atribui um novo signif**ado a uma palavra já existente na língua.

Segundo Flávio Rocha, em matéria publicada na Forbes em novembro de 2017, “embora não se possa afirmar que a jabuticaba seja exclusiva do Brasil, a palavra representa o país da mesma forma que o samba, o Cristo Redentor ou o carnaval.” Ainda segundo ele: “No contexto brasileiro, a jabuticaba é, na verdade, um símbolo das nossas peculiaridades.” Flavio Rocha lembra que esse emprego da palavra “remonta à teoria da jabuticaba, a qual foi enunciada pela primeira vez pelo economista Pérsio Arida, um dos pais do Plano Real, e que mencionou a família das mirtáceas para definir coisas que só existem no Brasil. Na ocasião, ele fazia uma alusão à elevada taxa de juros.”

Trago aqui alguns exemplos observados em matérias jornalísticas:

- Jabuticaba? Inflação no Brasil é quase estranha frente a problemas dos principais mercados, manchete de InfoMoney, em publicação do dia 23/4/2014.

- A 'jabuticaba' da economia: um pouco mais sobre a taxa de juros no Brasil, manchete de A Gazeta, em publicação do dia 3/10/2024.

- Juro real no Brasil: A jabuticaba e suas raízes, manchete do Valor Econômico, em publicação do dia 8/4/2026.

Embora textos estritamente técnicos evitem gírias ou neologismos, a palavra aparece com frequência em discursos de autoridades, pareceres de relatores, votos em tribunais e notas técnicas. Expressões como jabuticaba jurídica, jabuticaba tributária, jabuticaba judicial, jabuticaba legal ocorrem com muita frequência em ambientes políticos.

Como se pôde constatar, o uso da palavra “jabuticaba” costuma se concentrar em veículos de imprensa especializada e geral e em instâncias bem definidas, como os Salões do Congresso Nacional e os Tribunais Superiores.

25/08/2026

Muitas pessoas acham que colocar o pronome oblíquo átono depois do verbo (ênclise) deixa a frase mais formal ou elegante. Mas, na norma culta, usar a ênclise após palavras de atração é considerado um erro gramatical. Essas palavras funcionam como um ímã, puxando o pronome para antes do verbo (próclise).

Confira 4 casos em que a ênclise não deve ser usada:

1. Palavras negativas (não, nunca, jamais, ninguém):

❌ Ela nunca contou-me essa história...

✅ Ela nunca me contou essa história...

2. Advérbios (sempre, talvez, já):

❌ Sempre perguntei-me isso.

✅ Sempre me perguntei isso.

3. Pronomes e advérbios interrogativos:

❌ Quem procurou-me a esta hora?

✅ Quem me procurou a esta hora?

4. Numeral "ambos" e pronomes indefinidos (tudo, alguém, qualquer):

❌ Ambos sentiram-se cansados.

✅ Ambos se sentiram cansados.

A regra é simples: se a palavra atrativa estiver antes do verbo, a próclise é obrigatória. Já sabia disso?

21/08/2026

"Me levantei cedo" ou "Levantei-me cedo"? 🤔

Você já parou para pensar por que nós, brasileiros, preferimos quase sempre usar o pronome antes do verbo?

Enquanto a norma culta tradicional diz que não se deve iniciar frases com pronome oblíquo átono (Levantei-me cedo), no dia a dia no Brasil, o padrão natural é a próclise (Me levantei cedo).

E não, isso não é um erro! Trata-se de uma característica da variedade do português brasileiro!

💡 Por que isso acontece?

Uma das hipóteses mais aceitas é o nosso ritmo de fala (a nossa prosódia). Como pronunciamos as vogais de forma bem marcada, acabamos transformando esses pronomes átonos em tônicos, levando-os naturalmente para a posição antes do verbo.

📚 E não é só na fala!

Essa preferência já é realidade na modalidade escrita e tem aparecido com frequência na literatura brasileira contemporânea, em obras de autores consagrados e premiados. Além disso, gramáticos de peso, como Celso Cunha e Lindley Cintra, já registram essa tendência do nosso português!

⚠️ Qual usar no dia a dia?

A escolha é sua e depende do contexto!

- situações formais e textos acadêmicos/técnicos/concursos: a ênclise ("Levantei-me") ainda costuma ser a mais cobrada e esperada;

- situações informais e conversa do dia a dia: a próclise ("Me levantei") flui com total naturalidade.

Lembre-se de que a língua é viva, dinâmica e cheia de particularidades que refletem a nossa cultura e a nossa identidade.

💬 E você, costuma reparar nisso na hora de falar ou escrever? Me conta nos comentários!

18/08/2026

Para não confundir VIAGEM com G ou VIAJEM com J, pense na forma infinitiva do verbo VIAJAR e teste: é possível usar VIAGAR com G? Não, então se a forma é verbal, será sempre com J, do contrário, será um substantivo sempre com G. Exemplos:

- A viagem foi ótima. (=substantivo)

- Espero que eles viajem com segurança. (=verbo)

13/08/2026

Agora pasme: em Portugal não é assim. A divisão dos “porquês” em quatro tipos é uma invenção brasileira.

Pelas incursões que fiz, identifiquei que os “porquês” acentuados se iniciam no Formulário Ortográfico de 1943. A partir daí, esses “porquês” foram se sistematizando em manuais de gramática e livros didáticos, chegando ao que hoje conhecemos: os quatro tipos de “porquês”.

Os critérios que embasaram esses quatro “porquês” foram: tonicidade e classe gramatical:

1. tonicidade final: quando o "que" f**a tônico por estar antes da pausa final, ganha acento (por quê).

2. substantivação: quando vira substantivo, ganha acento (porquê).

3. função de conjunção: quando une orações, construindo um sentido de causa/explicação, escreve-se junto (porque).

Em Portugal, a divisão é diferente, veja:

- PORQUE não me conta a verdade? (Porque na pergunta é junto, não importando a posição que esteja na sentença).

- Não como buchada PORQUE não gosto. (Porque como conjunção explicativa/causal é junto).

- POR QUE lado devo ir? (=por qual). Ou: A pessoa por que você me trocou não é tão interessante. (=pela qual).

- Minha neta entrou na idade dos PORQUÊS. (Substantivo, junto e com acento, como no Brasil.)

Portanto, em Portugal, há três formas de “porquês”: PORQUE, POR QUE e PORQUÊ.

*Observação: todas as informações referentes aos usos em Portugal me foram enviadas por Margarita Correia (), Doutora em Linguística e Língua Portuguesa e professora da Universidade de Lisboa, Portugal.

*Fontes consultadas:

ALMEIDA, Napoleão Mendes de. Gramática metódica da língua portuguesa. 28a. edição revista. São Paulo: Saraiva, 1979.

BECHARA ,Evanildo. Moderna gramática portuguesa. 37a. edição revista e ampliada. Rio de Janeiro: Lucerna, 1999.

KURY, Adriano da Gama. Lições de análise sintática (teoria e prática). 7a. edição. São Paulo: LISA - Livros Irradiantes S.A., 1973.

NEVES, Maria Helena de Moura. Guia de usos do português: confrontando regras e usos. 2a. edição. São Paulo: Editora Unesp, 2012.

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