Yoga Contemporâneo

Yoga Contemporâneo Página de divulgação de assuntos científicos, filosóficos e espirituais do yoga contemporâneo.

Mestre e Doutor em Ciência da Religião pela PUC-SP, possui a sua graduação em Ed.Física e especialização em Psicologia, Fisiologia e Yoga. Após alguns anos estudando e praticando ioga lançou um livro em co-autoria sobre os aspectos neurofisiológicos e espirituais que envolvem o ioga e a sua mais conhecida prática, a meditação. Após alguns anos trabalhando como voluntário em grupo de estudos de psicobiologia da UNIFESP enveredou para as humanas e a filosofia, investigando por seis anos a religiosidade do ioga brasileiro. No seu mestrado pesquisou a íntima relação que o ioga contemporâneo vem estabelecendo com a ciência biomédica. Essa aproximação - ioga e biomedicina científica - transforma cada vez mais a prática espiritual ioguica mais como técnica terapêutica laica. O seu foco, no entanto, estava nas ressignificações que esse contato surtiu na doutrina do ioga contemporâneo e, em específico, no surgir das escrituras modernas. O doutorado veio na sequencia, a partir de um problema surgido ao final da sua dissertação. Se a doutrina moderna do ioga havia de ressignificado, qual o impacto disso na proposta antiga de libertação humana (kaivalya)? Desse modo, sai a campo investigando 10 iogues renomados no Brasil e mais 3 cientistas da área biomédica que investigam o ioga como técnica terapêutica. Entretanto, o grande mote da tese foi evidenciar que o flerte do ioga com a ciência moderna tem reformado os seus preceitos espirituais, como dos klesas em estresse, samadhi em relaxamento-espiritualizado e kaivalya em homestase-eterna. A repercussão dessa transformação em processo tem conduzido ao ioga contemporâneo desvincular-se do Hinduísmo e da mística Nova Era; como resultado, os iogues mais tradicionalistas reclamam um "retorno à tradição". Seu projeto em andamento (S)sendo Yoga Latino-Americano dá continuidade a essa investigação, agora se preparando para seu pós-doutoramento. Seu foco de investigação está no ioga contemporâneo com a sociedade latino-americana e suas interface como uma nova espiritualidade autônoma em processo. Mas o que ele gosta mesmo é estar com a sua família na ilha de Floripa ou viajando com ela, e dialogando com os seus alunos pelas cidades brasileiras e latino-americanas.

Outro dia fiquei pensando numa coisa meio incômoda.Tem gnt q está há anos fazendo yoga, meditando, lendo, fazendo terapi...
17/09/2026

Outro dia fiquei pensando numa coisa meio incômoda.

Tem gnt q está há anos fazendo yoga, meditando, lendo, fazendo terapia, formação, retiro, curso, estudando filosofia, descobrindo novos mestres e novas práticas. E continua sem saber muito bem o que fazer da própria vida.

A primeira reação costuma ser procurar mais alguma coisa.

Mais uma técnica.
Mais um livro.
Mais uma formação.
Mais uma explicação sobre quem somos e sobre o que deveríamos fazer com aquilo que somos.

É curioso, pq muitas vezes o problema não seja exatamente estar perdido, mas seguindo demais.

A gnt aprende muito cedo a procurar alguém q saiba: um professor, tradição, teoria, método, autoridade, algoritmo. E, qdo alguma coisa aperta por dentro, quase sempre aparece a tentação de perguntar: “qual é o caminho?” = me organize de fora por favor!

Só q existe uma pergunta anterior, e as vezes mais difícil: “o q estou fazendo com a minha própria vida?”

Não é uma pergunta q uma prática 2-3x/sem possa responder por nós.

Yoga pode oferecer uma linguagem. A meditação abrir um espaço. A filosofia deslocar algumas certezas. A psicoterapia pode colocar signos onde antes havia apenas sofrimento.

Mas nenhuma dessas coisas deveria nos poupar do trabalho de inventar uma direção, transformando sintoma em rota de fuga do q não se resolve e gira numa circuitaria de gozo e dor.

Talvez um percurso seja justamente isso, a travessia de um maya q nos organize e deixou de fazer sentido pois atravessado por outros afetos agora.

Não encontrar finalmente o caminho certo, mas recuperar, aos poucos, a capacidade de caminhar sem precisar q alguém esteja o tempo inteiro dizendo para onde ir = retomar o processo criativo da vida uma vez mais.

