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PALAVRAS QUE SALVAM DISTÂNCIAS E CURAM FERIDASPor Juan Droguett«Minha esposa chora» é o filme escrito e dirigido por Ang...
10/08/2026

PALAVRAS QUE SALVAM DISTÂNCIAS E CURAM FERIDAS

Por Juan Droguett
«Minha esposa chora» é o filme escrito e dirigido por Angela Schanelec (2026), um drama e romance autoral marcado pelo minimalismo e pela contenção elíptica da cineasta alemã, reconhecida por ᴵO Caminho dos Sonhosᴵ, ᴵEu Estava em Casa, Mas...ᴵ e ᴵMusicᴵ. Enquanto o mundo se torna mais inquieto, suas produções adquirem maior rebeldia.
No meio do descanso de sua jornada de trabalho na construção, Thomas (Vladimir Vulevic) recebe uma chamada de sua mulher, Carla (Agathe Bonitzer), pedindo que vá buscá-la. Quando a encontra chorando, ela conta que acaba de sofrer um acidente de carro junto a David — um colega de dança com quem tinha f**ado após a decisão de Thomas de abandonar as aulas que frequentavam juntos —, que acabou falecendo no ato.
A primeira conversa do casal é filmada em um travelling lateral sem cortes enquanto caminham. Reflete-se o mal-estar de ambos os protagonistas, que será o motivo recorrente do filme. Por um lado, ela confessa seu recente interesse por outro homem e está abalada com sua morte; por outro, ele se vê diante de uma crise de confiança em relação à esposa, o que o faz reconsiderar muitas coisas sobre si mesmo.
Embora a interpretação típica de uma separação envolva expressões histriônicas e dolorosas, este quebra-cabeça gira em torno de silêncios prolongados e monólogos. O conceito de casamento aqui é reformulado, revelando dois indivíduos que, por um tempo, encontraram refúgio um no outro.
Detalhes do cotidiano preparam o terreno para revelações profundas e comoventes; não são diálogos em nenhum sentido ficcional construído. Os discursos parecem mais confissões sinceras, enquanto personagens hesitantes constroem delicadamente as bases até que o momento da verdade se torne inevitável.
Exploram-se o silêncio e os tempos vazios em uma encenação de paredes brancas, terrenos complexos em atrito com os espaços naturais de Berlim. Há também um certo indeterminismo temporal com a implicação das palavras — não só as relativas à conduta individual, mas também àquelas do contrato social do casamento.
Palavras ferem pelo mero fato de serem honestas. Porém, elas também podem salvar distâncias e curar feridas.

COMENTÁRIOS ESVAZIADOS DE SENTIDO, MAS NÃO DE PALAVRAS:
Schanelec tem uma perspectiva muito clara quanto à forma do cinema conceitual que lhe interessa. Recusa qualquer concessão ao gosto médio, no sentido de facilitar a experiência para seu espectador. Cada composição provoca pelo estranhamento de sua criação e pela ausência de finalidade, no sentido mais clássico do termo. Não existem conflitos propriamente ditos neste drama. Apesar de a esposa ter se envolvido em um acidente de carro, ela não se machucou, nem revela as circunstâncias precisas do ocorrido. De qualquer modo, o incidente se passou antes do início da trama.
Em imagens, testemunha-se o casal falando, os amigos de trabalho conversando ou dançando no fim da tarde. A experiência jamais se encaminha para um objetivo preciso, nem possui uma mensagem a transmitir. Não visa entreter o espectador no sentido de distraí-lo. Muito pelo contrário: demanda atenção para decifrar o que se está vendo.
Apesar de tamanha ruptura com a linguagem acadêmica, talvez isto seja o mais próximo que esta diretora já chegou de um filme de amor. Pode-se dizer, portanto, que se trata de um cinema de afronta e de recusa das convenções. Se o longa-metragem possui um grande interesse — não sendo exatamente um tema —, ele reside no ato retórico de proferir palavras esvaziadas de conteúdo evidente. Isso signif**a que o casal protagonista e seus amigos falam sem parar, embora nunca expressem uma demanda, reclamação ou confissão.
Falam por falar, pelo prazer de despejarem o que pensam a respeito do outro em um gesto automático, não controlado — um brainstorming ininterrupto, um fluxo de pensamento. E são escutados com atenção, apesar de girarem em falso. Jamais se conhece esses personagens herméticos, embora se passe muito tempo com eles. Manifestam-se a respeito de assuntos que, nos projetos tradicionais, nem sequer entrariam no roteiro ou, então, cairiam na mesa de montagem. Eles correspondem a arquétipos: o namorado, a namorada, a amiga, em vez de figuras dotadas de uma psicologia profunda, de um passado ou de um temperamento específico.
«Ontem eu falei que não conhecia nada da minha vida. Eu falei num tom que eu não conhecia», dispara a protagonista. «Eu não significo nada para mim mesma», acrescenta. Ora, o espectador não pode conhecer esses personagens a contento porque nem eles mesmos se conhecem. Um niilismo bastante cerebral e frio atravessa este cinema que, desta vez, br**ca de filtrar o sentimento amoroso por sua perspectiva nada afetiva.
O resultado é divertido enquanto quebra de expectativas, graças à estranheza e à artificialidade que constituem seu real objetivo. Pode ser libertador criar uma obra sem propósito, o que não signif**a ausência de pesquisa, de rigor nem de investigação acerca da linguagem. No entanto, Angela Schanelec parece buscar o próprio cinema, testando os limites do enquadramento, da expressividade do elenco e do manuseio do tempo, substituindo as habituais identif**ações e projeções por um jogo intelectual de provocações junto ao espectador.
«Minha esposa chora» é quiçá o filme mais humano de Schanelec, que olha para a sensibilidade contemporânea e para a necessidade de proximidade, logrando uma obra que emerge desse poder das palavras para tentar salvar distâncias, mas fundamentalmente para compartilhar os processos pessoais, a angústia e a dor.

