Viva São Paulo
Os verdadeiros Fundadores
O que acontecia nos Campos de Piratininga,
onde hoje está São Paulo, antes de 1554,
ano oficial da fundação da cidade?
Quase todas as cidades do mundo comemoram seu aniversário. É uma data aceita oficialmente como sendo o dia em que se iniciou a cidade: o dia da fundação. Em São Paulo, como se sabe é 25 de janeiro. Todavia, estas datas são meramente simbólicas. Não possuem um significado maior dentro do processo histórico. São apenas parâmetros com objetivos didáticos.
E o que teria acontecido no ano de 1554? Muita coisa, menos o início da ocupação humana dos Campos de Piratininga, nome pelo qual era conhecido no século XVI a região hoje ocupada pela cidade de São Paulo. Muito provavelmente, prospecções arqueológicas no futuro deverão confirmar os indícios de que a região da cidade de São Paulo é habitada há alguns milhares de ano.
Migrações Marítimas
Existem diversas e conflitantes teorias sobre a origem do homem americano. A postura mais aceita e tradicional, levantada por norte - americanos nos anos 50, é a de que a América teria sido povoada exclusivamente a partir do norte por povos caçadores e criadores de renas vindos da Ásia, que atravessaram o estreito de Behring há cerca de 12 a 15 mil anos atrás, quando os dois continentes estavam unidos pelo congelamento do oceano Ártico. Entretanto, diversos indícios e evidências fizeram com que esta hipótese passasse a ser contestada. Não se discute a possibilidade de tal migração haver ocorrido, o que se questiona é a sua exclusividade como fator de povoamento.
Diversos estudos têm contribuído para o fortalecimento da suposição da ocorrência de migrações por via marítima, seja pelo Pacífico Sul ou até mesmo pelo Atlântico. Ficou famosa nos anos 50 a expedição Kon – Tiki, organizada e chefiada pelo sueco Thor Hayerdhal, que alcançou a Polinésia vindo da costa do Peru numa pequena jangada. Mais recentemente, um grupo espanhol fez quase o mesmo percurso num barco de juncos, construído segundo as técnicas incas ainda em uso no lago Titicaca.
Uma outra expedição viajou em um primitivo barco polinésio do Havaí ao Taiti, cobrindo uma distancia de aproximadamente 4 mil milhas na direção contrária às correntes marítimas, usando apenas conhecimentos tradicionais taitianos, provando que os polinésios dominam técnicas sofisticadas de navegação a longa distância já há muito tempo.
E, mais ainda: estudos realizados em crânios encontrados na Bolívia e no Brasil apontaram um maior semelhança com aqueles do Sul do Pacifico. Para embolar ainda mais o debate, muito recentemente foi levantada a tese de que um crânio de mulher encontrado na Lagoa Santa, MG, com cerca de 15 mil anos, teria maior semelhança com crânios de africanos e aborígenes australianos, os quais supostamente teriam vindo pelo Atlântico.
A arqueóloga brasileira Niede Guidon vai bem longe no tempo. Ela sustenta que as escavações e os trabalhos que realizou no Piauí comprovam a existência de vestígios de atividades humanas há mais de 50 mil anos! Pela teoria da exclusividade da rota ártica (Estreito de Behring), a ocupação da America do Sul teria ocorrido somente há menos de 12 mil anos! No entanto, as teses de Guidom ainda são encaradas com resistência, principalmente pela arqueologia americana. Vestígios de carvão foram comprovadamente datados como tendo 50 mil anos. A dúvida dos contestadores reside na sua origem humana, conforme é admitida pela arqueóloga brasileira. Ainda segundo Niede Guidon “grupos humanos chegaram até o Sudeste do Piauí há cerca de 60 mil anos. O sul de Minas Gerais estaria povoado por volta de 30 mil anos atrás, e no sul do Brasil grupos humanos estariam estabelecidos há pelo menos 15 mil anos”.
Os estudos lingüísticos, por sua vez, permitem uma “reconstrução” das etnias índias do Brasil até aproximadamente 5 mil anos atrás. Nessa época havia quatro grandes troncos lingüísticos, dos quais derivam a grande maioria das línguas encontradas pelos portugueses no século XVI. Este quatro grandes grupos são os Arawak, Karib, Gê e Tupi.
