22/06/2026
Qdo comecei meu mestrado (2011), acreditava investigar sobre a fisiologia do yoga. Queria compreender como as tradições indianas concebiam o corpo e como a transformar esse corpo era considerada condição pra libertação.
Hj percebo q a pergunta era ingênua e q pdoeria ter me aprofundado+.
A fisiologia do yoga não descreve apenas um organismo, mas organiza fantasias: a de q existe um corpo ainda não realizado, atravessado por bloqueios, impurezas ou ignorância, q pode ser cozido até atingir um estado de plenitude.
Esse corpo funciona como um ideal, pois há sempre desejos abrindo caminhos e prometendo tampar buracos. A prática aparece como mediação entre o sujeito e uma suposta completude.
Na época, meu interesse era compreender essa corporeidade religiosa sem reduzi-la à biologia. Eu procurava mostrar q o corpo do yoga é simbólico, cosmológico e espiritual; q é produzido por uma linguagem e tradição, não apenas por músculos, nervos e hormônios.
Anos depois, a psicanálise me permitiu formular uma pergunta diferente.
E se esse corpo não fosse apenas um objeto de saberws transcendentes, mas uma resposta à angústia? E se a promessa de libertação funcionasse como forma de organizar o desejo de yoguesBR diante da experiência instável de se estar vivo?
Essa mudança de perspectiva transformou td a minha pesquisa posterior.
No doutorado (2015), passei a investigar como o yogaBR substituiu a promessa de libertação pela de saúde e bem-estar. Hj a questão se desloca uma vez+: me interesso pelos yogues comuns e não ao q os gurus-guris prometem, mas o q sustentam como seres humanos, qual desejo mobiliza e forma de sujeito em yogamento.
Percebo agora q meu mestrado já continha, em germe, a questão q atravessa parte da minha (breve) trajetória acadêmica q se consolida na minha clínica atual: pq o ser humano insiste em acreditar existir um estado (“oceânico”) q nunca chega?
Talvez essa seja a vdd pergunta q une minhas pesquisas sobre yoga e aproximação q faço com a psicanálise.
Não se trata + em descobrir se a libertação existe, mas compreender pq necessitamos a imaginar e quais efeitos esse “maya” produz sobre jeitos yoguicos de viver, desejar e sofrer.
Grupoterapia.
18/06/2026
Td yogue chega com seu desejo fixado: diminuir angústia, alcançar consciência cósmica, exp sentimentos oceânicos, ser + calmo. Mas o desejo não tem objeto: o obsessivo deseja o impossível e o histérico visa se manter insatisfeito. É confuso, eu sei, pois humanos somos, imperfeitos, contraditórios, faltantes...
Td desejo yoguico (q se mostra em pergunta) tem sempre uma causa [altamente específica], mas nunca um objeto... ele pulsa pelo seu corpo.
Um yogar maduro busca mobilizar desejos se tornando a causa desejante do yogue. Ocorre aqui, necessariamente, uma transferência e o yoga passa a ser a causa real do desejo do yogue. Não se perde tiozão, ninguém vai te explicar essa poha de novo.
Mas o q vc deseja mesmo? Sim, parece fácil, mas passamos boa parte de nossas vidas tentado corresponder (ser amados) por Outros q não nós. O yoga (vem comigo agora) pode lhe auxiliar (em comuna, nunca solo) a sacar o q se passa aí (e não + só lá). Tomamos o desejo do Outro como nosso e vamos nos esvaziando de sentido se tentando ser o sentido do/pro Outro (da princesinha do papai a yogue predileta do guru, do menininho da mamae ao yogue exemplar do templo).
Se houver uma meta nos yogas maduros (q não pertençam ao templo, livro e guru), é a subjetivação da causa desejante! Ih, fud3u... Ou seja, subjetivar (joga no google o verbo, se vira) o desejo do Outro (em vc - é corpo tá) como causa = vc passa a desejar viver uma vida pra responder ao desejo q nunca foi seu, e de uma ficção/maya q tu imaginou pra ser aceita por “alguéns” q nunca lhe pediram Isso.
** respira e lê de novo (dá seus pulos) **
.. aqui é velha-guarda, tem q ler e interpretar texto ...
Td yogue “sobe no mat” em sua maneira habitual de viVER o mundo, i.e., espera q o seu mundo subjetivo (a perspectiva) coincida com o desejo do mestre, p.e. Ele faz isso pra satisfaze-lo ou frustrá-lo disso: “Estou + calmo pq medito td dia” ou “Ninguém aqui pratica a não-violência como deveria”.