• «Minha esposa chora», de Angela Schanelec, tem uma particular predileção pelo diálogo distanciado da câmera e pela errância dos rostos. Isso faz com que o habitual trabalho de interpretação bressoniana, que retém as emoções no interior do corpo dos atores, permita que as palavras carreguem a visceralidade das declarações, sem acentos dramáticos

Em «Minha esposa chora», a presença da cidade pós-moderna com seu movimento incessante — que segue a protagonista andando de bicicleta por toda a capital alemã — e sua arquitetura mostram também as brechas que se abrem entre o casal; porém, essas rachaduras procuram se fechar agora por meio das palavras.

Em «Por um cinema que fale para Os Tempos Modernos», Rohmer afirma que a palavra falada deveria ser tratada como uma maneira de ser, e não de revelar. No filme «Minha esposa chora», Angela Schanelec elabora seu próprio discurso sobre a linguagem — entendida como um portador incompleto dos estados emocionais na atualidade, mas, ao mesmo tempo, como um meio de comunicação entre os seres humanos

PERFORMANCE DO DESEJO NAS RESSONÂNCIAS DA MEMÓRIAPor Juan Droguett«O homem que amo» é o filme escrito e dirigido por Ira...
03/08/2026

PERFORMANCE DO DESEJO NAS RESSONÂNCIAS DA MEMÓRIA

Por Juan Droguett
«O homem que amo» é o filme escrito e dirigido por Ira Sachs (2026), um microdrama pessoal, peculiar e comovente. O cineasta judeu-americano tem um estilo que beira o realismo íntimo, centrado nas relações emocionais e na exploração detalhada dos afetos familiares e q***r. Foge ao melodrama artificial para retratar com crueza e empatia as complexidades do desejo.
A narrativa une-se à trilha sonora para acompanhar Jimmy (Rami Malek), um artista com HIV imerso nos ensaios de uma peça de teatro. Ele se vê dividido entre a relação estável com seu parceiro Dennis (Tom Sturridge) e a inesperada aparição de Vincent (Luther Ford), o jovem inglês recém-chegado à cidade que se muda para o andar de baixo.
Se o protagonista fosse uma estrela em ascensão, o longametragem talvez resultasse menos interessante. Ele parece mais aspirante a astro de Andy Warhol do que o típico boêmio com talento e vontade artística de se expressar. Quer criar uma performance pós-moderna e, para isso, recria um ensaio do filme: ᴵTerra de ilusõesᴵ, apresentando uma diva: Carmen, a quem assiste em videoclipes na TV, apreciando o modo como ela repreende seus músicos.
Tentando reproduzir essa performance caótica à medida que sua saúde e sua mente começam a se deteriorar, Melek o interpreta magistralmente: introspectivo, melancólico, dividido entre a liberdade e o vírus, entre o desejo de se tornar um artista de sucesso e a esperança de se mater fiel à sua essência subversiva.
Quando a sua irmã Brenda (Rebecca Hall) o visita, não existe tempo ruim nem julgamento, ao contrário do que acontece com seus pais, presos a preconceitos. Entretanto, quando se trata do amor romântico, a rede de apoio se mostra frágil. O discurso confessional sobre sua vida sexual é pura poesia erótica.
A cena mais surpreendente ocorre quando Jimmy George numa reunião em homenagem aos seus pais, senta-se ao lado de uma banda e interpreta o sucesso de Melanie: ᴵWhat Have They Done to My Song Maᴵ. Olha o que fizeram com a minha música, mãe.
É nesse momento que o espectador percebe o que o mundo fez com a música de Jimmy: parou de ouvi-la. Porém, na obra, essa canção ressoa como o lamento de um anjo.

