04/06/2026
Corpus Christi: o que está por debaixo do tapete.
Cesar Nunes
Gosto de lembrar das festas de Corpus Christi. Quando seminarista - já vão longe as lembranças - era uma festa memorável, esperada com ansiedade e com muita alegria, pois como acólitos (coroinhas ou ajudantes), ou agentes de pastoral nas paróquias da diocese, tínhamos a obrigação de ficar desde a quarta-feira, nas cidades nas quais atuávamos, para ajudar a preparar o tapete de serragens coloridas que enfeitavam as ruas para dar passagem ao Santíssimo no dia de Corpus Christi. Pude ajudar nessa confecção e nessa liturgia popular em cidades que marcaram minha formação, como Ibaté SP, Itirapina SP e Matão SP, um dos lugares mais famosos desse evento religioso e hoje turístico-religioso. Dessa lembrança permanecem as saudades e a admiração pelo envolvimento popular nessa festa litúrgica.
Sou cristão, de inspiração católica, e guardo com afetiva serenidade essa minha experiência formativa e humanizadora, com todas as contradições que a prática social e, notadamente a prática social religiosa, sempre carrega e congrega. Vamos começar pelo Papa Urbano IV, que criou oficialmente a festa de Corpus Christi. É fascinante como um papa que governou por apenas três anos (1261–1264) tenha deixado marcas tão profundas, moldando a geopolítica europeia e a liturgia católica até os dias de hoje. O Papa Urbano IV teve um dos menores pontificados da Igreja, mas sua atuação mudou radicalmente a geopolítica, a teologia e os encaminhamentos históricos da Idade Média. Urbano IV era Jacques Pantaléon, um clérigo francês de origem humilde (filho de um sapateiro) que havia subido na hierarquia da Igreja por puro mérito intelectual e diplomático. Na época de sua eleição, ele ocupava o cargo de Patriarca Latino de Jerusalém e estava na Itália justamente para pedir ajuda militar para a Terra Santa. Ao ser escolhido, ele se tornou o primeiro papa da história eleita sem ser cardeal (um feito raríssimo que só se repetiria com mais cinco pontífices depois dele, como Gregório X e Urbano VI).
A relação de Urbano IV com a festa de Corpus Christi é o ponto central do seu legado religioso, e a sua conexão com o Milagre Eucarístico de Bolsena (ocorrido em 1263) fato originário da proclamação da festa. O denominado Milagre de Bolsena deu origem à Bula Transiturus de Hoc Mundo, que instituiu esta festa nono-centenária. Diz a tradição que um padre da Boêmia (atual República Tcheca) chamado Pedro de Praga estava em peregrinação a Roma. Ele sofria com fortes dúvidas teológicas sobre a transubstanciação — a crença católica de que o pão e o vinho se transformam realisticamente no Corpo e Sangue de Cristo. Ao parar na cidade de Bolsena para celebrar a missa, no momento da consagração, a hóstia começou a sangrar, manchando o mármore do altar e o corporal (o pano de linho sobre o qual ficam o cálice e a hóstia). Urbano IV, que estava residindo na vizinha cidade de Orvieto, justamente fugindo das pressões e dos perigos de Roma, liderados por Manfredo da Sicília, quando soube do ocorrido, mandou investigar e ordenou que as relíquias do milagre fossem levadas para Orvieto. Impressionado pelo evento — e também influenciado pelas visões místicas que a freira Juliana de Cornillon tivera anos antes na Bélgica —, Urbano IV publicou a bula Transiturus de Hoc Mundo em 11 de agosto de 1264. Com ela, ele instituiu a festa de Corpus Christi para toda a Igreja Universal, fixada na quinta-feira após a oitava de Pentecostes (60 dias depois da Páscoa). Para dar peso teológico e poético à data, ele encomendou os textos da missa a ninguém menos que São Tomás de Aquino, o maior filósofo escolástico da época.
