Baú de Retratos

Baú de Retratos Crônicas que retratam 8 décadas de história, vivendo e participando das mudanças do Brasil.

É comum vermos em nossas cidades grandes avenidas ou praças homenageando a figura de Getúlio Vargas. A cidade de Machado...
20/08/2026

É comum vermos em nossas cidades grandes avenidas ou praças homenageando a figura de Getúlio Vargas. A cidade de Machado não tem um logradouro sequer em sua homenagem. A homenagem máxima foi uma ponte de arcos de concreto com o nome de Valadares. Interventor Benedito Valadares em Minas.

A ponte cruza o rio Machado e marcava na década de 50 o perímetro urbano. O bairro na época era pouco povoado e marcava a entrada da cidade para quem chegava de Poço Fundo e Carvalhópolis. Neste pequeno bairro tinha uma pequena venda de propriedade de Zé Pedro. Apesar de pequena, a venda ocupava um lugar estratégico e por isso era bem frequentada.

Zé Pedro era gordo, muito peludo e gostava de uns goles. Às vezes dedilhava o violão animando a freguesia. Era ano de eleição e os fregueses já meio altos, incentivaram o nosso personagem a se candidatar a vereador. Ele topou e andou até distribuindo na conta da campanha umas doses de cachaça com umas lascas graúdas de mortadela.

Venda cheia, freguesia animada e a patroa do Zé Pedro esquentando a barriga no fogão no preparo de uns petiscos.

No dia da eleição, 3 de outubro, uma sexta feira, Zé Pedro levantou cedo, vestiu a melhor roupa, um terno de brim caqui, e sua mulher colocou um vestido de chita. Chegaram no belo prédio do Grupo Escolar D. Pedro II logo que a sessão eleitoral foi aberta. Votaram. Zé Pedro permaneceu rondando a Praça Antônio Carlos, conversando com muitos conhecidos, fazendo uma boca de urna. Sua esposa voltou para o bairro da ponte cuidando dos afazeres domésticos.

Às 5h da tarde a eleição foi encerrada e as urnas foram levadas para o fórum para a devida apuração. Às 10h da noite acabou a apuração eleitoral. Zé Pedro desce quase correndo para casa, irrompe sala à dentro, pega um rabo de tatu e tira a mulher da cama com um punhado de lambadas nas costas da coitada. Ela gritava com ele tentando pará-lo. Ele continuava chicoteando-a com o rabo de tatu, acusando-a de não ter votado nele. E ela, jurando que tinha votado nele sim, e ele, furioso afirmando que só teve UM VOTO. Ela continuou jurando que votou no marido e esbravejando contra a freguesia que bebeu e comeu às custas dele durante algumas semanas. Zé Pedro não abriu a venda da ponte nem no sábado e nem no domingo. Quando abriu a venda na segunda, poucos fregueses apareceram e ninguém, mas ninguém, ousava puxar assunto sobre eleição. O rabo de tatu repousava sobre o balcão.

Creio que lá pelos anos 20 do século XX, João Custódio, casado com a tia Chiquinha, irmã do meu avô Lourenço José Gonçal...
13/08/2026

Creio que lá pelos anos 20 do século XX, João Custódio, casado com a tia Chiquinha, irmã do meu avô Lourenço José Gonçalves, adquiriu o primeiro automóvel. Não sei se foi o primeiro de Machado ou o primeiro do bairro Cachoeirinha.

João Custódio começou com uma modesta fazenda e foi enchendo-a de cafezais. Era muito trabalhador. Chegava a capinar café à noite usando um lampião à querosene para iluminar as ruas da lavoura. O passo seguinte foi ampliar suas terras, beneficiado pelos bons preços do café. Chegou a possuir uma casa em Santos para facilitar a exportação e escritório nos Estados Unidos para venda de seu produto naquele país.

No auge de sua riqueza adquiriu uma grande fazenda de café no longínquo município Paulista de Jaú. Aproveitando o período das vacas gordas, adquiriu na capital federal, Rio de Janeiro, a grande sonho de consumo da alta burguesia, um automóvel.

Mandou, do Rio, um mensageiro, para que se preparasse uma grande festa em sua fazenda para comemorar a chegada do primeiro carro. Muita gente, entre a parentada, amigos e fazendeiros, foi convidada. Destaque para o seu sogro, meu bisavô Mizael José Gonçalves.