COMENTÁRIOS DE UM PUB NOTURNO:

Ira Sachs volta a transitar neste longa-metragem pelo espaço-tempo habitual de sua filmografia. Após o recente ᴵUm dia com Peter Hujarᴵ (2025) — em que a Nova York e a efervescência artística dos anos setenta f**avam esboçadas entre as paredes de um apartamento e as palavras de uma entrevista —, Sachs também filma o universo de Jimmy a partir de seus encontros e olhares. Por meio de sua especial predileção pelos interiores (recantos de apartamentos, camas, locais noturnos ou camarins), o diretor explora a intimidade do seu protagonista.
Entretanto, o grande pilar do filme agora é a música. Por um lado, a popular: desde a versão do clássico ᴵThe Man I Loveᴵ, de Ira Gershwin, que dá título ao longa, ou ᴵLook What They've Done to My Song, Maᴵ, de Melanie, até os ensaios da performance e as festas repletas de amigos e familiares. Por outro lado, o ᴵStabat Materᴵ de Vivaldi, peça de música sacra composta para Nossa Senhora das Dores, surge repetidamente, ao ponto de se sobrepor ao som diegético de um toca-discos quando Vincent volta para casa após ser rejeitado por Jimmy em um bar.
Esta mistura entre o profano e o sagrado, articulada pelos movimentos de câmera e pelo som, poderia sugerir uma carga religiosa atravessando a experiência homossexual. Porém, não é o que acontece no cinema de Sachs: não existe a condenação explícita da religião. A inclusão do fragmento barroco parece servir — assim como o ᴵRequiemᴵ de Mozart inundava os primeiros planos de Ben Whishaw nos interlúdios de ᴵPeter Hujarᴵ — para introduzir no longa-metragem um tom melancólico que embeleza ainda mais a humanidade da proposta. É a música que narra de ponta a ponta, que atrai para o enquadramento e perfila emocionalmente o seu protagonista. Dois travellings espetaculares em cenas consecutivas sintetizam o mundo interior de Jimmy, que se move entre a fragilidade, o desejo, a morte e a busca por amparo no outro.
Um primeiro movimento distancia brevemente a câmera enquanto a sua irmã canta a canção irlandesa ᴵHow Are Things in Glocca Morraᴵ, do musical ᴵFinian's Rainbowᴵ (O Caminho do Arco-Íris), em um plano que se ajusta progressivamente para convidar todos os presentes a participar do coro ao redor da mesa. Nas sequências seguintes, no pub noturno, é Jimmy quem canta ao microfone; após um contraplano mostrar o público, a câmera volta a ele e se aproxima pouco a pouco, isolando-o no palco. Sachs varia nos enquadramentos com os quais retrata a profunda solidão, inclusive nos planos conjuntos — recurso ao qual retorna reiteradas vezes para abordar a crise coletiva ligada à doença, ao mesmo tempo em que individualiza a experiência de seu personagem no meio da multidão: seja na balada, no ensaio ou no bar.
Sutilezas pautam esta obra sem se comprazer nas consequências finais. A câmera registra com pausa corpos e olhares, enquanto entrelaça conversas e cenas musicais para esboçar um complexo retrato emocional que se cristaliza em um momento especialmente delicado. Flagra-se a vontade de reconciliação sem recorrer ao sentimentalismo barato. O diretor continua a buscar em Nova York, cada vez mais devagar e com precisão, uma sorte de memória emocional do seu passado, acrescentando um novo capítulo a um universo cinematográfico pessoal e profundamente entregue à arte de filmar a intimidade.

• «O homem que amo», de Ira Sachs, traz Rami Malek no papel de um artista performático com HIV. Ambientado em Nova York no final da década de oitenta, o filme é surpreendentemente preciso e atento ao momento atual. Possui um formato belamente orgânico, montado cena a cena com uma aleatoriedade realista e desconcertante. Sachs não quer rodagens perfeitas: prefere fluidez, espontaneidade e uma leveza peculiar

«O homem que amo», de Ira Sachs, é um retrato poético, profundo e paciente de um artista feito de memórias pelas quais continua a dançar, a amar e viver, mesmo com a morte sempre presente. Sachs preenche uma única vida completamente com prazeres intensos, criatividade revigorante, convívio alegre, exploração apaixonada e a consciência que em breve tudo vai acabar

