GENI - Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos

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GENI/UFF

14/01/2026

Na cidade do Rio de Janeiro, existe uma desigualdade de renda profunda entre territórios controlados por grupos armados e áreas não dominadas. Enquanto moradores de regiões livres do controle criminoso têm renda média per capita de R$ 3.521, aqueles que vivem sob domínio armado sobrevivem com ap***s R$ 1.267. Na prática, atravessar a “fronteira” desses territórios na Capital significa uma queda de quase 64% na renda média, um abismo ainda maior do que o observado no conjunto da Região Metropolitana do Rio de Janeiro.

Além da diferença absoluta de renda, o Mapa Histórico dos Grupos Armados mostrou que a pobreza nos territórios controlados é mais homogênea. Nessas áreas, a maior parte da população está concentrada entre os 20% mais pobres da sociedade, formando o que o relatório define como uma “população igualmente mais pobre”. Já nas áreas não dominadas, a renda se distribui de forma mais equilibrada entre os diferentes estratos sociais, permitindo maior diversidade econômica e social.

O controle armado aparece, assim, não ap***s como consequência da pobreza, mas como um fator que a produz e a mantém. Grupos armados extraem renda diretamente dos moradores por meio de monopólios violentos sobre serviços essenciais, como gás, água, internet e transporte, impondo taxas que drenam os já baixos rendimentos. Ao mesmo tempo, a presença armada compromete o acesso a educação e saúde de qualidade, reduzindo as chances de mobilidade social e perpetuando a desigualdade no longo prazo.

Esse cenário está profundamente ligado ao racismo estrutural. O relatório aponta ainda que as áreas controladas concentram uma proporção muito maior de pessoas não brancas: na Região Metropolitana, elas representam 69,1% da população desses territórios. Na própria Capital, em zonas como Sul e Centro, áreas dominadas chegam a ter 68,3% de moradores pretos, pardos e indígenas, contra ap***s 25,9% nas áreas livres. Os dados indicam que o controle armado contribui para agravar as desigualdades socioespaciais, impactando sobretudo populações historicamente vulnerabilizadas.

23/12/2025

O Comando Vermelho (CV) é o grupo hegemônico na Baixada Fluminense ao longo de toda a série histórica analisada pelo Geni-UFF. Mesmo com oscilações, mantém a maior participação territorial na região, variando de 82,3% da área controlada no início do período a 47,3% em 2023. Entre 2007 e 2024, o CV ampliou seu controle territorial em 20,5 km² e sua influência populacional em mais de 174 mil pessoas, concentrando cerca de um terço de toda a sua atuação na RMRJ na Baixada.

Essa hegemonia, porém, é permanentemente disputada. As milícias foram o grupo que mais se expandiu na região, com crescimento de 1.608% da área controlada e 1.290,9% da população sob controle ou influência. Entre 2019 e 2023, quando se considera não ap***s o controle, mas também a influência territorial, as milícias chegaram a superar o CV na Baixada, evidenciando uma estratégia de expansão voltada a áreas menos densamente habitadas.

TCP e ADA apresentam trajetórias distintas. Os ADA entram em declínio após 2016 e deixam de exercer controle ou influência na Baixada nos últimos anos da série. Já o TCP inicia uma expansão importante a partir de 2019, ampliando sua presença territorial e populacional, sobretudo por meio da conquista de áreas de favela em municípios como Belford Roxo e São João de Meriti.

Além disso, na Baixada Fluminense, todos os grupos armados se expandem prioritariamente em favelas, ainda que as milícias também avancem sobre o “asfalto”. O resultado é um território marcado por disputas intensas, alternância entre colonização e conquista e rearranjos constantes de poder, que colocam a região no centro das dinâmicas armadas da RMRJ.

Fonte: Mapa Histórico dos Grupos Armados. Acesse já o estudo, o link está na bio!

28/11/2025

No Brasil, chamamos de chacina policial as ocorrências com três ou mais mortes decorrentes de ação policial. No Rio, essas mortes já representam uma parcela significativa dos homicídios. Esse processo, identificado pelos pesquisadores como “estatização das mortes”, vem se aprofundando ao longo da última década.