Mas o yogar maduro não vai estar onde o yogue espera q ele esteja, justamente pra q aquele consiga questionar, abalar e reconfigurar a fantasia em que vive. Por isso vc (nem qq yogar) não é nada, mas está sendo.
16/06/2026
O q acontece com o yoga depois q a autoridade das gdes linhagens começa a ruir? Essa foi a pergunta de um doutorado de uma inglesa, Theodora Rebecca Wildcroft em 2018.
Muitos yogues hj já não se identificam tt com marcas de yoga, mas transitam entre métodos, festivais, retiros, terapias corporais, ecologia profunda e espiritualidades alternativas.
Existe uma nova subcultura do yoga surgindo, org por redes de pares e - por hierarquias de transmissão. Esse fenômeno se denomina de Yoga Pós/Sem-Linhagem.
Wildcroft passou anos frequentando festivais de yoga na Inglaterra, workshops e “Camps”, retiros, gpos de yogues alternativos e suas comunidades de prática. O q ela encontrou:
1. [ A maioria dos praticantes experientes não seguiam uma única tradição ]: e se tornaram menos dogmáticos. Em vez de pertencer a uma linhagem, construíam uma prática própria a partir de múltiplas influências. O yoga funcionava + como uma LINGUAGEM COMUM do q uma religião do livro-mestre-igreja.
2. [ A autoridade se deslocou do guru pra a experiência ]: nas linhagens clássicas é “o mestre q sabe”, aqui, eles “investigam juntos” = os profs continuam importantes, mas passam a ser vistos como FACILITADORES e não detentores da VDD: a exp vivida ganha + peso q a fidelidade doutrinária.
3. [ Os profs + influentes são os q autorizam autonomia ]: os profs + respeitados não eram os q criavam dependência, mas os q ajudavam os alunos a desenvolver critérios próprios. A função do prof deixa de ser produzir discípulos mas realizar praticantes autônomos.
4. [ O yoga está se tornando uma rede rizomática ]: sem centro, autoridade única, ortodoxia fixa e c/ múltiplas conexões o conhecimento CIRCULA entre profs, alunos, terapeutas, autores, artistas, festivais e comunidades.
5. [ O corpo virou LAB ]: ao invés de reproduzir técnicas tradicionais, eles usam a prática como investigação. A pergunta deixa de ser se “estou fazendo o método corretamente” pra “o q acontece qdo faço isso?” = prática como processo CONTÍNUO de experimentação.
6. [ O colapso dos gurus acelerou essa transformação ]: O crescimento do yoga pós/sem-linhagem se liga às crises envolvendo gurus, abusos de poder e movimentos como
15/06/2026
É comum acreditarmos q sofrer (dukkha) surge por não conseguirmos o q queríamos. Mas boa parte dos desejos nem são nossos de vdd.
Desde pequenos aprendemos q receber amor depende de corresponder às expectativas dos outros: pais, professores, parceiros, gurus e até tradições espirituais vão deixando perguntas dentro de nós: vc tá fazendo o suficiente? Esse é o caminho certo? Qm estamos nos tornando é a pessoa q deveria ser? Tu és um bom consumidor e empreendedor?
Com o tempo, passamos a viver tentando responder a uma única questão: o q esperam de mim?
Aí nasce uma armadilha.
Você medita para quê?
Como pratica yoga?
Busca iluminação para quem?
Se autoconhecer ou, finalmente, conquistar aprovação de fantasmas?
Criamos uma história sobre qm somos e sobre qual deveria ser nosso destino (dharma?). Essa ficção (ou maya) organiza a vida e reduz a angústia. O problema é q ela nem sempre dura pra sempre; muitas vezs, abre fissuras e somos invadidos pelo princípio de realidade.
Surge a crise: qm sou eu? O q realmente desejo? E se eu abandonar esse personagem, o que resta (de mim)?
Quase sempre foi neste momento q tu decidiu ir pro yoga, começar a meditar e se tornar reikiano, guardiã do cacao e/ou terapeuta tântrico ou algo do gênero; muita gnt chama isso de despertar espiritual. Entrementes, talvez, tenha sido “apenas” o colapso de uma identidade antiga q não funcionava mais.
O perigo é transformar esse vazio em uma nova prisão, acreditando q se é um fracasso, um erro ou alguém que perdeu seu caminho. Talvez não. Pode acontecer, pela primeira vez, de existir um espaço vazio onde um desejo “menos emprestado” possa vir a nascer.
Nem o yoga, meditação ou caminho espiritual deveriam servir pra realizar as expectativas dos outros. Yogues nascem qdo param de perguntar ao mundo qm deveriam ser. O lugar é de tt desamparo mesmo, peia forte!