Tenho investigado bastante nisso ultimamente: um outro Percurso. Sem promessa de iluminação. Apenas um lugar pra pensar, junto, o q fazemos daquilo que fizeram de nós.

Qdo entrei no mestrado (2008), queria entender como o yogaBR havia incorporado a linguagem da biomedicina. Eu já conheci...
14/09/2026

Qdo entrei no mestrado (2008), queria entender como o yogaBR havia incorporado a linguagem da biomedicina. Eu já conhecia bastante daquele universo e encontrava por td parte a mesma espécie de tradução: chakras = glândulas endócrinas, prana = uma espécie de energia a ser “domada”, ida e pingala = SN simpático e parassimpático, meditação = reguladora do estresse e por aí vai.

Mas havia uma coisa que começou a me intrigar.

O yogaBR não havia chegado a um terreno vazio. Antes de muitos BR conhecerem a Índia, já existia certa familiaridade com a “espiritualidade oriental”. O espiritismo kardecista e o campo esotérico, já havia criado uma linguagem na qual karma, corpos sutis, energizações, reencarnação e terapêuticas espirituais podiam circular com relativa facilidade. Qdo o yoga apareceu aqui muita gnt já sabia, ao seu modo, do q aquilo deveria tratar.

No doutorado (2012-15), eu saí da biblioteca e fui conversar com os profs q, naquele momento, ocupavam posições importantes na formação de novos profs de yogaBR. Eram cerca de 10-12 pessoas, e minha intenção era entender como essa cultura estava sendo transmitida: o q esses profs ensinavam, consideravam verdadeiro, imaginavam o sofrimento humano e, acreditavam q o yoga “combatia”.

Minha pergunta: o q é o “mal do yoga”? Ou, o q faz a “mente f**ar turbulenta”? Eu esperava encontrar os velhos inimigos descritos pela tradição: apego, aversão, medo da morte, orgulho, ignorância = os klesas. Aquilo q mantém o sujeito preso à sua própria ilusão e alimenta o turbilhão da mente. Mas não foi isso que encontrei.

Em quase tds as entrevistas apareceu outro “vilão”: estresse. E foi aí q saquei q estava diante de uma cosmologia nova.

O estresse biológico não é um inimigo, mas uma resposta fundamental do organismo, necessária à sobrevivência. Mas o q eu encontrava no discurso yoguico era outra coisa: um “klesa moderno”, responsável pelo excesso de pensamentos, ansiedade, dispersão e sofrimento. Meditar, então, não era apenas uma maneira de conhecer a mente ou buscar a libertação, era uma maneira de baixar o estresse. Só q não o estresse da medicina, era o estresse do yogaBR. Foi dessa estranheza q nasceu o Yoga Malandro.

É bem comum ouvir alunos: “Estou praticando há meses, mas continuo ansioso. O q tô fazendo errado?”É nesse momento q dá ...
11/09/2026

É bem comum ouvir alunos: “Estou praticando há meses, mas continuo ansioso. O q tô fazendo errado?”

É nesse momento q dá para perceber de onde o prof está falando.

Existe o prof-Mestre: “Vc precisa confiar na prática. Continue. Faça isso tds os dias. Siga a disciplina.” Ele ocupa o lugar da autoridade. Existe uma verdade, um caminho e alguém q sabe.

Há tb o prof-Especialista: “Isso acontece pq seu sistema nervoso está hiperativado. Vamos trabalhar respiração, nervo vago, atenção, sono...” Aqui o poder vem do saber. Anatomia, neurociência, psicologia, filosofia, tradição. O prof não diz exatamente, mas explica. E a explicação pode produzir uma outra forma de obediência.

Existe ainda o Terapeuta q transforma a fala do outro em objeto de conhecimento: “Sua ansiedade está ligada ao seu trauma, padrão familiar, dificuldade de soltar o controle...” O outro chega com uma pergunta e sai com uma identidade. Agora ele “sabe qm é”, pq sofre e o q precisa trabalhar.

São posições diferentes, mas tds têm algo em comum: alguém ocupa o lugar de qm sabe e o outro é colocado diante desse saber.

Existe, porém, uma quarta posição. É aquela em q o prof/terapeuta não tenta preencher o buraco q apareceu na fala do outro: “Não sei. Vamos ver.” Não é incompetência, relativismo, nem abandonar conhecimento, técnica ou experiência.