Por volta de 3.000 a.C. até o ano 1000 a.C., ocorreu uma primeira dispersão do grande grupo Tupi (também chamado macro-Tupi) apartir da Amazônia Central. E do ano 1000 a.c. ao ano zero da era cristã ocorreu a grande diáspora Tupi-Guarani. Esta ultima é que dará origem aos “Tupis da costa”, subdivididos em Tupinambá, Tupiniquim e Maracajá; e aos Guarani, também chamados Carijó. Os dois grupos tinham, no século XVI, pequenas diferenças na linguagem, assim como são as diferenças de dialetos, e também nos costumes, o que indicava uma ascendência comum séculos atrás. A precisão do momento e do percurso da separação é que divide os estudiosos.
São duas as teorias para explicar a diáspora Tupi-Guarani. A hipótese mais aceita e mais antiga é aquela levantada pelo antropólogo francês Alfred Metraux, baseada, na Lingüística, a qual supõe um movimento migratório do sul para o norte, a partir da Bacia do Prata, onde teria acontecido a separação. Para Metraux esta seria ainda recente por ocasião da conquista, embora também admitisse a origem ancestral comum na Amazônia Central.
A outra interpretação, baseada em dados arqueológicos, principalmente no estudo das variações da arte da cerâmica, foi levantada pelo estudioso José Proenza Brochado e ainda carece de maiores comprovações. Segundo Brochado, a cerca de 2 mil anos os Guarani teriam deixado a Amazônia Central e se dirigido à Bacia do Prata, e os Tupi, do mesmo local de origem (Amazônia Central) e na mesma época teriam ido para a foz do Amazonas e daí seguido na direção sul pela costa, submetendo ou expulsando os antigos ocupantes do litoral. Toda a costa, do Nordeste até Cananéia, em São Paulo, teria sido ocupada até o ano 1200 AD, aproximadamente.
Vida Social
Sem entrarmos nos méritos dos percursos, o fato é que no século XVI os Guarani ocupavam a Bacia do Prata parcialmente (rios Paraná e Paraguai) e no litoral se espalhavam desde a lagoa dos Patos, no atual Rio Grande do Sul, até Cananéia em São Paulo. Os Tupi dominavam a costa desde Iguape, junto a Cananéia, até o Ceará, com alguns bolsões de Tapuia. Os Tapuia (nome genérico para aqueles que não eram Tupi-Guarani) estavam estabelecidos em alguns pontos do litoral: próximo ao estuário do Prata estavam os Charrua, na foz do rio Paraíba do Sul, os Goitacá; no sul da Bahia e no norte do Espírito Santo, os Aimoré; e os Tremembé entre o Ceará e o Maranhão.
Tanto os Guarani como os Tupi eram nômades e acreditavam numa lendária e edênica “terra sem males” (yvy marã ey), que tanto podia ser neste mundo como também poderia ser alcançada após a morte. Os Guarani tinham uma lavoura mais desenvolvida, usavam roupas tecidas e não eram antropófagos. Os Tupi, ao contrário, tinham o canibalismo como o grande fundamento da vida social.
Em carta a D. João III, rei de Portugal, escrita em outubro de 1553, dizia o padre Manoel da Nóbrega sobre os Carijó (Guarani): “Há muitas gerações que não comem carne humana. As mulheres andam cobertas. Não são cruéis em suas guerras como estes da costa (Tupi) porque somente se defendem (...)”
Os Tupi tinham subdivisões. O grupo mais numeroso era o dos Tupinambá, espalhados desde o nordeste até o litoral norte de São Paulo. Na Bahia, Espírito Santo e em São Paulo haviam os Tupiniquim. Os Tupiniquim de São Paulo habitavam parte do vale do Tietê, incluindo a região onde hoje se localiza a cidade de São Paulo. No litoral paulista os Tupiniquim dominavam a região que vai de Bertioga até Cananéia, onde começava a zona de influência dos Guarani, ou Carijó.