CENA DE TERROR ROMÂNTICA: ENTRE O ACOSSO E A DEVOÇÃOPor Juan Droguett«Obsession» é um filme escrito e dirigido por Curry...
27/07/2026

CENA DE TERROR ROMÂNTICA: ENTRE O ACOSSO E A DEVOÇÃO

Por Juan Droguett
«Obsession» é um filme escrito e dirigido por Curry Barker (2025), que estreia este seu primeiro longametragem de terror. Causando grande impacto naquilo que é essencial do gênero: ritmo e montagem. Ele se fez conhecido inicialmente pelo YouTube junto a seu amigo Cooper Tomlinson no canal de comédia Thatᴵs a Bad Idea, o curtametragem ᴵThe Chairᴵ e o documentário ᴵMilk&Serialᴵ. Inspirado no episódio ᴵA casa da árvore dos horrores IIᴵ de Os Simpson.
A trama segue Bear (Michael Johnston), um jovem profundamente apaixonado por sua amiga de infância, Nikki (Inde Navarrette). Diante da incapacidade de declarar seus sentimentos a ela, decide recorrer a um misteriosos objeto sobrenatural para conseguir satisfazer a sua demanda de amor.
Este horror romântico misturado à comédia negra e ambientada numa atmosfera truculenta faz uso de jump-scares, técnica audiovisual usada em jogos terror que provoca sustos imediatos. Que o terror esteja vivendo hoje um dos seus momento mais doces de bilheteria é algo sintomático. Encaixa na premissa surpreendente do longametragem: uma relação forçada na qual corpo e vontade parecem divergentes diante do egoísmo autoritário de um lado e a submissão cega do outro em cenas sobrenaturais de contorções demoníacas.
Brevidade e baixo orçamento no comando do jovem diretor levam o espectador a um terreno realista bem mais incômodo, sendo uma metáfora das relações tóxicas ligadas à submissão, a dependência e o consentimento. Assim, o enunciado que define origem e destino da trama é claro desde as primeiras cenas em que o protagonista ensaia sua declaração de amor.
E o encanto funciona até esbarrar na forçação: muito de retorcido, enfermiço e violento no fato de que a vontade da protagonista fique completamente anulada pelo feitiço provocado por Bear.
Neste eixo mais profundo, de acosso e devoção seguem os protagonistas o ritmo das expectativas, subvertidas pelo tempo, morte e sobrevivência. Retardando sempre o impacto do desejo adiado, um segundo além do esperado e soltando-o, quando a cena parecia ter voltado normal, o Real se impõe transformando o desejo em repulsa e o excesso visceral num final perfeito.

COMENTÁRIOS DO SALGUEIRO DOS DESEJO:

Considerado entre os jovens o grande sucesso do ano, «Obsessão» desafia os moldes tradicionais da indústria cinematográf**a de um modo geral a toque de ideias, frescor e coragem. Com uma obra de culto que fala das relações tóxicas por meio de uma iconoclasta revisitação do gênero de terror, ancorado no subgênero dos desejos malditos. Jovens talentos surgidos das redes sociais têm conseguido subverter o panorama fílmico do entretenimento imediato com uma proposta de baixo orçamento que esbanjam criatividade.
Parece que as novas gerações estão saturadas de produtos pré-fabricados, da enésima nova parte da franquia infinita cujas fórmulas esgotaram o espírito inquieto dos futuros espectadores. Por isso, buscar algo diferente que conecte com suas necessidades audiovisuais e, por que não? Com seus anseios cotidianos, resulta ser a melhor das demanda. É dizer adeus ao terror elevado do gênero tradicional e dar as boas-vindas aos medos que surgem na sociedade em caos e que refletem sobre o tempo atual a golpe de ironia e com uma dose carregada de mau-humor.
Sendo assim, o desejo amoroso insatisfeito casa à perfeição com a ᴵdoutrina incelᴵ, aquela dos homens oprimidos por estruturas sociais e ideológicas controladas por mulheres, converte-se na espiral de opressão que por meio do feitiço fetichista escancara a fantasia masculina mais perversa.
Desta forma, Barker orquestra uma intriga absorvente tanto jovial quanto arrepiante em volta das relações tóxicas, a violência sexual, a perda de identidade por meio do engano e o amor invasivo, que gera um apego asfixiante e perturbador a modo de maldição demoníaca.
Que o filme seja de baixo orçamento não é algo de pouca importância para esta crítica, muito pelo contrário, fala do talento do diretor que, por um lado, exprime os mínimos recursos dos quais dispõe através de soluções visuais básicas, porém ef**azes, como ocultar à protagonista na escuridão do enquadramento, trabalhar com o brilho dos olhos, alterar elementos do decorado para intensif**ar a inquietação; o uso do plano fechado ou a evolução do figurino e a voz de Nikki que vai em paralelo a seu progressivo deterioro de sua saúde mental.
Da comédia romântica ao terror insano, entre o acosso e a devoção, passando pelo humor negro e a incomodidade constante que culmina num último ato no qual emerge o gore e a asfixia tanto atmosférica quanto moral. Obsessão tem tudo para se converter num filme de culto imediato, não só pelo consenso e a conversa que tem gerado entre o público, mas porque é ao mesmo tempo inteligente e baderneiro, contém a dose perfeita de atrevimento e muita paixão pelo gênero.
O filme passa da comédia incômoda para o terror psicológico e daí ao thriller violento sem que as transições resultem forçadas. Inclusive em seus momentos mais extremos, nunca perde do todo o registro da sátira sobre certos vínculos contemporâneos atravessados pela idealização romântica.
Curry Barker vai além na sua produção, serve-se do argumento para demonstrar algo tão à mão do machismo, o patriarcado ou, já que foi dito, o célebre amor romântico de repente flutuando na magia das redes e lugares afins.


