24/02/2026
A comunidade de Jacareacanga não está apenas indignada está se manifestando diante de uma realidade que, ao longo dos anos, tem gerado sentimentos de exclusão, desrespeito e afastamento dentro da Escola de Samba Solidariedade.
O que se observa, a partir do próprio estatuto registrado da entidade, é um modelo de gestão que levanta questionamentos legítimos sobre participação democrática, transparência e alternância de poder.
De acordo com o documento, há previsão de membros com caráter permanente, inclusive com possibilidade de sucessão, o que pode ser interpretado como um formato que dificulta a renovação interna e a ampliação da participação da comunidade nas decisões.
Além disso, o estatuto também traz dispositivos que concentram atribuições relevantes em instâncias restritas, o que reforça a percepção, por parte de muitos integrantes da comunidade, de um modelo pouco acessível e distante da base que sustenta a escola.
Outro ponto que causa inquietação é a forma de ingresso de novos associados. Esta exigência financeira elevada, sem a correspondente garantia de participação efetiva nos processos decisórios, o que, na prática, pode limitar o envolvimento mais amplo da comunidade.
Diante desse cenário, o que se viu no último carnaval foi uma resposta clara: a ausência significativa da comunidade no desfile.
Esse esvaziamento não pode ser tratado como um fato isolado. Ele reflete um distanciamento crescente entre a escola e sua base. Afinal, uma escola de samba não se constrói apenas com estrutura, mas com pertencimento, participação e identidade coletiva.
Relatos da própria comunidade apontam para dificuldades estruturais e operacionais, como:
• funcionamento limitado da sede
• ausência de atividades regulares abertas à comunidade
• ensaios reduzidos durante o carnaval
• dificuldades básicas de infraestrutura, como fornecimento de energia
• condições físicas da sede que geram preocupação
Além disso, há também questionamentos sobre a ausência de maior integração com a economia local, especialmente no que diz respeito à geração de oportunidades para trabalhadores da própria comunidade, como costureiras e outros profissionais ligados ao carnaval.
Outro aspecto que tem gerado debate é a composição dos espaços de decisão. A presença recorrente de determinados sobrenomes tem sido apontada por membros da comunidade como um possível indicativo de concentração, o que levanta discussões sobre representatividade e pluralidade dentro da instituição.
Diante de tudo isso, surgem questionamentos que ecoam nas ruas do antigo Jacareacanga:
Esse modelo atual amplia ou limita a participação da comunidade?
A estrutura existente favorece a renovação ou tende à continuidade do mesmo grupo?
A escola, hoje, está mais próxima ou mais distante de sua comunidade?
O que se percebe é que não se trata da opinião isolada de um grupo, mas de um sentimento que ganhou corpo e visibilidade, especialmente após o último carnaval.
A ausência de brincantes e componentes no desfile evidencia algo maior: quando a comunidade se afasta, não é por falta de amor pela escola, mas por sentir que não está sendo ouvida ou representada.
A Escola de Samba Solidariedade tem uma história construída pelo povo e é justamente esse povo que hoje pede mais abertura, diálogo e participação.
O momento pede reflexão.
Porque uma escola de samba só existe de verdade quando existe comunidade dentro dela.