Segundo estudo clássico de Ignácio Cano, quando mais de 10% dos homicídios são cometidos por policiais, há fortes indícios de abuso de força. A Região Metropolitana do Rio ultrapassa esse patamar com folga: as polícias fluminenses foram responsáveis por mais de 30% da letalidade violenta nos últimos quatro anos.

A partir dessa tendência, o Geni-UFF identificou outro fenômeno preocupante: o crescimento das megachacinas policiais, aquelas com oito ou mais mortos. Entre 2007 e 2022, 27 casos chegaram a esse patamar e um terço ocorreu entre 2020 e 2022. Foi nesse período que aconteceram as mais letais da série histórica:
• Jacarezinho (2021) – 27 mortos
• Penha (2022) – 23 mortos
• Alemão (2022) – 16 mortos

Esse padrão se atualiza nos anos seguintes. A megaoperação policial de 28 de outubro de 2025, a mais letal da história, reforça como as práticas operacionais que estruturaram as megachacinas dos anos anteriores seguem presentes.

Para o Geni-UFF, o fenômeno evidencia uma convergência preocupante: mais letalidade policial, mais chacinas e maior concentração de eventos com número excepcionalmente alto de vítimas, um padrão que permanece atual e exige nova forma de se fazer segurança pública no Estado.

21/11/2025

A aprovação, pela Câmara dos Deputados, do texto-base do chamado “PL Antifacção” reacendeu o debate sobre políticas criminais no país. O projeto, que ganhou contornos mais rígidos após alterações da oposição, foi aprovado por ampla maioria e passou a ser apresentado como o “marco legal do combate ao crime organizado”.

Para o coordenador do Geni-UFF, Daniel Hirata, o PL tem baixa capacidade de gerar mudanças estruturais no enfrentamento ao crime organizado:

— “Do ponto de vista da busca por soluções efetivas, não me parece que fará uma grande diferença. Nós já estamos no jogo eleitoral, e o que foi aprovado mais envia sinais à percepção da população sobre a segurança do que estabelece práticas de impacto maior.”

O projeto endurece p***s, amplia a lista de condutas consideradas hediondas e restringe benefícios penais. No entanto, o texto ignora mecanismos que consideramos centrais no combate ao crime organizado, como ações articuladas de inteligência financeira e integração entre órgãos como Polícia Federal, Receita Federal, Banco Central e Coaf, fundamentais para atingir o financiamento das facções e milícias.

Enquanto o texto segue para análise no Senado, permanece a preocupação de que respostas legislativas centradas ap***s no endurecimento penal deixem de lado as dimensões estruturais do problema. Para o Geni-UFF, é fundamental que o debate público considere evidências empíricas e reconheça a complexidade da segurança pública no Brasil, evitando saídas simplificadas que pouco contribuem para a redução da violência e para o fortalecimento das instituições democráticas.

17/11/2025

A Operação Contenção, realizada nos Complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, tornou-se a mais letal da história recente do país. Segundo especialistas ouvidos pela DW, os procedimentos adotados pelas forças de segurança violaram determinações do Supremo Tribunal Federal (STF), desrespeitaram protocolos policiais básicos e feriram normas internacionais de proteção à vida.

Em entrevista ao jornal Alemão DW, a coordenadora do Geni-UFF, Carolina Grillo, destacou que a desproporção entre mortos e feridos levanta fortes indícios de execuções: “É difícil sustentar legítima defesa quando quatro policiais e mais de cem civis são mortos. A desproporção é um indício grave de execuções sumárias ou mortes ocorridas em situações não controladas.”

Para o Geni-UFF, a ação não é um caso isolado. Desde 2007, o registramos 707 operações com morte na região metropolitana do Rio: são 2,9 mil civis e 31 policiais mortos. A recorrência de ações de alta letalidade, sem responsabilização, reforça um modelo de segurança pública baseado em incursões armadas e extermínio, concentrado em favelas e periferias.

