12/02/2023
Parte da freguesia do Engenho Novo, no século XIX, o que conhecemos como bairro do Méier, hoje, foi adquirido por Miguel Meyer - negociante lisboeta que exerceu funções públicas diversas na Alfândega do Rio de Janeiro. O negociante português comprou parte do engenho então pertencente à família latifundiária e escravista dos Moutinho dos Reis, logo assim que se instalou no Rio de Janeiro, ainda no início do século.
Com o crescimento populacional da cidade e o avanço da ferrovia pelas freguesias suburbanas, aquelas terras que já haviam sido subdivididas em chácaras para os descendentes da família Meyer passaram a ser vislumbradas como local de habitação desejável por cariocas, migrantes e imigrantes, que encontravam problemas habitacionais nas freguesias centrais. O loteamento do Méier e dos bairros vizinhos, bem como o seu adensamento populacional desordenado e desestruturado, é processo coerente com a evolução urbana do Rio de Janeiro.
Ao longo do século XX, devido às características de constante crescimento do bairro, cada vez mais distante da linha do trem, o poder público e empresas privadas interviram em sua urbanização. Devido ao fato de não ter abrigado uma grande indústria, diferente dos bairros circunvizinhos, nas primeiras décadas do século XX, o Méier firmava-se como nova centralidade comercial e de serviços que os demais bairros não ofereciam, assim atraindo a demanda dos que procuravam evitar o que passou a ser concebido como "centro do Rio". Os conhecidos Jardim do Méier (1916) e Hospital Salgado Filho (1916) demarcavam de forma muito clara a função urbana atribuída ao nascente bairro.
Marcado como estava por essa característica, não é de se espantar que o Méier tenha recebido o primeiro Shopping Center da cidade, em 1963. No entanto, essa publicação ilustra a principal das razões que antecedem a construção desse centro comercial: o primeiro cinema de grandes capacidades do subúrbio carioca, o Cinema Imperator.
Construído na principal via do bairro - aquela que terminava de fronte à estação "Méier" do trem e interiorizava o bairro -, a rua Dias da Cruz, o Cinema Imperator foi iniciativa da Cinematográfica Guanabara, Comércio e Indústria. Essa empresa era uma sociedade de José Pinheiro, João Pedreira Filho, Carlos Flack e Nelson Caruso - industriais e comerciantes proprietários de negócios nos bairros circunvizinhos ao Méier - que tiveram apoio de outras empresas locais, fornecedoras da obra, especialmente, como a BRAFOR S. A. (poltronas), a Casa Beiriz (tapetes, cortinas e passadeiras), a Cia. Black (estrutura e equipamentos para estúdios e cinemas) e a Marmoaria Santa Rita.
O Cinema Imperator possuía uma gigantesca sala de cinema com três mil poltronas estofadas, tela panorâmica medindo 15x9 metros, alto volume de som com tratamento acústico especializado e potente ar condicionado em toda sala. No momento de sua contrução e equipagem, o cinema foi segurado por duas companhias: a seguradora Novo Mundo, cobria os incêndios, especialmente; a seguradora Miramar, cobriu o pessoal engajado na construção do cinema.
O Cinema Imperator foi inaugurado em 20 de maio de 1954 recebendo lotação máxima para exibição do musical americano "A Meia-Noite do Amor", estrelado por Ray Milland e Jane Wyman.
O Imperator permaneceu como cinema até a década 1980, quando fechou, sendo reaberto como casa de espetáculos na década de 1990. Após mais de uma década fechado novamente, foi requalificado pela Prefeitura do Rio de Janeiro como "Imperator - Centro Cultural João Nogueira". Hoje, este equipamento cultural é gerido pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro.
: SILVA, George Batista da. Telas que se foram: os antigos cinemas do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Clube de Autores, 2011. Pode ser encontrado na íntegra em: https://books.google.com.br/books?id=EOl7DwAAQBAJ&lpg=PA1&hl=pt-BR&pg=PA1 =onepage&q&f=false
Legenda da Imagem: Diário Carioca de 21 de maio de 1954, página 5.
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