14/08/2026
MENOS DE DUAS PÁGINAS: O QUE O PLANO DA UP REVELA SOBRE A ESQUERDA RADICAL?
O jovem partido socialista Unidade Popular (UP), registrado em 2019, lançou como candidata à Presidência Samara Martins, mas ele chamou atenção (negativamente) ao apresentar oficialmente ao TSE um plano de governo à Presidência com apenas uma página e meia. A título de comparação, o programa do PSTU, também um partido de esquerda radical, tem mais de 30 páginas. E longe de ser um caso isolado, isso revela um problema presente em boa parte da esquerda, principalmente da esquerda radical.
Primeiramente, quero deixar claro que não tenho nada contra o partido ou a candidata em si. Apesar de não ser comunista, sou de esquerda e respeito profundamente o trabalho dessa sigla. Tenho, inclusive, muitos amigos e amigas no partido. Aliás, eles certamente seriam capazes de elaborar um projeto muito melhor do que o enviado ao TSE. Portanto, não acredito que isso seja resultado de falta de capacidade, mas de uma escolha política, que vou explicar posteriormente.
Vou deixar o link do plano, mas, basicamente, ele dedica cerca de meia página a um discurso criticando os baixos salários no Brasil e outras injustiças no país, argumentando que o Congresso e a política, de modo geral, não representam o povo trabalhador, mas sim a burguesia.
Em seguida, apresenta 16 "propostas". O problema é que na verdade elas são apenas intenções vagas, sem apresentar planos, meios, valores, instrumentos ou qualquer outra explicação sobre como seriam implementadas.
Entre elas estão o fim do feminicídio, a suspensão do pagamento da dívida, o controle dos preços dos alimentos e o fim do vestibular, entre outras. Perceba que algumas dessas propostas podem até ser consideradas positivas. Mas um plano de governo deve apresentar os meios legais, orçamentários, cronogramas e outras formas de alcançar essas metas.
Provavelmente, isso se deve à concepção da UP sobre a "democracia burguesa", que faz com que as eleições sejam vistas apenas como instrumento de divulgação do movimento. Esse pensamento é comum em determinados setores da esquerda radical, e eu já falei sobre isso em outro vídeo (link nos comentários).
Entretanto, considero que essa postura prejudica o próprio partido. Um plano de governo excessivamente genérico dificilmente convencerá o eleitor médio e, pelo contrário, reforça a percepção negativa sobre comunistas.
Além disso, se alguém considera que a democracia representativa não é capaz de produzir mudanças relevantes, surge uma pergunta: por que disputar eleições? Faria mais sentido, nesse caso, concentrar esforços nas redes sociais e na organização política para uma futura revolução.
Mas existe outro problema nessa candidatura: algumas das ideias defendidas são equivocadas, apesar de serem populares dentro de determinados nichos da esquerda. E aqui chegamos a um problema maior da esquerda em geral.
Como o bolsonarismo é assumidamente anticiência, criou-se a ideia de que a esquerda, por oposição, seria automaticamente o campo da ciência.
Mas não é assim.
Ser de esquerda não torna uma ideia automaticamente científica. Por aqui mesmo, eu frequentemente critico pseudociências e afirmações sem fundamento científico que são propagadas por pessoas e organizações de esquerda.
Por exemplo, hoje mesmo, Samara criticou em suas redes sociais o Governo Lula por anunciar maior investimento nas Forças Armadas. Em um momento em que os EUA falam publicamente em intervir em países da América Latina, considero preocupante não reconhecer a importância de fortalecer a capacidade de defesa do país.
E esse tipo de problema também aparece em outros movimentos.
O PCO, por exemplo, publicou recentemente um texto criticando o plano do Lula. Embora o início da crítica seja válido ao apontar a falta de foco na reforma agrária e no pequeno agricultor, o texto termina afirmando que o ambientalismo seria uma mentira financiada por países ricos para atrasar o desenvolvimento brasileiro. Sim, o PCO é negacionista das mudanças climáticas.
Em suma, vejo três problemas recorrentes em parte da esquerda: acreditar que falar em revolução ou meia dúzia de frases de ordem é o suficiente para um movimento; subestimar a importância da política institucional e das eleições; e acreditar que uma ideia se torna automaticamente científica por estar associada à esquerda.
É justamente por isso que criei o Biologia Política: porque realmente quero políticas públicas fundamentadas em evidências científicas e orientadas para o bem dos trabalhadores. E, para isso, todos precisam ser educados cientificamente. Aqui nossa meta é divulgar principalmente a biologia e as ciências humanas.
Se você acredita nisso, siga o Biologia Política por aqui e nas outras redes. E, se você é de esquerda, principalmente radical, deixe sua visão nos comentários. Vamos dialogar e crescer juntos.