05/06/2020
Sobre ser herói
Tenho muito medo da palavra herói, ainda mais em tempos de pandemia. Ainda mais quando partem das autoridades ou de pessoas por elas convidadas.
O médico é herói, o professor é herói, o policial é herói...e a estes vão se somando uma série de profissionais que têm mostrado resiliência diante das adversidades.
Explico-lhes o meu medo.
Tendo em vista a definição de herói, o minidicionário Houaiss, dentre outras acepções, também indica “indivíduo que suporta sofrimentos ou que arrisca sua vida em beneficio de outrem” (HOUAISS, 2004, p. 386-387).
Talvez, você, caro leitor, ainda não tenha entendido a armadilha que pode estar por trás de uma adjetivação tão louvável. No entanto, pense no médico que entra nos hospitais para salvar vidas e lá, no hospital, não existem os equipamentos necessários; pense nos professores que vivem em um momento de incertezas, sem respaldo legal para as suas práticas, e impõem-lhes, implicitamente, o sacrifício em nome de uma possível “salvação” da educação em tempos de pandemia; pense no policial que enfrenta criminosos armados com fuzis, protegido apenas por seus coletes, que não salvam-vidas, ao contrário do que diz o nome; pense em tantos outros que resistem em condições nada favoráveis.
Da mesma forma que os louros da vitória possam vir, o fracasso também poderá lhe ser atribuído, caso os objetivos não tenham sido atingidos, e fracassar é o que há de mais fácil diante da falta de estrutura e de respaldo do órgãos governantes.
Coloquem suas capas, heróis! Vão lá fazer aquilo que o sistema não fez, arrisquem suas vidas, façam sacrifícios, sejam missionários, sacerdotes, resistam! Confiaram-lhes o titulo de herói e vocês não podem fracassar mesmo que não hajam políticas públicas, planejamento, investimento...Afinal, você é herói e herói também tem superpoderes.
Não é reconhecimento ser chamado de herói, mesmo que, para a população, isso seja uma forma de agradecimento.