Os Tupinambá tinham hegemonia de Bertioga para o norte do Estado de São Paulo. No atual Estado do Rio de Janeiro havia uma disputa entre os Tupinambá e os Maracajá, outro subgrupo Tupi, aparentado e aliado aos Tupiniquim de São Paulo. Tudo indica que os Tupinambá estavam expandindo a sua área de ocupação territorial no século XVI quando chegaram os portugueses e franceses. Em meados deste século os Tupinambá expulsaram da Ilha Grande, na Baía de Angra dos Reis, o último grupo Maracajá que ainda resistia.
A referencia à “crueldade” dos Tupi é o pavor que a antropofagia despertava nos europeus. A vingança e a guerra eram o “nexo fundante” da sociedade Tupinambá, segundo o antropólogo Carlos Fausto. Toda a organização social era voltada para a guerra, e o clímax da vida comunitária – o momento de maior confraternização – era o sacrifício do inimigo prisioneiro a ser comido por todos, exceto pelo matador, que imediatamente após a execução iniciava um período de resguardo, abstendo-se de alguns alimentos e atividades por um determinado período.
Passada esta fase, o executor ganhava um novo apelido. Quanto mais apelidos tivesse um guerreiro maior seria seu poder e seu plantel de mulheres. O privilegio de ser o matador era daquele que tinha feito o prisioneiro, ou de um dos seus filhos ou netos, aos quais poderia ser repassado o direito.
Peixe Seco
Nas primeiras décadas do século XVI não poderia haver maior fartura do que aqueles campos habitados pelos Tupiniquim de Piratininga. Há mais de 2 bilhões e 500 milhões de anos que a natureza havia começado a moldar aquele lugar, ainda na era arqueozóica, e há alguns milhares de anos havia sido facilitado o trabalho dos pescadores. Para isso bastavam as chuvas de verão e suas consequências.
As águas torrenciais alargavam bastante o leito dos rios Tamanduateí e Tietê. A partir de março, com o fim das chuvas, os peixes, às centenas, ficavam presos em pequenas lagoas rasas, ao alcance da mão de um menino. Os meandros e os canais que os rios formavam palas várzeas eram tão rasos que a pesca com arco-e-flecha era facilmente executada, até sem a ajuda do timbó, aquele narcótico extraído de uma raiz que deixava o peixe atordoado à mercê do pescador.
Tanto peixe assim até sobrava, e com o esvaziamento das lagoas eles secavam ao sol. Daí o nome daqueles campos: Piratinim ou Piratininga, que queria dizer peixe seco. E daí também o nome de Tamanduateí, ou seja, lugar dos tamanduás, que lá proliferavam comendo as milhares de formigas atraídas pelos peixes em putrefação. Com o tempo Piratininga ficou mais como designativo dos campos e da aldeia, e Tamanduateí permaneceu como o nome do rio.
Naquela época, em pleno século XVI, a região era formada por gramíneas e pequenos capões de mato “a que os portugueses no princípio davam o nome de Campo, por distinção das terras de beira-mar, que acharam cobertas de arvoredo mui alto quando aqui chegaram, e por isso diferentes daquelas mais vizinhas a São Paulo”, conforme frei Gaspar da Madre de Deus, um frade beneditino que escreveu uma História da Capitania de São Vicente, ainda no século XVIII.
Nas cartas escritas pelos jesuítas encontramos ora a denominação Campo ou Campos, ora Piratinim ou Piratininga. Estudos de solo realizados há algumas décadas atrás por especialistas da USP demonstraram a existência de uma primitiva floresta subtropical na região, evidenciando que parte dos campos resultam de queimadas realizadas pelos índios anteriormente à chegada dos europeus.
Como se sabe os índios sempre praticaram a coivara (queimada) para a abertura de clareiras onde eram instaladas as aldeias e a lavoura, cultivada. Em razão do nomadismo que caracterizava a cultura indígena, e dada à pequena extensão das devastações, os espaços abertos eram logo desocupados e em poucos anos a mata se recompunha. No caso de Piratininga isto não ocorreu, provavelmente por causa dos atrativos à sedentarização que a região possuía, principalmente a grande piscosidade dos rios e a convergência de rotas.
