21/06/2025
Ensinar literatura é mais do que ensinar a ler. É permitir a travessia entre mundos.
“O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.”
Guimarães Rosa
Nas salas de aula, o que está em jogo nem sempre é só o texto.
E o que se joga é o poder de dizer o que é válido.
É o lugar de quem pode nomear a beleza, a estética.
É a “autoridade” de quem determina o que é “certo”, o que é “culto”, o que é “literário”.
Pierre Bourdieu chamou isso de capital linguístico. (O capital linguístico de Bourdieu é ideia de que nem todas as vozes têm o mesmo valor nos espaços de poder).
Mas isso nas escolas também?
Sim
Na escola, essa desigualdade se mostra quando o educador impõe, ainda que sem intenção, uma linguagem como a única legítima, silenciando sotaques, expressões regionais, formas populares de narrar o mundo.
E é nesse contexto que a literatura precisa ser travessia.
Guimarães Rosa, mestre dos desvios e das reinvenções, sabia que a linguagem interior de cada um é um território sagrado.
Sabia que o sertão não cabe em dicionários, mas pulsa nas entrelinhas.
É papel do professor não colonizar essa travessia, mas mediar o encontro entre mundos:
→ entre o cânone e o cotidiano,
→ entre o verso e o vocabulário da rua,
→ entre a norma culta e a linguagem afetiva.
Porque a poesia está onde há sentido.
E o sentir não se impõe, se constrói.
O professor pode ser guardião de um saber, sim.
Mas que seja guardiã também de escuta.
Que distribua chaves,
ao invés de trancar portas.
Ensinar literatura não é obrigar o aluno a atravessar um rio sem ponte.
É mostrar que há muitas margens,
e que cada uma tem o seu jeito de ver a paisagem.
Na sua escola, ou na sua empresa,
que vozes têm permissão para ser ouvidas?
E
quais são sistematicamente silenciadas?