É não usar o próprio saber pra impedir q o NOVO apareça - entende o q qro dizer aqui?

Nesse não-lugar, o prof não fabrica discípulos, o especialista não arrebanha pacientes obedientes e o terapeuta não se ocupa em transformar o outro numa interpretação ambulante.

A pergunta volta pra qm perguntou. E isso é muito mais difícil, pois transmitir yoga/meditação ou qq prática de cuidado tem menos a ver com oferecer respostas corretas e mais com saber qdo não responder… e escutar = mediar mundos sem garantias

Não é fácil perceber q conhecimento tb pode ser uma defesa; i.e., a gnt estuda tanto pra não ter q suportar o q não sabe. E talvez uma das formas + interessantes de yogar seja justamente esta: conseguir permanecer diante do outro sem precisar ocupar o lugar de guru, especialista, intérprete ou salvador.

Só então alguma coisa realmente pode começar.

E se a experiência de se sentir PLENO não signif**asse finalmente se tornar inteiro?Escrevi um ensaio a partir de uma pe...
10/09/2026

E se a experiência de se sentir PLENO não signif**asse finalmente se tornar inteiro?

Escrevi um ensaio a partir de uma pergunta q há tempos me acompanha: o q acontece qdo colocamos em relação o erotismo de Bataille, o Yoga, determinadas tradições tântricas e aquilo q a psicanálise nos ensinou sobre o desejo?

A questão não é encontrar uma técnica capaz de nos livrar da divisão, da falta, do desejo ou dos limites q constituem nossa experiência, mas investigar pq desejamos tanto ultrapassá-los.

No ensaio, passo por Bataille, Ta**ra, Yoga, meditação, transgressão, disciplina, desejo e pela estranha promessa contemporânea de q podemos nos tornar versões cada vez melhores de nós mesmos.

Mais simples: o q acontece qdo uma experiência q poderia colocar em questão a forma ordinária do sujeito é transformada em técnica para aperfeiçoá-lo?

Qdo o erotismo vira produto, a transgressão = método, a meditação = ferramenta de desempenho e o Yoga se transforma em tecnologia de autogerenciamento, alguma coisa aqui pode estar sendo perdida.

O rolê não é voltar a uma suposta pureza perdida do Yoga, Ta**ra ou Erótica. O q interessa é sustentar a tensão entre disciplina e excesso, ordem e transgressão, desejo e impossibilidade.

É sobre isso q escrevi em “A disciplina do impossível: erotismo, Ta**ra, Yoga e a experiência de não se sentir dividido”.

Se essa pergunta te interessa, o ensaio completo está nos stories de hj e no site yogacontemporaneo.com.

O nosso Gpo de Estudos acontece tds as quartas ao vivo pelo zoom as 16h, mas f**a gravado. Ele é um espaço pra pensar Yoga, meditação, filosofia, religião e psicanálise sem precisar transformar td em método, crença ou receita.

Yogar/Meditar (não se perde aqui agora) não é encontrar respostas pra deixar de ser dividido, todavia, aprender a pensar/sentir a partir dessa divisão.

Hoje, no Grupo de Estudos, continuamos nossa investigação sobre o erotismo a partir de Georges Bataille.Chegamos a um po...
09/09/2026

Hoje, no Grupo de Estudos, continuamos nossa investigação sobre o erotismo a partir de Georges Bataille.

Chegamos a um ponto em que falar de erotismo já não signif**a falar de s**o, desejo ou prazer. A questão começa a f**ar mais estranha e, para mim, mais interessante.

Encontramos o “erotismo dos corações”, ou seja, aquilo q acontece qdo o desejo pelo outro coloca em questão a nossa própria condição de indivíduo.

Sobre essa vontade impossível de atravessar a distância q existe entre nós e alguém q amamos.

E fomos um pouco além: entramos no “erotismo sagrado”, no sacrifício, na transgressão e na experiência de continuidade. Em outras palavras, qdo uma experiência rompe, ainda q por um instante, os limites através dos quais costumamos reconhecer a nós mesmos - é o q diz tio Bataille.

É uma discussão q toca diretamente a tds yogues/meditantes, especialmente aos q se interessam em pensar sobre estados de êxtase, dissolução do eu e experiências-limite.