Quando o automóvel chegou, a grande festa estava preparada: muitos fogos, abundância de comidas como leitoas e frangos assados, doces os mais diversos.

Sua esposa, tia Chiquinha, ficou reçabiada, temerosa de se aproximar daquele carro que andava sozinho sem ser puxado por cavalos ou bois e produzia um ronco diferente. João Custódio procurou acalmá-la: "Chiquinha, o bicho é preto mas é manso". Todos se acalmaram e a festa continuou regada com muito vinho. A ocasião exigia.

Os convidados, começando pelos mais velhos, foram se despedindo para voltar para suas casas. O seu sogro, meu bisavó, ao se despedir dos anfitriões, foi convencido pelo genro a ir de automóvel com o seu chofeur.

Saíram. Minutos depois ouviu-se um forte barulho. O chover se atrapalhou, na escuridão do precário caminho de cavaleiros e carros de bois. Meu bisavô, Mizael José Gonçalves, morreu na hora, ficando para a história.

Desde os três meses até os 4 anos de idade, levamos semestralmente a nossa filha Mariana com síndrome de down à Clínica ...
06/08/2026

Desde os três meses até os 4 anos de idade, levamos semestralmente a nossa filha Mariana com síndrome de down à Clínica N.S. da Glória no Rio. Em uma das vezes levamos também o Eduardo com a Flávia, irmãos adolescentes, para conhecer todo trabalho e também conhecer um pouquinho da Cidade Maravilhosa.

Chegou o momento que o Eduardo não podia mais participar dos exercícios com a Mariana. Ele tinha que se preparar para o vestibular, começamos então procurar uma escola inclusiva. Inclusão era ainda muito desconhecida. Quando a Mariana nasceu era comum crianças com deficiência serem privadas do convívio social. A nossa filha não nasceu para pagar pecado. Decidimos que ela participaria conosco de todas as nossas atividades sociais.

Procuramos várias escolas particulares e públicas e todas tinham o mesmo argumento para rejeitar a matrícula: não estavam preparadas física e profissionalmente para recebê-la. Nos indicaram depois a Aquarela, escola construtivista, dirigida pela Fátima Magalhães (Fafá), esposa do noso médico endocrinologista, dr. Ricardo. Lá a Mariana, com cinco anos, foi bem acolhida pelas crianças, professoras e direção.

Logo nas primeiras semanas, a Aquarela nos chamou para uma reunião extraordinária de pais para tratar da inclusão da nossa filha. Chegamos apreensivos. A mãe de uma criança tinha solicitado a reunião com a intensão de excluir a Mariana, já que a filhinha dela queria ser igual à Mariana. Jacob, um pai de aluno, interveio: "fomos chamados aqui para isso?"

A criança em questão estava enciumada porque até então ela é que ficava mais próxima da professora, já que era a menorzinha. A Mariana, chegando, precisava de maior atenção da professora.

Na Aquarela, a Mariana participava de todas as atividades: pintura, desenho, dança, quadrilha, festa junina, etc . A Mariana criava palavras para se comunicar: bá, era a Flávia ou qualquer moça, tobiai era o Eduardo ou qualquer moço. Chamava cabelo de luquinhai. Sempre foi fissurada em cabelos, principalmente os compridos. A Aquarela resolveu montar um circo com as crianças. . O nome dado ao circo pelos coleguinhas foi LUQUINHAI.

A inclusão nesta escola foi maravilhosa até ela completar dez anos. Depois disso não quis mais saber da Aquarela: "Quaéia chata".

Procuramos outras escolas como alternativas. Uma professora do Grupo Escolar Levindo Lambert, Eliete Vilhena, aceitou a Mariana, mas não durou muito. Procuramos então o Colégio Sagrado Coração de Jesus, dirigido por Freiras. A direção não aceitou a matrícula, alegando que ficaria muito caro porque precisaria contratar uma fonoaudiáloga. A Iná saiu chorando do Colégio.

A Selmara, uma professora, alugou uma sala desse Colégio de Irmãs para acolher crianças com deficiência. A Mariana foi aceita nesta sala. Era como um gueto dentro daquele Colégio.