Em uma carta escrita pelo padre Manoel da Nóbrega a seu superior em Portugal, datada de 15 de junho de 1553, ele diz a certa altura, referindo-se ao potencial de catequese dos índios daquela região: “O gentio desta Capitania alguma vantagem tem das outras, ainda que tenham os mesmos costumes [as “outras” são Bahia e o Espírito Santo]. Dão os filhos de boa vontade e se tivéssemos com que os manter e criar em Cristo nos dariam todos [...] No Campo, distante daqui a doze léguas, querem se ajuntar três povoações em uma para melhor aprender a doutrina cristã e mostram grande desejo e fervor de aprender”.
Proteção Militar
Manoel da Nóbrega escrevia de São Vicente, então a principal cidade da sul do Brasil, fundada em 1532 por Martim Afonso de Souza, o donatário da Capitania. Os jesuítas chegaram ao Brasil em 1549, juntamente com o primeiro governador-geral Tomé de Souza. No ano seguinte o padre Leonardo Nunes fundou o colégio de São Vicente.
Em São Vicente, as crianças brancas e alguns índios “filhos dos grandes e princiais” eram educados segundo a orientação da igreja católica. E se não fosse o apoio de Tibiriçá (T-ybi-reçá: o vigia da terra, o maioral, o principal) e seu “genro” português João Ramalho, Martim Afonso não teria conseguido viabilizar a ocupação da Capitania.
Para a fundação de São Vicente e a construção do forte de Bertioga, que lhe dava proteção militar, foi fundamental a aprovação do guerreiro Tibiriçá, influenciado por João Ramalho, “amancebado” e “vivendo em pecado” com Bartira, uma das filhas do cacique, como diziam pejorativamente os jesuítas.
Ramalho era um português que já se encontrava no Planalto cerca de vinte a trinta anos antes da chegada de Martim Afonso. Não se sabe precisamente como veio parar no Brasil. As suposições são muitas. Podia ser um remanescente de alguma feitoria de pau-brasil, náufrago de algum navio que se dirigia à Índia pelo Cabo da Boa Esperança, ou degredado por algum crime cometido. A única coisa que se tem certeza é que era originário de Vouzela, próximo a Coimbra, de onde teria saído por volta de 1513, deixando uma esposa, a qual nunca mais viu.
A cataquese no planalto
Desde março de 1553 que o padre Manoel da Nóbrega manifestava a seus superiores em Lisboa a intenção de construir uma casa no Planalto, mas, dada a intenção dos moradores brancos de São Vicente (“malfeitores” segundo o jesuíta) em acompanhar os padres, o novo governador-geral, Duarte da Costa, o proibiu de levar adiante o projeto, seja pela possibilidade de ai se esconderem fugitivos da justiça, seja pelo temor de dificuldades de defesa face a um eventual ataque indígena.
O mesmo problema foi levantado em outra carta datada de junho. Em ambas Nóbrega critica os leigos de São Vicente (portugueses, espanhóis, flamengos, alemães etc.) e fala da eventual existência de ouro e prata no Planalto e da sua proximidade com Assunção, segundo ele distante apenas 100 léguas (?). No entanto, alguns meses depois conseguiu seu intento.
O estabelecimento da missão é relatada por Anchieta: “como era muito trabalhoso e difícil, por causa, da grande aspereza do caminho, ao nosso Padre [Manoel da Nóbrega] pareceu melhor no Senhor mudarmos para esta povoação de índios que se chama Piratininga. Isto por muitas razões: primeiro por causa dos mantimentos [...] e especialmente porque se abre por aqui a entrada para muitas nações sujeitas ao jugo da razão”. Uma referência explícita à localização estratégica de São Paulo como entroncamento de rotas ligando o litoral à Bacia do Prata e o norte com o sul. É bastante provável que os traçados das ruas que formaram o triângulo central da cidade - Direita, São Bento e 15 de novembro – fossem trechos de trilhas dos indígenas.