Talvez a pergunta q tenha f**ado seja esta destes encontros: olum sujeito qdo experimenta aquilo q sua própria condição de sujeito separado não lhe permite possuir, sente o q sobre si-no-mundo?

Até agora foram encontros densos; não no sentido de difícil leitura, mas análise de si a partir do texto e ideias eróticas de Bataille. É muito bonita os jeitos de amar eroticamente aqui, um amar q vai além do coito e técnicas do prolongar do gozo - o q caminho é bem diferente pro autor.

Se esse assunto te interessa e tu gostaria de assistir ao encontro de hoje, escreva “EU QUERO” nos comentários ou me mande uma mensagem.

Um pouco antes das 16h eu envio, no privado, o link do rolê de hj para você. E sim, dará pra seguir o fio de boas.

Há muitos bruxo(a)s no Yoga. É comum ser pego desprevenido indo a um yogueterapeuta; aos poucos vc vai se dando conta de...
08/09/2026

Há muitos bruxo(a)s no Yoga. É comum ser pego desprevenido indo a um yogueterapeuta; aos poucos vc vai se dando conta de alguém operando num território estranho do corpo, da palavra, da crença e do q a gnt não sabe muito bem nomear começam a se misturar.

Para Rodney Stark, os feiticeiros ocupam um território peculiar na cultura. Diferentemente dos sacerdotes, eles não produzem discípulos, mas clientes. O feiticeiro(a) trabalha sozinho, sem igreja, comunidade de fiéis ou tradição institucional q o represente. Ele se articula em 3 serviços: cura/terapia, encantamentos/maldições e oráculos. E ele teme ser descoberto.

Faz sentido. O sacerdote é autorizado a falar pq existe uma instituição por trás; já os feiticeiro(s)s precisam q sua magia funcione, mas tb q ninguém saiba muito bem como como (nem ele, quase sempre entende). Por isso mudam a linguagem: feitiço vira técnica, encantamento método e sua magia se transforma em “energia”, “frequência”, “processo terapêutico”, “consciência corporal”.

Em “O feiticeiro e sua magia”, L.Strauss aproxima o trabalho do feiticeiro ao do psicanalista. Ele conta a história de Quesalid, um indígena q decide desmascarar os feiticeiros de sua aldeia; aprendendo suas técnicas, apontando impostores e, no fim, acaba ele mesmo ocupando o lugar de feiticeiro mais renomado da região. A ironia é irada: pra desmascarar a magia, ele vira um xamã.

Muitos profs de yoga (e tds os terapeutas integrativos) ocupam hj muito + o lugar do feiticeiro do q do sacerdote.

Feiticeiros são operadores experienciais, pois trabalham com o corpo, a atenção, a respiração e td aquilo q acontece antes q consigamos nomear em palavras. O sacerdote tem td organizado em seus livros sagrados e linha discipular. Não é ele q fala, mas sua tradição.

Já o cientista, ele nunca vence pq xamãs e padres dão respostas ao impossível.

E é justamente aí q o psicanalista encontra o feiticeiro. Ambos são os sabem q não sabem (e q ninguém sabe)’ pq há coisas q escapam a linguagem e precisa de diplomatas entre mundos, onde o bendito, o ma***to e o não-dito vivem sem moral, lei ou tempo. É neste entre-lugar q me interessa tanto na psicanálise, no yogar e a filosofia.

Há uma coisa curiosa em passar muitos anos estudando yoga: qto + se estuda/pratica, menos confortável f**a a palavra “yo...
04/09/2026

Há uma coisa curiosa em passar muitos anos estudando yoga: qto + se estuda/pratica, menos confortável f**a a palavra “yoga”.

É q um especialista em Hegel não se propõe a viver como ele, necessariamente, saca? Mais simples, dá pra ser prof de yoga e não ser yogue. Tmj até aqui?

No começo, ela parece designar uma coisa bastante clara. Existe uma tradição, textos antigos, mestres q transmitiram determinados ensinamentos e td um arsenal tecnológico q recebemos. Depois tu começa a viver yoga um pouco + e percebe q essa história é bem menos organizada do q parecia.

Aquilo q chamamos hoje de yoga foi sendo transformado por diferentes épocas, pessoas, culturas e interesses. Textos foram reinterpretados, práticas desapareceram e reapareceram, mestres criaram novas formas de ensinar e aquilo q chegou até nós não é simplesmente uma tradição preservada intacta desde a Índia antiga. É tb o resultado de inúmeras transmissões, escolhas, esquecimentos e invenções.