Após alguns anos, a nossa filha foi matriculada na APAE. Nós, pais de crianças especiais, percebemos que os nossos filhos gostavam muito de artes, como música, dança, pintura, teatro, etc. Numa reunião de pais solicitamos que houvesse aulas de artes. A direção alegou que não iria contratar profissional dessa área, já que tinha tido problemas com uma professora de artes.

Um grupo de três casais se reuniu para dar um melhor encaminhamento aos nossos filhos.

Chegamos à clínica do dr. Raimundo  Veras para um curso e treinamento de duas semanas sobre estimulação precoce. Ficamos...
30/07/2026

Chegamos à clínica do dr. Raimundo Veras para um curso e treinamento de duas semanas sobre estimulação precoce. Ficamos confortavelmente hospedados no apartamento dos compadres Antônio Carlos e Janete no Parque Guinle, bairro Laranjeiras no Rio. Os compadres nos deram todo o apoio como se fôssemos irmãos.

Muitos casais de diversos estados e até de outros países da América Latina, com filhos portadores de deficiência neurológica, participavam do curso e treinamento da estimulação. Permanecíamos o dia todo na clínica com intervalo para almoço.

Dr. José Carlos Veras, médico, filho do médico Raimundo Veras, era então o diretor da clínica. Ele era tetraplégico por conta de um mergulho em Paquetá, quando se chocou com uma rocha e quebrou o pescoço.

As estimulações deveriam ser aplicadas durante cerca de oito horas por dia, seis vezes por semana. Elas deveriam desenvolver a capacidade motriz, capacidade manual, linguagem e a capacidade dos sentidos: visão, audição, olfato, tato e paladar.
Voltamis para Alfenas e envolvemos a família inteira (pai, mãe, filho Eduardo, filha Flávia, os dois com 11 e 10 anos respectivamente). Participavam ainda a d. Nega, colaboradora da casa, e sua filhinha Mauricéia de 6 anos.

Todos da casa no entanto tinham as suas atividades normais. Eu professor, a Iná orientadora educacional, Eduardo e Flávia faziam o Ensino Fundamental. Dona Nega estava nos afazeres domésticos. Para a parte motora, a estimulaçao era a movimentação de todas as partes do corpo da Mariana. À medida que a estimulação acontecia, os estimuladores iam verbalizando o tipo de exercício executado.

Para cada sentido eram apresentados vários estímulos. VISÃO: objetos de cores diferentes, figuras de flores, animais, sempre citando a cor, a figura representando o animal. AUDIÇÃO: diversos estilos musicais gravados, vários ruídos como palmas, passos no assoalho de madeira, portas batendo, etc.
TATO: toque na pele com vários tipos de textura: lã, linho, madeira, metais, lixas diferentes, quentes, frios, gelados. PALADAR: Vários sabores oferecidos como azedo, doce, amargo, chás, café, leite, chocolate. OLFATO: Os vários odores eram apresentados simultaneamente com o paladar.
Para estimular o rastejar e o engatinha, um escorregar foi feito por um marceneiro e colocado na sala da casa. O escorregador poderia ser graduado com diferentes inclinações. Um túnel de madeira medindo em torno de 4 metros também foi instalado na sala para estimular a Mariana rastejar e engatinhar.

Cada estimulação era executada por duas pessoas. Parava só para as refeições, o banho, um soninho e higiene pessoal. Revezavam na estimulação um dia o Eduardo e no outro a Flávia e os demais participavam todos os dias.

Até aquele 14 de março de 86, nem eu e nem a Iná jamais tínhamos convivido com pessoas com essa síndrome. Eu conhecia as...
23/07/2026

Até aquele 14 de março de 86, nem eu e nem a Iná jamais tínhamos convivido com pessoas com essa síndrome. Eu conhecia as características biológicas e mais nada. Por outro lado, sabíamos que precisaríamos de ajuda de profissionais especializados tais como psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, pediatras.

Logo nos primeiros dias procuramos uma psicóloga em Alfenas que nos indicou uma fonoaudióloga em Poços de Caldas. Elas já nos adiantaram que a Mariana iria engatinhar, andar, falar, brincar, etc, como toda criança, mas necessitaria de uma estimulação mais específica. Disseram ainda que existiam instituições preparadas para nos orientar. A fono de Poços só nos pediu que não procurassem a clínica do dr. Raimundo Veras no Rio. Questionei o porquê desse conselho e a resposta: esta clínica recomenda estímulos com intensidade exagerada. Saímos de Poços decididos a procurar informações sobre a clínica desaconselhada.