O entusiasmo de Anchieta com o “jugo da razão” era grande naquele momento inicial de convivência com os nativos. O desprezo pelos costumes dos índios era enorme. Embora em alguns casos se justificasse, como em relação à antropofagia e às intermináveis guerras de vingança, em outros a arrogância de uma suposta supremacia cultural era até pervertida.
Nesta mesma carta, endereçada ao superior máximo e fundador da Companhia de Jesus, Inácio de Loyola, Anchieta conta que no Espírito Santo um chefe índio havia sido convencido do “pecado” em que vivia com sua companheira, pois sua união não era “abençoada” pela Igreja, e com grande contentamento diz: “nisto brilha sobretudo a virtude dum grande e nobre senhor que entrou na via reta da salvação repudiando a concubina com quem vivera unido muito tempo e da qual tivera filhos”. Ora, o abandono da mulher e dos filhos era motivo de regozijo!
Em outro trecho é relatada a eficiência da catequese em São Paulo de Piratininga: “temos também em casa conosco alguns filhos do gentio que atraímos a nós de diversas partes. Estes apartam-se tanto dos costumes dos pais, que passando aqui perto de nós o pai dum, e visitando o filho, este esteve muito longe de lhe mostrar amor filial e terno [...] e outro, estando já há muito separado dos pais, indo de caminho uma vez com os nossos irmãos pela aldeia que a mãe habitava, e dando-lhe estes licença de a ir visitar se quisesse, passou sem saudar a mãe; deste modo põem muito acima do amor dos pais o amor que nos têm. Louvor e Glória a Deus de quem deriva todo o bem”.
A “reconversão”
Oito anos depois, José de Anchieta não mais se vangloriava. Pelo contrário: “com os brasis [índios], nossos antigos discípulos, que com tanto afã e trabalho andamos criando, não temos conta alguma e digo não temos porque eles se fizeram indispostos para todo o bem, espalhando-se por diversas partes aonde não podem ser ensinados e assim voltam todos aos costumes de seus pais”... Até mesmo um filho mestiço de João Ramalho e Bartira continuava com a prática de matar os inimigos e dá-los de comer aos amigos.
Os temores do governador-geral se confirmaram em parte. De fato, o Colégio de Piratininga, estabelecido estrategicamente no alto da colina que dominava o vale do Tamanduateí, acabou atraindo muitos moradores de São Vicente e de Santo André da Borda do Campo – fundada anos antes por Martim Afonso de Souza e João Ramalho.
Tibiriçá havia se mudado para perto da missão, exatamente no local onde hoje se encontra o Mosteiro de São Bento. Dali o velho guerreiro avistava a confluência do Tamanduateí e do Tietê e todas as várzeas até a Cantareira. Sua ajuda ao estabelecimento da catequese foi decisiva. No quadro das hostilidades que existiam entre os índios era lhe conveniente reforçar a aliança com os portugueses: ao sul tinha como inimigos os Carijó, ao norte os Tupinambá, também chamados de Tamoio, e à oeste outras tribos rivais como os Guianás e os Maramomins.
Essas rivalidades logo ressurgiriam. Os Tupinambá estavam em pé de guerra há muitos anos e tinham lá seus motivos. Anteriormente, no início da colonização, eram bons aliados dos portugueses enquanto a conveniência destes era só comerciar o pau-brasil. Nesta fase não havia interesse dos lusos em povoar ou conquistar territórios: o objetivo era só o de estabelecer feitorias para trocar mercadorias.
Com a decisão da Coroa portuguesa de estabelecer capitanias hereditárias e promover o povoamento por europeus a coisa muda. Os Tupinambá passam então a ser encarados não mais como aliados, mas sim como um fator de produção a ser submetido e escravizado e é o que passa a ocorrer. Os franceses, que sempre comerciaram o pau-brasil, se unem aos Tupinambá dando-lhes apoio contra os portugueses e seus aliados, os Tupiniquim da Baixada e de Piratininga.
Primeiros Ataques
Os primeiros ataques dos Tupinambá são vitoriosos, surpreendendo os portugueses em vários pontos da costa, simultaneamente. Habilmente estabeleceram alianças com os Carijó e mesmo algumas tribos Tupiniquim descontentes com a posição de Tibiriçá, e com os abusos dos europeus de Piratininga e Santo André da Borda do Campo. Até mesmo um irmão de Tibiriçá, Piquerobi, e um seu sobrinho, Jaguanharo, se revoltam.