• «Obsessão» do youtuber Curry Barker é um filme de terror fascinante, imprevisível e avassalador. Trata de um homem que rouba a alma de uma mulher e a transforma numa réplica psicótica de si mesma. Ambos os obsessos não tem escolha, precisam aceitar o fracasso e reconhecer suas fraquezas mais íntimas. Admitindo o segredo incerto do destino, abandonando-se à certeza esmagadora do desconhecido, daquilo que os faz sofrer. Barker sabe disso, que o cinema de terror leva tempo dedicado a explicar a clareza dos abismos, e que a obsessão o tem escolhido
Em «Obsessão» de Curry Barker convém ter cuidado com o que se deseja porque claro, pode se fazer realidade. Isto não só fala do perigo que fecha se concentrar numa meta sem levar em conta os sacrifícios pelo caminho, porém que alerta contra assuntos sempre puníveis do moralismo ranço como o prazer excessivo, a ausência de esforço ou a ambição desmedida
ᴵCuidado com o que você deseja, pois pode acabar se tornando realidadeᴵ. Esta frase, atribuida a Oscar Wilde embala o intuito do filme «Obsessão» de Curry Barker, advirtindo a respeito de que por trás de cada desejo pode estar escondida uma fantasia impossível. Esta premissa é levada ao extremo pelo terror que convive com a comédia e o feitiço amoroso que deriva lentamente para um território doentio, marcado pela paranoia, manipulação e a perda total da racionalidade

MITO ETERNO DO ESTILO ÉPICO DE CHRISTOPHER NOLAN Por Juan Droguett«A Odisseia» é a recente produção de Christopher Nolan...
21/07/2026

MITO ETERNO DO ESTILO ÉPICO DE CHRISTOPHER NOLAN

Por Juan Droguett
«A Odisseia» é a recente produção de Christopher Nolan (2026), um épico de aventuras escrito e dirigido pelo cineasta britânico cuja profícua filmografia é a mais eloquente no âmbito cinematográfico atual. Após a guerra de T***a, Odisseu empreende o perigoso retorno a Ítaca. Durante a travessia enfrenta monstros, deuses, tentações e naufrágios, enquanto sua família resiste às ameaças dos pretendentes ávidos à usurpação. Desejo e astúcia encarnam-se num protagonismo digno do próprio rapsoda na transposição audiovisual.
Surpreende a resolução de colocar sobre a mesa a tese do texto fundacional que, certamente choca a banalizada a crítica dos Polifemos de plantão. Em esse ir e vir da epopeia, Nolan desfruta da rejeição estrutural do clássico, quando acerta e erra; e por que não? E, com a mesma graça, encontra soluções brilhantes que fazem o espectador mergulhar nos entuertos e lições do personagem herói, interpretado por Matt Damon.
A imensidade do eterno se encontra na Mise-en-Scène, a partir da qual Nolan e a fotografia de Hoyte van Hoytema oferecem uma nova oportunidade de g***r de um arquétipo puro na tela. Com o brilho providencial do reparto: Anne Hathaway, Lupita Nyongᴵo, Robert Pattinson, Zendaya e Samantha Morton como guia, convém a eles serem gratos por estarem envolvidos nesta monumental saga.
Destaca-se aqui o êxtase criador de um contador de histórias que ganha impulso no prazer de narrar. Por isso, era inevitável que um dia se encontrasse cara a cara com Homero, o primeiro grande contador de histórias da literatura ocidental.
Christopher Nolan é, quiçá, o único diretor da atualidade que pode fazer as coisas do seu jeito porque seu estilo é avassalador, sua imaginação interminável e seu domínio de câmera irrefutável. Depois de demonstrar que pode fazer um filme como este e sair exultante, já não existe nenhum limite para ele. Sua ᴵOdisseiaᴵ é antes de mais nada, um fascinante exercício narrativo de quase três horas, sem perder um ápice de pulso nem tensão, mostrando magnitude e colossalismo.
Esta obra-prima consegue o inusual: conciliar o cinema de autor com o cinema comercial, embalado no encanto do amor pela Sétima Arte.