Semanas depois aparece na casa dos meus sogros em Silvianópolis, onde estávamos, a Enilda, estudante de Psicologia da UNIFENAS, conterrânea da Iná. Ela ficou sabendo do nascimento da Mariana. Levou pra gente um livro para tratamento de crianças com a síndrome de Down: “O MONGOLISMO - Tratamento da Criança de Cérebro Lesado”, cujo autor é dr. Raimundo Veras. Ela era entusiasta do método usado pela clínica N. S. Da Glória, dirigida então pelo filho do dr. Raimundo Veras, dr. José Carlos Veras, médico pediatra.

Entramos então em contato com o casal Antônio Carlos (colega de república) e Janete, nossos compadres e grandes amigos, residentes no Rio. Janete procurou a Clínica N. S da Glória, a fim de obter mais informações sobre a mesma, principalmente em relação ao método utilizado.
Na segunda quinzena de junho, dentro de um Fiat 147, o casal com a bebezinha Mariana, se deslocava até o Rio. Na época não existia ainda o GPS e nem algo semelhante. Os nossos amigos compadres ofereceram o apartamento deles por duas semanas. Quando chegamos, eles tinham viajado para Pouso Alegre, deixando as chaves com o porteiro do prédio. Eu conhecia pouco das vias públicas do Rio de Janeiro. Sabia o rumo de alguns bairros.
Para chegar ao Parque Guinle, nas Laranjeiras, no apartamento dos compadres, cheguei pela Av. Brasil, peguei o rumo ao aterro do Flamengo. Lá, dobrei à direita e segui reto até uma praça. Parei e perguntei onde era o Parque Guinle. O transeunte apontou para um portão em frente dizendo que era ali. Naquela noite da chegada, acho que um força sobrenatural fez o papel do GPS.

No sábado ocupamos o apartamento da família amiga e no domingo saímos à procura da clínica do dr. Raimundo Veras. Na segunda feira chegamos cedo e, durante duas semanas, frequentamos um curso sobre a metodologia usada pela clínica, baseada na estimulação intensa da criança.

Em 1932, estourava a Revolução Constitucionalista. De um lado os paulistas, do lado oposto todos os demais estados, prin...
16/07/2026

Em 1932, estourava a Revolução Constitucionalista. De um lado os paulistas, do lado oposto todos os demais estados, principalmente Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Getúlio era gaúcho sendo apoiado por Minas e se sentia traído pelo paulista presidente Washington Luiz. As batalhas ocorreram especialmente nas fronteiras entre Estado de São Paulo e os seus Estados confrontantes.

João Evangelista era carreiro do meu pai. Recebeu a notificação de convocação pelas tropas federais sediadas em Minas. Não se apresentou e fugiu, escondendo-se nas matas dos Gonçalves, município de Poço Fundo. O pai dele foi pressionado a entregar o filho. Ficou até o fim da revolução e seu papel era enterrar os mortos nas batalhas. Voltou vitorioso e reassumiu o papel de carreiro, bem mais pacífico.

Meu avô paterno morava no bairro rural da Cachoeirinha, distante uns 20 Km de Machado, sede do município. Minha avó paterna, Maria Cleopha de Lima, conhecida como Mariquinha, caiu doente. Como era costume na época, mandaram o filho Argeu, com cerca de 20 anos, pegar o cavalo e ir à Machado, recitar os sintomas ao boticário e adquirir os medicamentos indicados.

Enquanto o meu tio Argeu encaminhava o pedido, foi decretado estado de sítio em Machado. Ninguém podia sair e nem entrar na cidade. Foi em vão os argumentos do meu tio às autoridades revolucionárias. Desesperado com a situação (de um lado a mãe passando mal lá na roça e do outro lado, as forças militares impedindo-o de levar os medicamentos), pensou, pensou... pensou duas, três vezes... e decidiu: "vou pegar uma trilha que pouca gente conhece e vou galopar por ela". Assim fez ele. Quando os militares perceberam a esperteza daquele moço desesperado, ainda atiraram, mas ele conseguiu chegar com os remédios que salvariam a sua mãe.

