03/04/2024
Da série “A sustentável leveza do ‘estar’”
Uma das coisas que tenho saudade é de um bom debate político. Com argumentos, frases bem elaboradas, fatos e dados e, acima de tudo, respeito à opinião contrária. Infelizmente é como sonhar com a volta do romantismo ou da seleção de 70; passou, já era.
Penei nisto ao ver uma resposta de um velho amigo em mais uma das intermináveis e medíocres discussões no Face entre Lulistas e Bolsonaristas. Ele falou algo do tipo; “Eu não sou Lula, eu estou Lula”. Ou seja, ele quis dizer que preferia Lula a Bolsonaro, mas com direito a crítica e abertura a novas ideias e lideranças. Resolvi refletir sobre o tema.
“Ser Lula” significa arrumar justificativa para todas as bobagens que o ídolo fala e faz – desde o apoio a ditadores e terroristas até as palestras de 200 mil dólares que ninguém viu, passando pela mentira de que sua condenação foi obra do perverso e corrupto Sérgio Moro (ignorando que ele foi condenado por dezenas de juízes em várias instâncias). E, acima de tudo, acreditar que todas as desgraças são culpa do Bolsonaro, ou da “Zelite” ou do mercado (não necessariamente nesta ordem).
Por outro lado, “estar” é um verbo democrático, dinâmico. Os Estados Unidos, por exemplo, “estão” Biden, como já “estiveram” Trump e Obama. A Inglaterra “esteve” Winston Churchill durante a guerra, mas deu-lhe um pé-na-bunda na eleição seguinte, fazendo com que ele cunhasse sua melhor frase (entre muitas); “A democracia é o pior regime do mundo, tirando todos os outros”.
Já os anti-democratas “são”, conforme resumiu Luís XIV, o Rei-sol, na frase “O Estado sou eu”. Os modernos semideuses absolutistas “são”; Fidel Castro era Cuba, Maduro é a Venezuela, Kim Jong-un é a Coreia do Norte. E o sonho de Lula é “ser” o Brasil. Prá ver como isto é nocivo, a coisa vai além da morte; boa parte dos argentinos “são” peronistas até hoje (o que ajuda a explicar a pindaíba atual do país).
Enfim, acho que meu amigo foi sábio. É muito difícil mudar o Brasil enquanto boa parte de sua população continua a “ser” Lula ou Bolsonaro. Eu, por exemplo, decidi que a única coisa que eu “sou” é gremista. Sem direito a argumentação contrária.
Vida que segue.