COMENTÁRIOS DA CAVERNA DO POLIFEMO:

Em lugar de se fechar em sets virtuais ou platôs hipertecnif**ados sob a desculpa de que suas ideias são maiores que o mundo, Christopher Nolan sai ao mundo para convertê-lo no cenário dos seus ideais. Para isso, o orçamento ajuda nas diversas localizações: Marrocos, Itália, Grécia e Islândia. Assim, do mesmo modo que Odisseu, o diretor de ᴵInterestelarᴵ sabe que se faz caminho ao navegar. É isso o que a adaptação da obra propõe: uma viagem cuja meta e desenlace ― conhecidos por todos ― são menos importantes que cada porto onde atraca o corajoso protagonista.
Trata-se de desfrutar dessas paradas, que Nolan concebe como narrações autônomas se bem costuradas no fio temporal, os flashbacks que mediam entre o retorno de Odisseu e os desvelos de Penélope (Anne Hathaway) e Telémaco (Tom Holland) em Ítaca.
Utiliza-se portanto a estrutura da Grécia antiga para explorar culpa, memória e o custo da guerra na travessia, sendo as cenas mais importantes: a queda de T***a e o cavalo na areia, centrada nos estragos psicológicos do conflito; o enfrentamento na caverna com o ciclope Polifemo (Bill Irwin) e com múltiplas criaturas míticas (lestrigões, gigantes carnívoros) que habitam atmosferas escuras e aparições fantasmagóricas do passado que atormentam o protagonista; o embate com divindades como Ateneia (Zendaya), Circe (Samantha Morton) e Calipso (Charlize Theron), esta última deusa que o mantém prisioneiro, intercalando cenas da espera de Penelope, tecendo e lidando com seus pretendentes em busca do trono; e o reencontro e desenlace, clímax que se afasta da obra original: o regresso a casa transformado em despedida, a forma plausível de sarar a culpa.
Nolan tem sido capaz de acrescentar uma terceira dimensão a esta experiência estético-narrativa do tempo, tal é a materialização dos sons e das imagens originais, de grande força icônica e pregnância sensorial, de um mundo mítico que muitos seguem associando à criatividade de ilusões lúbrico-estéticas. A equipe técnico-artística do longa-metragem tem conseguido, por fim, atualizar e colocar o imaginário grego à altura da Roma imperial, muito mais frequentado pelo cinema épico da Hollywood de outrora.
E o tem feito com a mistura de realismo sujo e fantasia onírica que, por um lado, justif**a e desculpa todo e qualquer erro histórico ― patifaria, porque se está no terreno dos mitos ― e, por outro lado, situa o filme num fascinante território: um limiar entre a épica, o terror e a aventura clássica do retorno. Nolan extrai de todos estes episódios dois elementos nucleares que convertem a obra numa narrativa universal, capaz de conectar o mundo de Homero com os dias de hoje e com o futuro, evidenciando a inutilidade da guerra e a solidão como destino final dos deuses sumidos em ideias e os seres humanos, perdidos nas suas paixões.
Tais considerações resultam no fim das contas muito mais interessantes que as possíveis leituras políticas derivadas, principalmente, do personagem de Antínoo (Robert Pattison), o líder violento e sem escrúpulos que almejava Penélope. Não é difícil estabelecer paralelismos entre a decadência de Ítaca e o que acontece em alguns países a mercê de mercadores que aproveitam a ausência ou a inércia de homens e mulheres com princípios solidários.
«A Odisseia» de Christopher Nolan é a demonstração de que ainda é possível realizar um espetáculo épico colossal sem renunciar às boas ideias, à literatura, à tragédia clássica e à avidez do espectador da materialização de um sonho.
• «A Odisseia» de Christopher Nolan é a materialização de um sonho da humanidade. Que mesmo sendo um tanto quanto naif, mais platônico que aristotélico, por isso mesmo artisticamente admirável, reforça o sentido comunitário em detrimento de um mundo ferozmente individualista. Voltar a vista à Grécia clássica para quem não consiga enxergar, não esteja de acordo ou prefira obviar esta mensagem, f**a o monumento para aquilo que o cinema foi em algum momento do passado: a possibilidade de outra vida na procura de um sonho verdadeiro