Isso deveria ser uma boa notícia. Mas, pra qm passou anos devotado a um yogar, se complica qdo entender q o seu “yoga verdadeiro”, é só +1. E isso um tanto desconcertante.

Pq, qdo a ideia de uma origem pura começa a desmoronar, resta uma pergunta + difícil: o q fazemos com aquilo q recebemos?

Na psicanálise, aprendemos q não somos simplesmente aquilo q recebemos de nossa história; há possibilidade de elaboração, deslocamento, fazer outra coisa com o q nos constituiu. Com uma tradição/cultura não é diferente.

Receber não signif**a necessariamente obedecer. E criticar não signif**a destruir. Ou seja, yogar pode ser aprender a habitar esse intervalo: entre aquilo q me foi transmitido e o q posso/preciso fazer com isso.

Foi qdo comecei a levar essa pergunta a sério q o yoga deixou de ser apenas um conj. de técnicas ou uma tradição q eu precisava habitar pra ser feliz, puro, harmonizado. Yogar se tornou tb um problema filosófico, histórico e, pq não, pessoal.

A questão + interessante nunca foi descobrir qual é o yoga verdadeiro, mas se ligar o q cada um de nós faz com o yogar q recebeu.

Yogar é aprender a viver a vida-vivida, sempre incerta, sem garantias ou metafísicas q desaprovem corpos encontrando corpos.

Sou contraditório. Vida acadêmica desencaixada (Cientista da Religião) q já começa estranha pela própria natureza: estud...
03/09/2026

Sou contraditório. Vida acadêmica desencaixada (Cientista da Religião) q já começa estranha pela própria natureza: estudar religião sem acreditar nela, mas sendo o seu objeto de estudo. Pesquiso yoga por +15 anos, especif**amente, yogues latino-americanos. Esquisito pracarai.

A minha tradição é “pai do yoga científico”. mas qdo comecei a apontar aproximações entre yoga e religião, seus gurus e sacerdotes conservadores, e a defender q yoga não tinha uma origem divina, recebi gentilmente: “aqui não”.

Entre meus colegas acadêmicos sou uma espécie de subespécie blogueira do caos. Aqui, entre alunos e seguidores, arrogante de fala empolada e indecifrável. Talvez os 2 estejam certos.

Meu orientador é um teólogo profundamente católico especialista num protestante admirado por Dawkins: se existisse uma escala mundial de ateísmo, Dawkins seria o zero absoluto.

Minha vizinha é astróloga védica q me avisa sempre não fazer nada importante na semana dos eclipses lunares e, recentemente, me informou q eu não sou taurino, mas escorpião e sei lá, tb ar**no.

Whatever, pois com irmão pai de santo, cunhada taróloga, pai ogã, mãe católica, tia kardecista e cavalo de preta-velha, avó macumbeira e amiga das benzedeiras do bairro, se encantar por psicanálise lendo O Anti-édipo nem é tão bizarro assim.

Phodace a lógica! Pratico yoga hj de uma tradição q seu último guru morreu aos 50 de ataque cardíaco por burnout. Breath in, breath out.

Minha clínica, gpos de estudos q organizo e projetos misturo yoga, psicanálise e filosofia se enriquecendo na contradição de saber que não sei, mas q ninguém com ctz sabe alguma coisa além de si-mesmo (e olhe lá).

Tb amei, desamei e sigo amando por qm não me deseja. Tenho tatuado no peito: “tudo passa”, mas meti uma nota de rodapé: ...”todavia deixam marcas”.

É sempre um problema qdo começamos a tenta fazer caber td numa identidade coerente, td traduzidinho, recheados de ABNT e num método com marca registrada.

Desde 1973 errando por aí sigo na reza pra q nunca consigam me enquadrar, seja um desenquadrado convicto, esquisito, estrangeiro de mim mesmo; permanecendo em movimento uniformemente variado entre lugares dos loucos e dos q amam.

Há uma experiência capaz de desorganizar até mesmo qm pratica yoga/meditação há anos: o apaixonamento.A prática nos ensi...
02/09/2026

Há uma experiência capaz de desorganizar até mesmo qm pratica yoga/meditação há anos: o apaixonamento.

A prática nos ensina sobre presença, impermanência e desapego. Mas então alguém entra em nossa vida, criamos expectativas, desejos e futuros imaginados; e qdo esta anuncia, descobrimos q compreender a impermanência não nos torna imunes à dor da ausência.

