06/03/2024
Quanto mais se reprime a natureza, mais a femme fatale reaparece como um retorno do reprimido. Por séculos se reprimiu a sexualidade no Ocidente e na cultura judaico-cristã. Porém ela brota, mais vigorosa do que nunca. A sexualidade feminina é um domínio de contradição, ambivalência, do amor e do ódio, do criativo e do destrutivo. A natureza equipou a mulher com exaustiva minúcia e disse: “Vá e domine com esse poder”. Os arquétipos permanecem os mesmos, já dizia Jung. Mudamos muito pouco. Talvez apenas 1 fato tenha se modificado. As mulheres de culturas antigas se submetiam a retalhações e sofrimentos para obter valor perante a plateia masculina. Hoje as mulheres se esculpem e retalham para se exibir ás próprias mulheres. É um lesbianismo virtual. Os homens estão desfocados. É de “Mulher para Mulher”. Todas exalam o mesmo perfume da moda, usam as mesmas roupas e têm o mesmo hálito de cigarro light. Peitos iguais, bundas iguais, manias iguais. É o fast food da estética de massa. A beleza perdeu a individualidade - justamente o que temos de mais valor. O importante é entender que o poder sexual não vem da beleza estética, mas de algo muito mais profundo. As mulheres mais poderosas do mundo foram as cortesãs da Idade Média. Eram cultas e inteligentes. Podiam frequentar bibliotecas que eram fechadas ás damas. O estadista Pericles confia a política mais á sua amante do que a seus tenentes. A cortesã era a força da natureza num manto civilizado. Por isso a igreja as associou a feitiçaria e às condenou à morte.
(Malcolm Montgomery)