12/06/2026
No senso comum, poderíamos imaginar que td é fantasia = ilusão = maya do yoga, ou seja, td o q nos afasta da Realidade = Verdade = Purusa? Entrementes, nem tds as tradições yoguicas (sobretudo as shivaistas não-duais) pensam assim.
O q denominamos como realidade já é uma construção simbólica; do mesmo modo que o conceito de Purusa (consciência pura, obssrvador que nao sente dor e etc) pode ser uma das gdes fantasias produzidas para proteger vc-yogue do encontro com o Real. Dá uma respirada agora...
A fantasia/maya não nos afasta da realidade (q é diferente do Real - tá td bem, continua aqui comigo no flow-vinyasa); mas torna a realidade possível. Maya/fantasia torna o Real real, i.e., simboliza, dá signo-significado-significa o q antes não parava de não se inscrever. Ih, complicou!
Qdo a sua fantasia rasga (lembra q tu acreditava em papai-noel e q o Prem Baba era iluminado até virar abusador e vc voltar a encontrar o sujeito-Janderson?), não encontramos a realidade, mas o Real = aquilo q não pode ser plenamente simbolizado, é o impossível.
Então vem. Qdo a fantasia rasga, o encontro não é com kaivalya/moksa/nirvana, mas o samadhi-sem-semente = o q não pode ser simbolizado: Neti Neti - nem isso, nem aquilo.
Aqui tiozão, o sujeito desliza para a melancolia muitas vezes, se identificando ao próprio vazio prod. pela queda das identificações. Mais fácil, enqto a angústia é o afeto do rasgo em seu maya ordenador da sua realidade = simboliza o Real/impossível; a melancolia (aquela sensação q tu é um b***a no mundo) pode ser uma solução (triste) subjetiva pra esse rasgo mayatico, pois vc (melancólico) passa se identificar ao próprio vazio q encontrou de fronte ao Real e passa a ocupar o lugar de resto.
O obj desse yogar, focado no desejo e criação/feiticeiros ou siddhizeiros e seus {atos yoguicos} e não na eliminação da falta e busca do pleno/moksa, não é eliminar maya e conduzir a um suposto contato puro com a realidade, mas permitir relação Outra com o desejo, sem q seja necessário se converter no objeto sacrificado dessa operação.
E vai meditar sobre Isso.
NÃO DESISTE OU ME ABANDONA POR PREGUIÇA!
***volta e lê de novo e analisa a capa do post 1x+.
11/06/2026
Shiva Smhita chega informando a tds q o universo inteiro cabe dentro do corpo humano.
Pense na ousadia dessa proposta escrita entre 1300-1500 dC.
Os rios sagrados, as montanhas, as divindades... a libertação estão no corpo.
Pq imaginar uma anatomia tão fantástica-metafórica?
Talvez pois o mundo já fosse excessivamente fragmentado com muitas escolas, mestres, rituais e promessas de salvação. A Śiva Saṃhitā parece tentar responder a essa dispersão com um gesto radical: reunir td (novamente?)
Ela faz uma operação alquímica trazendo o templo pra o organismo, a peregrinação pra respiração e o cosmos à fisiologia. É como se seus autores dissessem: o mundo está partido, reconstrua-o dentro de si.
Há tb um movimento político silencioso. Qdo o texto afirma q até um chefe de família pode praticar yoga e alcançar a libertação, ele desloca parte da autoridade religiosa dos sacerdotes aos comuns.
O acesso ao sagrado deixa de depender dos brâmanes, ascetas = especialistas do yoga e o corpo subalterno se transforma em lab.espiritual (de novo?).
Mas um desejo ainda+ profundo emerge, pois a tradição ali sempre dispôs uma escolha dramática diante do sujeito: ou o mundo, ou a libertação.
A Śiva Saṃhitā parece recusar essa alternativa, já q o absoluto, agora, pode ser carregado junto e a transcendência não exige abandonar a casa, mas reconstruí-la em outro lugar.
Do ponto de vista psicanalítico, a fantasia é poderosa. Shiva Samhita pode ter sido tb uma tentativa de responder à exp. humana da falta.
O q está perdido no exterior reaparece no interior? Não mais em falta, mas Pleno? O universo deixa de ser uma alteridade inalcançável e transforma-se em cartografia corpórea.
De novo um clichê: yogas não oferecem apenas exercícios, mas uma promessa. A promessa de q, apesar do caos, da fragmentação e da angústia, existe um lugar onde o mundo ainda pode voltar a ser inteiro. E esse lugar, sussurra a Śiva Saṃhitā, talvez sempre tenha sido o próprio corpo.