A Gītā começa diante de uma experiência semelhante. Arjuna está diante daqueles q ama e não consegue agir pq sabe q sua ação produzirá perdas.

O problema não é apenas a morte, mas o vínculo: aquilo q amamos se torna tb aquilo cuja ausência pode nos desorganizar.

Espinosa ajuda a pensar q um encontro pode aumentar nossa potência de existir. A vida se amplia pois alguém passou a fazer parte dela e por isso, qdo ele/a desaparece, não perdemos somente uma pessoa, uma maneira de existir q havia surgido naquele encontro.

Freud percebeu q o luto é justamente o trabalho de elaborar aquilo q foi investido no objeto perdido: desejos, lembranças, expectativas, fantasias e uma determinada imagem de nós mesmos.

É q não amamos o que o outro é, todavia o q supomos encontrar nele/a. É por isso q algumas perdas parecem maiores do q a própria relação.

Qdo alguém se desanuncia, ela leva consigo uma versão de nós. Yogar/meditar não transforma essa dor em algo a se superar, pois sentir falta não signif**a fracassar no desapego e nem chorar q a prática foi insuficiente.

A questão é outra: o q fazer com aquilo q o amor abriu em nós? O q nasceu desse amor q pode continuar existindo sem a presença daquela pessoa?

É aí que começa um {percurso}. Não como um método para eliminar o sofrimento, mas espaço pra pensar o q nos acontece e descobrir o q ainda pode ser criado a partir disso.

Blz, tu explicou e o q faço com a minha dor? Luta, passa vexame, resiste a perda… vive o luto. Ao menos assim, vc não se arrepende e sabe q fez de td pelo seu desejo.

Eu comecei a desconfiar do yogar original numa palestra sobre o meu próprio livro. Meu primeiro escrito foi sobre Neurob...
01/09/2026

Eu comecei a desconfiar do yogar original numa palestra sobre o meu próprio livro. Meu primeiro escrito foi sobre Neurobiologia da Meditação e eu falava sobre meditação, cérebro, estados de consciência até que um rapaz se levantou, indignado, e perguntou: “Qm tu pensa q é para questionar os gdes mestres antigos do yoga?”

E a verdade é q eu não sabia responder. Quem eu pensava que era? Sei lá, um nada caminhando num vazio dapoha indo pra lugar algum? É. E senti culpa (pra variar).

Eu estava questionando Patañjali a partir de uma questão simples: se o Ashtanga Yoga (yamas, niyamas, asana, pranayama, pratyahara, dharana, dhyana e samadhi) fosse realmente uma sequência linear, a neurofisiologia da atenção parecia dizer outra coisa.

Não parece q primeiro nos desligamos dos estímulos sensoriais (prathyahara) para depois se concentrar (dharana). Tu se concentra (foca a atenção num objeto/imagem) e justamente aí q outras infos sensoriais perdem força.

Foi aí que alguma coisa mudou em mim. Eu poderia ter continuado tentando descobrir se Patañjali estava certo ou errado, mas comecei a me interessar por outro rolê: “o q fez aquele menino se sentir tão ameaçado pela minha fala?” (algo q se repete até hj).

Entrei no mestrado e dps doutorado em Ciência da Religião na PUC-SP não para entender melhor Patañjali ou a neurobiologia do yoga, todavia o que estava acontecendo com aquele cara-yogue.

Quais crenças minha pergunta havia abalado? Qual maya estava sendo ameaçado? E o q precisava permanecer intacto pra q ele pudesse continuar de pé?

Hoje penso q talvez ele não estivesse defendendo Patañjali, mas a si mesmo.

O q vivi naquele dia me acompanha até hj: qdo uma crença q nos sustenta é colocada em questão, primeiro pode aparecer o medo. E, depois, o medo se transforma em ódio.

Foi assim que começou meu percurso, i.e., não em busca do yoga verdadeiro; mas compreender pq precisamos tanto q alguma coisa seja verdadeiramente infalível (metafísicas q nos organizam).

Cada um de nós “escolhe” um percurso a trilhar e, muitas vezes, nem sabemos o q nos move. Yoga não é caminho pra algum lugar, mas um farol q ilumina possibilidades de seguir ou só observar: estar à espreita.

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Florianópolis, SC

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