22/07/2024
Se fosse um diário, não funcionaria tão bem. Eu estava vagando novamente pelas redes sociais, como de costume à noite, e me deparei com uma propaganda sobre escrita terapêutica. No post, três dicas eram dadas para estabelecer uma rotina de escrita para, enfim, obter alívio terapêutico dela. Seriam: escrever sobre frustrações, escrever sobre gratidão e uma terceira que não me lembro, ou talvez não tenha lido. O fato é que, no meio da propaganda, já tinha entendido que para escrever mais, bastava escrever. Fim do mistério.
Mas, para além disso, bastava escrever sem as amarras da criticidade a qual tanto devemos o nosso sistema de crenças. Hoje mesmo, durante a sessão de terapia, a psicóloga comentou que eu reservo as piores críticas a mim mesma. Veja, eu já sabia disso, não havia surpresas, mas saber disso e continuar praticando seria uma violência a minha identidade. Entender que o meu espírito crítico rígido está me afetando inconscientemente é como descobrir o grande motivo para falta de conexão com o meu eu-criança. Eu explico.
Quando era criança, uma das minhas brincadeiras favoritas era escrever. Gostava de usar a maquina de escrever, papéis, canetas coloridas, cadernos e posteriormente o computador: daquele enorme bem antigo com torre na horizontal. Meus pais sempre fizeram de tudo para manter o meu espírito escritora que, pensando bem, perdurou por uns bons anos, mas da adolescência para frente, ele foi sumindo gradativamente. Não só sumindo porque os hábitos eram outros, eu precisava pagar a minha dívida com a matemática. Mas sumindo porque quanto mais me esforçava para crescer, mais eu achava longínquo o sonho de ser escritora. A realidade mata mesmo um pouco de quem somos.
E o espírito crítico rigoroso foi crescendo em mim, gerando uma ambiguidade. Não posso escrever porque não sou boa o bastante, mas preciso escrever porque sei fazer isso. Mas, cá entre nós, a coisa foi piorando tanto que por uns anos não conseguia nem mesmo ler o que eu havia escrito. Ler as minhas palavras era vergonhoso porque cada erro contava como mais um degrau para compreensão de que eu não era, e nunca tinha sido, suficiente. Outro dia escrevi: “toda crítica rígida é uma forma de ofensa”. Eu não estava criticando, estava ofendendo.
Com o passar dos anos, entendi que o medo da escrita era algo que invariavelmente eu teria que enfrentar: digo isso como estímulo a você também, somos todos escritores. No mestrado, inclusive, longos períodos de ansiedade, somados à síndrome do pânico foram piorando a minha condição de estudante. Eu escrevia, mas com muito custo, custo mental de esforço e de lacerações do corpo, eu me coçava bastante, tinha marcas nos braços.
Quem diria que era o que parecia ajudar que mais atrapalhava? Criticar arduamente os meus textos só fazia me sentir cada vez menor e, afogada na minha impossibilidade de ser quem eu desejava, eu preferia não ser ninguém, escrevendo o que era mais razoável, da maneira como eu podia (e o quanto eu podia). Também acrescento que eu não dominava muitas técnicas de produção de textos, apesar de ser formada em Letras. Hoje em dia já estou mais experiente, pelo menos nessa área.
Pelo outro lado, o que mais me ajudou a escrever bem, no sentido de fluir o texto pela página e não no sentido de qualidade, foi o próprio prazer de escrever. Na verdade, o prazer de explicar as coisas pelo meu ponto de vista. Existe um enorme prazer em descrever as coisas como estão na sua cabeça e, de repente, ler-se de relance e entender que o possível leitor tiraria dali proveito, senão sobre o seu pensamento, pelo menos sobre uma reflexão para si mesmo. Isso é muito bonito, e saber fazer isso, mais ainda.
Dessa beleza, na minha humilde opinião, nasce não só a obra textual, mas também a identidade única de cada escritor. Dessa coisa de explicar e entender-se. Escrevendo eu entendo a mim mesma com nitidez maior do que apenas convivendo com a minha consciência em silêncio.
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