Cap I: existe um problema.
Cap II: a solução está dentro do corpo.
Cap III: aprenda a operar esse corpo.
Cap IV: transforme esse corpo.
Cap V: ultrapasse os obstáculos e faça do corpo o próprio lugar da libertação.
10/06/2026
Há uma fantasia muito difundida no yogaBR de q o problema tá no excesso d’desejos: “matar o ego”, “silenciar a mente”, “abandonar os apegos” e ouitros delírios deliciosos.
E se o q +nos aprisiona não for desejo, mas repetir.
Há qm mude de prof e encontram o mesmo mestre autoritário. Mudam de parceiro e reencontram a mesma dependência afetiva. Transitam de linhagem espiritual e seguem ocupando o mesmo lugar discipular = alguém q caiba nos seus sonhos.
A tradição chama isso de maya, ignorância, avidya ou encantamento/fetiche.
O encantamento/mayamento não está “no mundo”, mas na forma como organizamos a circulação pulsional do corpo.
Há uma tendência/vasana a fazer a vida girar em torno dos mesmos circuitos. Sofremos, reclamamos, prometemos mudar, mas retornamos ao mesmo ponto, como uma roda q encontra satisfação/gozo em seu próprio movimento = sintoma.
O sofrimento é uma ferida-morada onde subimos ao palco td dia.
Há as “cuidadoras”, o “abandonado”, o “buscador espiritual “, o “sensual”... Não é só trocar o objeto, saca? Troca-se Barueri pela Caxemira, análise por retiros, a fé em Deus por Isvara ou Durga... um guru por outro guri.
Mas a estrutura continua intacta. O corpo muda de posição, mas a fantasia/maya permanece a mesma = prana circula =
O consumo é um vício: pureza disfarçada de co***ne e subirusdoistiozin = um jeito novo de girar no velho.
Yogar algum elimina desejos, mas (pode) interromper automatismos sequestradores de vidas qdo não distraídos
Qdo yogar [q não é cuzão] ocorre, abre uma fissura nesse maya e algo curioso aparece: a energia/prana q antes sustentava td o circuito começa a circular de outros jeitos; e a yogue amadurecido já não precisa+ meditar pra provar evolução: pq essa poha nem existe - até o câncer evolui.
Yogues dançam criando vidas (suas) em queda livre e sem rede de segurança. Esse é o sentido +radical do yoga.
Não a construção de um eu espiritual +refinado ou a busca de essências escondidas, mas a coragem em desfazer feitiços q o obrigavam a viver sempre a mesma “vida de yogue”.
Pq há uma diferença profunda entre paz e paralisia. Volte a desejar yogue!
09/06/2026
Há yogues que desejam acordar do sonho, enqto esquisitos passam a sonhar diferente.
No vocabulário do yoga, maya costuma ser traduzido por ilusão, mas tb pode significar feitiço.
Viver em maya é estar capturado por uma narrativa sobre si e o mundo, acreditando q sua ficção é a única realidade possível. Por isso, o yogue sempre foi uma espécie de quebra-demandas alheias e de si, um (des)fazedor de encantamentos.
Meditar não seria apenas relaxar, mas suspender por um instante a voz do Eu, da mente e das identidades pra tocar aquilo q ainda não ganhou nome - mas qdo ganhar, some.
Aqui, há dois modos muito diferentes de atravessar essa experiência.
Há o yogue-sacerdote, q encontra em Purusa, o observador absoluto, um lugar de transcendência. Ele busca a pureza, a distância, a imunidade diante do mundo. Funda tradições, ortodoxias e igrejas. Seu ideal é não ser afetado.
E há o yogue-xamã/feiticeira. Este, não para na segunda margem do rio. Atravessa o próprio observador e mergulha de volta na vida.
Em vez de escapar do corpo, incorpora mais corpos. Não nega, viramundo, devora diferenças. Não procura um yoga universal, mas uma multiplicidade de yogares.
Enqto o yoga clerical pergunta qual é o verdadeiro caminho, o yogar da pajelança sabe q todo caminho é um ponto de vista inteiro. Nenhum precisa completar o outro.
A liberdade do yoga não está em abandonar o feitiço de maya, mas em criar contra-feitiços: giramundos.
Não em tornar-se um observador puro, mas aprender a dançar/brincar com aquilo que nos atravessa. Pq alguns fundam templos na segunda margem do rio. Poucos mergulham para encontrar a terceira.
Saravá swami Guimarães
08/06/2026
A leitura mais comum da Bhagavad Gita diz que Arjuna sofre pq esqueceu seu dever. Diante da guerra, ele hesita, vacila e deseja abandonar o campo de batalha.