O mais inteligente de Christopher Nolan não está na adaptação de «A Odisseia». Está em compreender que a história do protagonista, Odisseu, sempre foi um filme de ação esperando um diretor épico como ele. Desde a sequência inicial com o cavalo de T***a que logo se vai desenvolvendo em flashbacks, episódio que nem sequer pertence à Ilíada ou à própria Odisseia, porém escrito séculos depois por Virgílio em A Eneida, o cineasta estabelece qual será seu verdadeiro interesse: não é a glória da guerra, mas o preço que pagam aqueles que sobrevivem a ela

Poucas vezes Hollywood se atreve a olhar para atrás para descobrir que o futuro já estava escrito. O novo longa-metragem de Christopher Nolan, «A Odisseia» adapta um dos textos fundacionais da literatura ocidental, o segundo poema atribuído a Homero e o faz sem convertê-lo em peça de museu. O cineasta compreende que mitos sobrevivem porque mudam de pele com cada época. Sua Odisseia é um babado de monstros, um relato de horror, uma aventura marítima e, por momentos um thriller de vingança. Que parece responder à ideia de que a guerra deixa de ser estratégia para se converter em devastação. T***a não cai como triunfo militar. Cai como uma cidade onde morrem inocentes, desaparecem famílias e onde a vitória se parece demais à derrota

PSICODRAMA PERTURBADOR DE UMA ESTILISTAPor Juan Droguett «As Correntes» é o filme da cineasta suíço-argentina Milagros M...
14/07/2026

PSICODRAMA PERTURBADOR DE UMA ESTILISTA

Por Juan Droguett
«As Correntes» é o filme da cineasta suíço-argentina Milagros Mumenthaler (2025), drama afetivo e psicológico que oferece uma reflexão existencial e uma mise-em-scène de enorme riqueza visual, pois retrata o desabamento silencioso de uma mulher que deixa de reconhecer a sua própria vida. Na produção revela-se a extraordinária capacidade da cineasta para explorar os territórios mais íntimos da experiência humana. É conhecida por ᴵAbrir portas e janelasᴵ, ᴵA ideia de um lagoᴵ, e os curtas: ᴵAmancayᴵ e ᴵMinuetᴵ.
O relato segue Lina (Isabel Aimé González Sola) que apesar do êxito profissional, sente grande vazio existencial e não encaixa com o universo que a rodeia. Ela questiona sua vida e os modelos de sucesso socialmente estabelecidos. Esta história não dá respostas fáceis, o espectador progride na sensação de confusão, incômodo e grande desassossego. É um longa-metragem atmosférico, quase hipnótico, mostra a separação entre o que o corpo faz e o que a mente ordena.
A partir do salto inicial rodado num plano geral, frio quase imperceptível, a não ser pelo sobretudo azul-turquesa da saltadora, que se atira numa movimentada ponte de pedestres da Genebra invernal. Cai como um alfinete luminoso nas aguas geladas do Ródano. A talentosa estilista argentina está na cidade para receber um prêmio que não signif**a nada para ela. Neste estudo de personagem leve e elíptico, ela é vista atirando o objeto de vidro no lixo e sair fortuitamente da cerimônia para andar de um lado a outro nas ruas, antes da tentativa de suicídio num movimento tão súbito e fluído que questiona se isto não passa de um capricho passageiro.
Não se vê Lina sendo resgatada da água, apenas a cena entrando no saguão do hotel de luxo envolta num cobertor térmico de emergência. E quando retorna a seu apartamentos em Buenos Aires, no qual seu bem-sucedido marido Pedro (Esteban Bigliardi) e sua adorável filha Sofia (Emma Fayo Duarte), a esperam.
É como se o incidente nunca tivesse acontecido, exceto por uma consequência crucial. Fascinante e complexo retrato feminino que se desloca no espectro tonal e estilístico na arte da introspecção, elevada construção meticulosa de textura sedosa.

