26/07/2026
TEXTOS DE FREUD
BREVES ESCRITOS (1915-1916)
UM PARALELO MITOLÓGICO COM UMA OBSESSÃO VISUAL (1916)
Num paciente com cerca de vinte e um anos de idade, os produtos da atividade mental inconsciente tornavam-se conscientes não apenas em pensamentos obsessivos, mas também em imagens obsessivas. Ambos podiam acompanhar-se mutuamente ou aparecerem independentemente. Numa ocasião específica, sempre que via o pai entrar no quarto, vinha-lhe à mente, em estreita relação, uma palavra obsessiva e uma imagem obsessiva. A palavra era ‘Vaterarsch‘ [‘father-arse‘ (â**s do pai)]; a imagem concomitante representava o pai com a parte inferior de um corpo despida, provida de braços e pernas, mas sem a cabeça ou qualquer outra parte superior. Não havia indicação dos órgãos genitais e as feições do rosto apareciam pintadas no abdome.
Ajudará à explicação desse sintoma, mais absurdo do que o comum, a menção de que o paciente, homem de intelecto plenamente desenvolvido e elevados ideais morais, manifestou um erotismo a**l muito vívido, das mais variadas formas, até os dez anos de idade. Superado isso, sua vida sexual foi mais uma vez forçada a voltar à fase a**l preliminar devido à sua luta ulterior contra o erotismo ge***al. Ele amava e respeitava muito o pai, e também o temia bastante; contudo, a julgar por seus próprios altos padrões no tocante ao ascetismo e à supressão dos instintos, o pai lhe parecia uma pessoa inclinada à devassidão e à busca do prazer em coisas materiais.
A palavra ‘Vaterarsch’ logo foi explicada como uma germanização jocosa do título honorífico de ‘Patriarch‘ (patriarca). A imagem obsessiva é uma caricatura evidente. Lembra outras representações que, tendo em vista um fim depreciativo, substituem toda uma pessoa por um de seus órgãos, por exemplo, os órgãos genitais; também nos faz recordar fantasias inconscientes que levam à identificação dos órgãos genitais com a pessoa toda, e também jocosas figuras de linguagem, como ‘Sou todo ouvidos’.
De início, a colocação das feições do rosto no abdome da criatura me pareceu algo muito estranho. Mas logo me lembrei de ter visto a mesma coisa em caricaturas francesas. O acaso me levou então a uma representação antiga, que coincidia exatamente com a imagem obsessiva do meu paciente.
De acordo com a lenda grega, Deméter dirigiu-se a Elêusis em busca da filha raptada, tendo sido recebida como hóspede por Dysaules e sua esposa Baubo; mas em sua grande dor recusou-se a tocar em qualquer alimento. Logo depois, sua anfitrioa Baubo fê-la rir levantando subitamente o vestido e expondo seu corpo. Um exame dessa anedota, que provavelmente se destinava a explicar um cerimonial mágico que já não era compreendido, encontra-se no quarto volume da obra de Salomon Reinach, Cultes, Mythes, et Religions, 1912 [115]. No mesmo trecho, o autor menciona que, no correr das escavações em Priene, na Ásia Menor, foram encontradas algumas terracotas que representavam Baubo. Mostram o corpo de uma mulher sem a cabeça ou o peito, com o rosto desenhado no abdome: o vestido erguido emoldura esse rosto como uma coroa de cabelos (ibid., 117).
UMA LIGAÇÃO ENTRE UM SÍMBOLO E UM SINTOMA (1916)
A experiência na análise dos sonhos estabeleceu suficientemente bem o chapéu como um símbolo do órgão ge***al, mais freqüentemente do órgão masculino. Não se pode dizer, contudo, que o símbolo seja inteligível. Nas fantasias e em numerosos sintomas, também a cabeça aparece como um símbolo dos órgãos genitais masculinos, ou, se assim se prefere dizer, como algo que os representa. Algumas vezes, ter-se-á observado que pacientes que sofrem de obsessões expressam uma dose muito maior de abominação e de indignação contra pena pela decapitação do que por qualquer outra forma de morte; em tais casos o a**lista pode ser levado a lhes explicar que estão considerando a decapitação como um substituto da castração. Já foram a**lisados e publicados numerosos casos de sonhos de pacientes jovens ou relatados como tendo ocorrido na juventude, que diziam respeito ao assunto da castração, nos quais era mencionada uma bola redonda que só poderia ser interpretada como a cabeça do pai daquele que sonhou. Recentemente, fui capaz de solucionar um cerimonial realizado por uma paciente antes de ir dormir, no qual ela tinha de colocar o pequeno travesseiro superior disposto em forma de losango sobre os outros, e de repousar a cabeça exatamente no sentido da diagonal maior. O losango tinha o significado que os desenhos nas paredes [grafitos] nos tornou familiar; a cabeça supostamente representava um órgão masculino.
Pode ser que o significado simbólico do chapéu provenha do da cabeça, na medida em que um chapéu possa ser considerado como um prolongamento da cabeça, embora destacável. Com relação a isso, recordo-me de um sintoma por meio do qual neuróticos obsessivos conseguem causar a si próprios tormentos contínuos. Quando estão na rua, ficam constantemente de sobreaviso para ver se algum conhecido os cumprimenta primeiro tirando o chapéu, ou se parece estar esperando pelo cumprimento deles; e cortam relações com grande número de seus conhecidos após descobrirem que não os saúdam mais ou não retribuem sua própria saudação de maneira apropriada. No que diz respeito a isso, suas dificuldades não têm fim; encontram-nas por toda parte conforme seu estado de ânimo e sua fantasia. Não alteram seu comportamento quando lhes dizemos, o que todos eles já sabem, que uma saudação mediante o ato de retirar o chapéu tem o significado de uma humilhação perante a pessoa cumprimentada - que um grande do reino de Espanha, por exemplo, gozava do privilégio de permanecer com a cabeça coberta na presença do rei -, e que sua própria sensibilidade no tocante à saudação significa, portanto, que estão pouco dispostos a demonstrar que são menos importantes do que a outra pessoa julgar ser. A resistência de sua sensibilidade a explicações como essa sugere que um motivo menos familiar à consciência está em ação; e a fonte desse sentimento exagerado pode ser facilmente encontrada em sua relação com o complexo de castração.
CARTA À DRA. HERMINE VON HUG-HELLMUTH (1919-[1915])
O diário é uma pequena jóia. Realmente acredito que jamais foi possível obter uma visão tão nítida e verdadeira dos impulsos mentais que caracterizam o desenvolvimento de uma jovem em nosso meio social e cultural durante os anos que precedem a puberdade. Temos a indicação de como seus sentimentos desabrocham de um egoísmo infantil até alcançarem a maturidade social; aprendemos que forma assumem inicialmente suas relações com os pais e com os irmãos e irmãs, e como gradativamente ganham em seriedade e sentimento interior; como as amizades são feitas e desfeitas; como sua afeição vai tateando no sentido de seus primeiros objetos; e, acima de tudo, como o segredo da vida sexual começa a despontar indistintamente, adquirindo então plena posse da mente da criança; como, na consciência de seu conhecimento secreto, ela inicialmente sofre, mas pouco a pouco supera isso. Tudo é expresso de modo tão encantador, tão natural e tão sério nessas notas despretensiosas, que elas não podem deixar de despertar o maior interesse em educadores e psicólogos… É seu dever, julgo eu, publicar o diário. Meus leitores lhe ficarão gratos por isso.