Para Grillo, essa estratégia “não reduz crime, mas produz efeito político”, alinhado a discursos punitivistas e ao avanço da extrema direita. “Há ganhos eleitorais associados a essas práticas. O crime organizado se articula em rede. É preciso combater suas bases econômicas, conexões políticas e mecanismos de lavagem de dinheiro”, afirma.

Seguiremos produzindo dados, análises e evidências para subsidiar políticas públicas de segurança que respeitem a vida, o território e os direitos humanos.

Foto: Aline Massuca/REUTERS

Photos from GENI - Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos's post 14/11/2025

Na segunda parte da entrevista ao Le Monde, Carolina Grillo, coordenadora do GENI/UFF, explica por que as operações policiais letais não enfraquecem o Comando Vermelho e defende que o combate ao crime precisa atacar as bases econômicas e os laços de corrupção que sustentam o tráfico.

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11/11/2025

Geni-UFF na imprensa internacional!

A coordenadora do Geni-UFF, Carolina Grillo, participou de uma entrevista para o canal internacional RT, o veículo de notícias em espanhol mais assistido do mundo.

A matéria, intitulada “Policía brasileña busca medidas adecuadas para combatir el crimen organizado en Río de Janeiro”, abordou a abertura de uma investigação da Polícia Federal voltada ao enfrentamento das redes de lavagem de dinheiro e à infiltração de organizações criminosas em órgãos públicos no estado após a megaoperação realizada no dia 28 de outubro.

Durante a entrevista, Carolina Grillo contribuiu com a análise crítica sobre as dinâmicas do crime organizado e as respostas institucionais adotadas no Rio de Janeiro, destacando a importância de compreender a complexidade dessas redes e seus vínculos com o poder público para formular políticas mais eficazes e menos violentas.

07/11/2025

A Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 635, conhecida como “ADPF das Favelas”, não reduziu o número de operações policiais no Rio de Janeiro, mas tornou essas ações mais seguras e transparentes. A medida, determinada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 2020, estabeleceu parâmetros rigorosos para a realização de incursões armadas em comunidades, exigindo planejamento prévio, justificativas formais e controle de abusos.

Dados do Geni-UFF mostram que, mesmo após a decisão, as operações continuam frequentes: ap***s em 2024, foram registradas mais de 400 incursões policiais na Região Metropolitana do Rio, resultando em mais de 600 mortes. Apesar disso, o número de vítimas caiu em relação aos anos anteriores à ADPF, indicando que as medidas de controle contribuíram para reduzir a letalidade e ampliar a fiscalização sobre a atuação policial.

Para Daniel Hirata, coordenador do Geni, a decisão do STF representou um marco no debate sobre segurança pública e direitos humanos. “As operações são o fim de um processo de investigação e, quando acontecem, precisam minimizar a letalidade e os impactos sobre a população civil”, afirma. Segundo ele, a ADPF não impede a ação policial, mas estabelece critérios que garantem maior proteção à vida e transparência institucional.

Nesse sentido, a ADPF das Favelas tem funcionado como um instrumento de controle democrático sobre as forças de segurança, contribuindo para o fortalecimento das políticas públicas de segurança e justiça no estado. Ao impor limites e exigir prestação de contas, a medida reafirma o compromisso com uma atuação policial que respeite os direitos fundamentais e a dignidade da população, principalmente nas favelas e periferias.

06/11/2025

Para os pesquisadores do Geni-UFF, a atual estratégia de segurança pública no Rio de Janeiro precisa ser profundamente repensada. Não deveriam acontecer tantas mortes assim em um dia de operações e, portanto, a atuação das forças policiais deveria ser repensada. As operações são o final de um processo de investigação e, quando realizadas, precisam minimizar seus impactos de letalidade e também os impactos que sempre ocorrem do ponto de vista do provimento de serviços, por exemplo, de educação e de saúde.

Em entrevista ao Brasil de Fato, o coordenador do Geni-UFF, Daniel Hirata, explicou que o Comando Vermelho (CV) se consolidou como o maior grupo armado do Estado do Rio de Janeiro após a morte de Wellington da Silva Braga, o Ecko, em 2021. Ecko era o principal líder da milícia conhecida como Bonde do Ecko, e sua morte abriu espaço para uma expansão do CV sobre territórios antes dominados por outros grupos.