É curioso como esta festa se transformou com o passar dos séculos, dos séquitos medievais, caravanas nobres e cheias de manifestações estético-religiosas e de poder, aos tapetes de rua, em Portugal e no Brasil. Mas, para mim, a essência de Corpus Christi se tornou única porque, ao contrário de outras celebrações que ocorrem estritamente dentro dos templos, esta foi feita para ir às ruas, para uma igreja em saídas, alegoricamente, como séculos mais tarde afirmaria Francisco, o Papa do fim do mundo. Era a afirmação pública da fé. Na Idade Média, a procissão com o pálio (a cobertura sustentada por varas para proteger o sacerdote e o ostensório) e o clero ricamente vestido transformava as vilas. Para a passagem do "Rei dos Reis", as populações decoravam o chão com flores e ervas aromáticas. Em Portugal, e depois no Brasil, essa herança colonial portuguesa se transformou na belíssima tradição dos tapetes de serragem colorida, feita com pó de carvão, sal, borra de café e flores. Cidades históricas como Ouro Preto (MG), Paraty (RJ) e Matão (SP) atraem milhares de turistas e fiéis que passam a madrugada desenhando símbolos religiosos nas ruas. O famoso milagre de Bolsena fundamenta-se na narrativa religiosa de que a hóstia consagrada sangrava no altar. Essa narrativa perpetua-se em muitas cidades e chegou até o Brasil, em Juazeiro do Norte, protagonizada pelo Padim Ciço de Juazeiro, que eu já visitei e fiquei encantado. Em 1889, na capela de Nossa Senhora das Dores, em Tabuleiro do Catolé (hoje Juazeiro), a hóstia dada pelo Padre Cícero à beata Maria de Araújo transformou-se em sangue na hora da comunhão. O fenômeno repetiu-se dezenas de vezes. Embora a posição oficial da Igreja na época tenha sido de extrema cautela (e até de punição ao Padre Cícero, suspendendo suas ordens), para a religiosidade popular do Nordeste, o "milagre da hóstia" transformou Juazeiro no maior polo de peregrinação do país, mostrando como o mistério eucarístico move massas nove séculos depois de Urbano IV. Mas, tem muito mais embaixo desse tapete da história. No tempo de Urbano IV a Igreja Católica passava por uma profunda crise. Os bizantinos conquistaram Constantinopla e a internacionalização da coroa francesa ameaçava a hegemonia italiana e a Igreja. Enquanto a fé se expandia pela liturgia, o chão político de Urbano IV desmoronava. Em 1261, logo no início do seu pontificado, os bizantinos (liderados por Miguel VIII Paleólogo) retomaram Constantinopla, extinguindo o Império Latino que os cruzados ocidentais tinham fundado em 1204. Isso foi um golpe duro para o papado, que perdeu a chance de reunificar a Igreja sob o comando de Roma. Urbano IV governou com pulso firme e ampliou o colégio cardinalício, nomeando 14 cardeais, entre os quais 8 franceses, ampliando a força da França, abrindo espaço para o futuro Cisma de Avignon. Na política Urbano IV aproximou-se de Carlos de Anjou, irmão do rei da França, e o convidou a assumir o trono da Sicília (para derrotar Manfredo da Sicília, seu inimigo político e desafeto) e ao inundar o Colégio Cardinalício com 14 cardeais não italianos ou alemães, Urbano IV alterou o equilíbrio de poder. Ele livrou o papado da ameaça alemã/italiana imediata, mas amarrou o destino da Igreja à coroa francesa. Poucas décadas depois, essa dependência culminaria na mudança dos papas para Avignon (1309) e no Grande Cisma do Ocidente. Urbano IV foi, sem dúvida, um papa de transição: usou a diplomacia e a teologia como armas para tentar segurar um poder que se fragmentava diante do nascimento dos Estados nacionais europeus.
Urbano IV pegou uma Igreja acuada fisicamente e, sem nunca pisar em Roma como Papa devido às guerras civis locais, usou a burocracia, a diplomacia e a teologia para refundar o poder papal na Baixa Idade Média. Quando Urbano IV emite a bula Transiturus hoc mundo (1264), estabelecendo a festa universal de Corpus Christi, ele opera uma verdadeira revolução, de dentro para fora, pois a procissão de Corpus Christi se torna a primeira grande manifestação litúrgica em que o próprio Cristo (na hóstia consagrada) sai do altar e vai até o povo, caminhando pelas ruas, passando em frente às casas e abençoando o cotidiano das cidades.