Desde 1554 havia ataques esporádicos à missão e à povoação que se formava com índios, mestiços, portugueses e outros europeus. A partir de 1561, com a grande ofensiva dos Tamoio e seus novos aliados, estes se tornam mais freqüentes. Em 1562, São Paulo de Piratininga é cercado durante dois dias por índios comandados por Piquerobi e Jaguanharo (Onça Brava). O cerco a São Paulo é assim descrito por Anchieta: “Por parte dos inimigos foram muitos os feridos e alguns mortos, entre os quais um nosso antigo catecúmeno [Jaguanharo] que foi quase capitão dos maus, o qual sabendo que todas as mulheres haveriam de se recolher à nossa casa [colégio] e que ali haveria muito o que roubar, veio a dar combate junto à cerca de nossa horta, mas ali foi atingido por uma flecha que lhe pegou na barriga e o matou, dando-lhe o pagamento que ele nos queria dar pela doutrina que lhe havíamos feito como uma cura de feridas que lhe fizemos a ele e seus irmãos na época em que estava conosco”.
O Anchieta de 1562 já é outro. Embrutecido pela guerra, não fala mais em “jugo da razão”: “Parece-nos agora que nesta Capitania estão abertas as portas para a conversão do gentio [...] porque para este gênero de gente não existe melhor pregação que espada e vara de ferro”... O jesuíta não faz nenhum questionamento mais profundo sobre a razão do fracasso da catequese ou sobre a revolta de muitos dos antigos alunos como Jaguanharo. Tratá-lo simplesmente como um ladrão foi tudo o que fez. E por que não refletir sobre as razões que levavam a brigas entre irmão, tios, sobrinhos e até de pais contra filhos? Ao contrário, dizia: “e foi coisa maravilhosa que se encontravam às flechadas dos irmãos com irmos, primos com primos, sobrinhos com tios e até mesmo dois filhos que eram cristãos e estavam conosco contra seu pai que era contra nós”.
Algo mais estava em jogo do que ser ou não ser cristão, ou de uma luta do bem contra o mal. A Anchieta não ocorria, ou sua consciência de militante da Contra-Reforma não alcançava, que apenas lutava-se pela sobrevivência. São Paulo não era mais uma missão para a conversão de “almas perdidas”, mas uma cidade de “malfeitores” como Nóbrega chamava os europeus de São Vicente, cujo único objetivo era submeter e escravizar os índios e para tal os jesuítas se constituíram na vanguarda, conscientes ou não.
Tibiriçá morreu pouco depois deste episódio. Não teve tempo de ver o que seu irmão sobrinho e outros parentes tinham percebido: os europeus tinham vindo para dominar e subjugar – não eram confiáveis. Durante os 150 anos seguintes os brancos e mestiços de São Paulo iriam caçar índios por toda a Bacia do Prata, da forma mais vil e covarde. Dezenas e milhares foram subjugados e levados à São Paulo e daí distribuídos por todo o Brasil escravocrata que se formava.
Apesar do fracasso do cerco, os índios voltaram a atacar São Paulo em 1564, Santos e São Vicente em 1565, até serem derrotados por Mem e Estácio de Sá no Rio de Janeiro, em 1567. Em 1585 a expedição do capitão-mor Jerônimo Leitão destroçou numerosas tribos do vale do Tietê. Cinco anos depois varias tribos hostis acamparam em Barueri, chegando a atacar o aldeamento de Pinheiros (atual bairro), queimando a capela local. São Paulo é atacada pela última vez em 1594. Em 1620 quase ocorreu uma rebelião de índios escravizados. A partir daí cessam as resistências do nativos da terra.
José Alfredo Vidigal Pontes
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23/10/2015
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Para lançar o livro precisamos de seu apoio! Entre no link e nos ajude para que em breve o livro esteja nas livrarias e bancas da nossa região ...https://www.catarse.me/pt/antoniopiresdecampos
24/02/2015
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08/10/2014
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