No entanto, Hirata ressaltou que o controle territorial exercido por esses grupos não é desarticulado por operações policiais pontuais. Para que haja uma mudança efetiva, seria necessário atuar sobre as bases econômicas e regulatórias que sustentam esses poderes locais. “É preciso atuar de forma regulatória nos mercados de atuação desses grupos”, explicou.

Essa atuação envolve garantir acesso à terra, moradia, transporte público e também enfrentar os mercados ilegais de armas e dr**as. “Dessa forma, seria muito mais difícil para esses grupos atuarem e fazerem dessas bases econômicas a alavanca de sustentação para o controle territorial armado, para a cooptação de agentes de Estado e para o desenvolvimento das suas atividades criminais”, conclui Hirata.

01/11/2025

Em entrevista à TV Band, a coordenadora do Geni-UFF, Carolina Grillo, analisou as raízes da atual crise da segurança pública no Rio de Janeiro. Para a pesquisadora, o fenômeno do controle territorial armado no Rio não é uma característica “natural” da cidade, mas o resultado histórico de políticas que abandonaram as favelas e transformaram as operações em rotina. Dá só uma olhada!

31/10/2025

Geni, o que seria uma política de segurança pública realmente eficaz?

Ações baseadas em inteligência, investigação financeira e desmonte de redes logísticas são muito mais eficientes e evitam tragédias como a da última megaoperação que aconteceu no Rio de Janeiro.

Muito mais eficientes são as operações como as realizadas recentemente pela Polícia Federal, que conseguiu apreender quantias enormes de dinheiro do PCC e identificar suas conexões com o mercado financeiro na Faria Lima, em São Paulo. Essas ações têm impacto estrutural sobre o crime organizado e foram realizadas sem disparar um tiro sequer.

Em entrevista ao Uol, a coordenadora do Geni-UFF, Carolina Grillo, lembrou ainda que a Polícia Federal desmantelou recentemente fábricas de fuzis no Rio de Janeiro, mostrando que é possível atuar com precisão e sem letalidade. Em contraste, as incursões armadas ap***s alimentam o ciclo de violência e lucro do mercado ilegal:

“Os fuzis apreendidos serão recomprados, as dr**as voltarão a circular, movimentando um mercado lucrativo que precisa ser investigado com inteligência. Esses mercados envolvem grupos corruptos dentro das agências de segurança pública e órgãos do Estado, que lavam grandes quantias de dinheiro e cometem crimes financeiros. Em vez de regular os mercados e atuar de forma planejada, o Estado opta pelo caos, uma forma de ‘mostrar serviço’, mas um péssimo serviço, que só agrava a violência e mantém o controle armado nas favelas”, disse a pesquisadora.

30/10/2025

Geni, as operações policiais de incursão armada nas favelas ajudam a combater o crime organizado?

O Estado do Rio de Janeiro insiste há décadas em um modelo de segurança pública baseado em incursões armadas em territórios de favela. Esse modelo não reduz o poder das facções nem o controle territorial armado.

Para o Geni-uff, as operações, no máximo, interrompem o funcionamento do tráfico por algumas horas, apreendem algumas armas e dr**as e deixam um rastro de mortos e feridos. São ações que matam suspeitos, moradores, fecham escolas, paralisam postos de saúde e impedem que os moradores circulem.

O resultado é sempre o mesmo: grande custo social e nenhum efeito duradouro. As ocorrências criminais não diminuem, e o controle armado continua o mesmo.

“A operação do dia 28 foi a mais letal da história do Rio de Janeiro. Até então, a maior chacina policial da história havia sido a do Jacarezinho, com 27 mortos civis e um policial. Essa não foi ap***s a operação policial mais letal, como a chacina mais letal. Não houve na história do Rio de Janeiro nenhuma chacina praticada nem por grupo de extermínio, por grupos armados, tão letal quanto essa operação policial. O ciclo é previsível: o Estado repete o mesmo modelo e o mesmo fracasso”, explica a coordenadora do Geni-UFF, Carolina Grillo.

Foto: Ricardo Moraes/Reuters/Folhapress

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