Krishna então lhe revela uma ordem superior das coisas: existe um Dharma, uma lei cósmica, e sua tarefa é agir de acordo com ela, sem apego aos frutos da ação.
Mas e se Arjuna ousasse questionar ao invés de obedecer?
E se o problema de Arjuna não fosse ter esquecido seu dever, mas não saber mais o que deseja?
O yogue não nasce qdo as certezas falham? Qdo já não consegue simplesmente obedecer às leis da família, da religião, da tradição ou da sociedade?
Arjuna aparece exatamente nesse ponto. Pela primeira vez, ele não consegue ocupar automaticamente o lugar que lhe foi destinado = Sidarta Gautama ou tu boladona com o cristianismo queimando bruxas?
Krishna oferece uma solução poderosa: o universo possui uma ordem, e essa ordem pode orientar sua ação.
Mas qm garante essa ordem?
Será que existe um sentido último?
E se esse Dharma aí não é apenas mais um nome para aquilo q deseja de nós?
A ética não consiste em descobrir uma verdade cósmica sobre si mesmo, todavia, qdo percebemos q pode não existir nenhuma instância capaz de nos poupar da responsabilidade por nossos atos.
Ao invés de se indagar, “Qual é o meu Dharma?”, pq não: “Qual o meu desejo?”
Enqto a Gita, em tom religioso, sugere q existe uma ordem capaz de orientar definitivamente a ação humana, outros yogares podem insistir q nenhuma ordem elimina o risco, a falta e a responsabilidade de desejar. São yogues anti-moksa ou siddhizeiros.
A questão permanece aberta.
Krishna ajuda Arjuna a encontrar seu desejo singular ou a obedecer ao desejo de um guru-tradição-livro.sagrado que já sabe, de antemão, qual deve ser o lugar arjuniano no mundo?
É uma pergunta q atravessa não apenas a Bhagavad Gita, mas boa parte da história do yoga até hoje. Afinal, qdo alguém nos diz qm realmente somos, encontramos nossa liberdade ou apenas uma nova forma de obediência?
*yogues siddhizeiros ou anti-moksa são descritos no cap.3 do YS de Patanjali e tb como “aborígenes” por Mircea Eliade. São aqueles fora do dossel védico = feiticeiros, eróticas, loucos…
05/06/2026
J.Mallinson em seu artigo “Joining the Clubs: Continuities between Pāśupata and Nāth Asceticism”, investiga as relações entre os antigos ascetas pāśupatas e os yogues nāths.
Durante muito tempo, os Nāths foram vistos como tradição relativamente nova, surgida na Índia medieval e ligada ao desenvolvimento do HY. No entanto, ao analisar inscrições, iconografia, objetos rituais e linhagens ascéticas, ele mostra q a história é muito + complexa.
Os Nāths são “cria” da Índia e de seus símbolos, práticas e formas de orgs ascéticas q sobreviveram séculos, atravessando transformações religiosas e institucionais.
Mais simples, aquilo q hj chamamos de trad. nāth foi sendo construída pela incorporação de múltiplas heranças.
De novo, a hist do yoga nunca foi de pureza, mas transmissão.
Os Nāths não são ‘guardiões de uma tradição autêntica’, mas resultado de encontros entre diferentes correntes religiosas, filosóficas e ascéticas.
O yoga q chegou até nós nasceu de misturas, traduções e reinvenções sucessivas.
Por isso causa estranhamento observar o qto o yogaBR, especialmente sob influência de certas epistemologias do Norte Global, continua obcecado pela busca de uma origem pura: arianos brancos?
Como se a legitimidade de uma prática dependesse da proximidade com uma essência imaculada preservada em algum lugar da Índia.
Td tradição viva se transforma, absorve alteridades e se reinventa. Assim, o praticante/yogueBR q {faz yoga} carrega no seu corpo marcas do catolicismo popular, benzedeiras, curandeiros, pajelanças, caboclos, espiritismo, religiões afroBR e tb das tradições indianas.
Muitos tentam esconder essa mistura em nome de uma suposta fidelidade oriental, mas ela está lá. E se essa mistura não for um problema?
E se ela for precisamente o modo latino-americano de participar da hist do yoga tão próxima da misturada indiana?
Afinal, os Nāths não se tornaram Nāths preservando uma pureza imaginária. Se tornaram o q são transformando aquilo q receberam.
A questão não é se existe um yogaBR autêntico, talvez compreender o q emerge qdo corpos latino-americanos começam a yogar suas próprias histórias.
Yoga é arte de transmissão, q produz diferenças.