COMENTÁRIOS HÍDRICOS DO EPÍLOGO EM VITRINE:

A cena inaugural do filme é paradigmática na obra de Mumenthaler. Abre com um primeiro plano da protagonista: enquanto ela olha pela janela de um grande edifício da Suíça, a câmera congela sua expressividade silenciosa desde o exterior. Reflexos da cidade superpõem-se no rosto da atriz e este, por sua vez, se vê esfumado pelo cristal que o separa da rua. Cidade e corpo, grandes blocos de concreto e cristal, e os humanos que os habitam. Estatismo violento, impenetrável num movimento anêmico e automático: este é o confronto dialético que congestiona a imagem de abertura da fita que define a caligrafia da cineasta. Que indaga na alienação de sua personagem.
«As Correntes» é uma produção sobre identidade fraturada e a agonia que isto provoca. ᴵO gesto romântico surge no vazio que separa o anseio e a frustraçãoᴵ, afirma o roteiro. Revelador demais no contexto da crise de Lina. A incapacidade de formular a frustração pela impossibilidade do Real do próprio desejo. Essa incapacidade para entender, primeiro, e verbalizar, depois, a origem e o mecanismo de frustração se concretizam no silêncio que vira tanto mais agônico quanto mais se alonga no tempo.
É incomunicação o tema abordado no longa-metragem? Claro que não, uma vez que se trata do epílogo gerado por uma fratura original. O problema também não são os limites imaginários da linguagem que supostamente impede expressar com precisão ideias ou emoções complexas, porém isto tem a ver com a dificuldade de tomar consciência de uma situação concreta, de reconhecê-la e assumir sua existência. A protagonista não consegue formular a dor que a oprime porque não a identif**a: não sabe da fratura nem do vazio provocado por um desejo irrealizado. Só sabe que algo está errado, configurando a dúvida e a ansiedade, evidenciando a existência de um problema.
O impulso incontrolável da protagonista no início do filme termina literalmente desaguando, na fobia à água que a impede não só se duchar, mas também abrir a to****ra e escutar o som que esta produz. No retorno a Buenos Aires, a crise interna começa a alterar sua relação com o marido, filha e amigas. Neste sentido, a diretora articula sua encenação em torno à concepção fragmentária dos espaços, corpos e pontos de vista.
A ausência da música em grande parte do longa enfatiza o silêncio nas interações da protagonista com as pessoas do seu meio, e os planos fechados convertem as imagens em projeções mudas de uma fantasia perpetua. Seu olhar se perde em detalhes do cotidiano para se deslocar a um território imaginário de frustração. Contudo, Lina não é a única que projeta suas fantasias sobre a realidade. De fato, uma das causas da frustração reside em se negar a servir de pretexto para a fantasia dos outros.
Quando Pedro observa sua mulher, se introduz o plano detalhe na parte do corpo que está olhando: fragmenta seu corpo da mesma forma e pelo mesmo motivo que fragmenta o salão ou a rua. Para mostrar a imagem objetivada e projetada dele. Isto demostra, como as relações íntimas não são mais do que exercícios de vampirismo nos quais o esposo utiliza o corpo de Lina para satisfazer a imagem idealizada que de verdade o excita. A própria protagonista é consciente da objetivação que todos fazem dela: ᴵde pequena todo mundo falava que era uma bonecaᴵ, afirma no final do filme.
Enfim, a idealização de uma existência organizada em volta do capital é essa objetivação e sublimação da realidade, cuja irrealização tanto frustra à protagonista provocando-lhe dor, agora ela precisa reintroduzir o afeto nas relações articuladas em torno ao desejo de possessão.

● «As Correntes» da cineasta suíço-argentina Milagros Mumenthaler aposta em um estilo corajoso e sacrif**a qualquer concessão comercial a favor do relato profundamente introspectivo. A diretora renuncia deliberadamente a qualquer abordagem complacente com o espectador ou com a bilheteria, o resultado é uma obra precisa, a partir de cada enquadramento e cada plano estudado até o aperfeiçoamento quase kubrickiano

Em «As Correntes» de Milagros Mumenthaler, fobias, traumas e uma intensa autorreflexão dissociativa emergem da tentativa impulsiva de suicídio de uma estilista. Ora fascinante, ora alienante, a protagonista é uma renomada estilista de moda que parece ter tudo: uma carreira de sucesso e uma família amorosa e perfeita. Entretanto, após receber um prêmio na Suíça, ela se atira de uma ponte, f**ando em estado de choque após sair da água. Sentimentos persistentes e inquietantes a acompanham no seu retorno a Buenos Aires, passando por uma espécie de renascimento a partir do qual precisa se reinventar

«As Correntes» é um filme elegante e exigente, dirigido por Milagros Mumenthaler. Possui a virtude de transformar uma crise de identidade em uma experiência cinematográf**a de enorme riqueza sensorial, mergulhando na mente de sua protagonista, uma mulher bem-sucedida que ensina que vidas aparentemente perfeitas escondem fluxos invisíveis capazes de mudar tudo em prol da verdade revelada pelo próprio desejo

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