Bertolino de Carvalho, tio Taíno da minha esposa, era um jovem de 20 e poucos anos que cursava Odontologia em Juiz de Fora. Foi convocado pelas tropas mineiras para se integrar à revolução. Getúlio, por decreto, havia declarado todos os estudantes aprovados em seus cursos. Assim, Tio Taíno, se tornara dentista.

Apresentou-se às forças militares que atuavam no túnel ferroviário da Mantiqueira que ligava Cruzeiro, em São Paulo, à Passa Quatro, em Minas Gerais. O jovem médico Juscelino Kubitscheck, Capitão-Médico do Força Pública de Minas Gerais, lutava na mesma trincheira.

Naquela tensão, à noite, dentro da trincheira mineira, diante da trincheira Paulista, o jovem e irreverente Bertolino, saca o violão, vai dedilhando e inicia uma canção de seresta. Os companheiros, apavorados, impõem-lhe silêncio. O Capitão JK interfere e pede que ele continue. Com aval tão graduado, todos os combatentes mineiros acompanham o dentista irreverente. Em sequência, para surpresa de todos os revolucionários, os paulistas também acompanharam a mesma cantoria. Naquela noite houve paz.

Estava dedicado a fazer experimentos  como professor de Ciências em Osasco, na Escola Estadual João  Larizatti. Assim qu...
09/07/2026

Estava dedicado a fazer experimentos como professor de Ciências em Osasco, na Escola Estadual João Larizatti. Assim que casei, Guilherme, meu padrinho de casamento e grande amigo desde o Juvenato de Adamantina, me convidou para ocupar o seu lugar no GEPE (Escola Experimental) da Lapa. Lá fui eu. Escola muito séria que me ensinou a fazer um planejamento das aulas.

Estava indo muito bem até 1975/76, quando a direção da Escola resolveu fazer um expurgo de professores que se posicionaram abertamente contra a Ditadura Militar. Um por um foi chamado pela Diretora e, com uma desculpa esfarrapada, ia dispensando o professor. Chegando a minha vez, a diretora disse que o meu trabalho com os alunos era muito bom, mas o meu relacionamento com a direção deixava a desejar. Que eu poderia optar em pedir demissão ou continuar. Respondi que o que me interessava era o trabalho com os alunos. Continuei na Escola.

Em 1974 fui convidado a fazer um teste admissional no grupo Equipe Vestibulares. Participei da seleção, e antes da contratação, questionei sobre a ausência de alguns professores. Eu tinha frequentado anos antes o Cursinho do Grêmio, do qual nasceu o Equipe. Eu só assumiria as aulas depois de saber dos motivos da "demissão" daqueles que tinham sido meus professores.

Cheguei a colocar ao Coordenador que se ele não me dessa esta informação, eu não assumiria as aulas. Diante da minha recusa, ele confessou que tinha um grupo de 5 ou 6 professores presos na OBAN (Operação Bandeirantes- Órgão de informação, investigação e tortura, precursor do DOI-CODI). Ele me garantiu que nenhum deles era da área biológica. Eram professores de História, Geografia e OSPB.
Assumi então as aulas e vim a saber que este grupo de professores tinha alugado um apartamento na rua Augusta, próximo ao Equipe que funcionava no antigo Sion, colégio de freiras. Eles pretendiam escrever um livro para ser usado no colégio. Como eles davam aula até às 23h30min, se reuniam então à meia noite no referido apartamento. Algum morador os denunciou já que se reuniam num horário suspeito e eram jovens em sua maioria cabeludos e barbudos.

Foram torturados e ficaram com sequelas traumáticas para o resto da vida. Eu estava de janela (sem aula) num determinado horário na sala de professores quando o Lima (professor de geografia) adentrou transtornado na sala, jogou as apostilas e livros sobre a mesa e soltou um estrondoso palavrão. Procurei acalmá-lo até que ele me contou o motivo. Estava ministrando a sua aula quando começou a citar as classes econômicas produtivas e improdutivas. Como exemplo da última, citou o exército. Um aluno muito alto e forte no fundo da sala se levantou e disse que discordava. Lima perguntou o porquê e veio a resposta assombrosa: "Por que eu sou da OBAN". Lima saiu da sala transtornado. Eu o acalmei: mentira dele, é um gozador. Ele sabe que você foi preso e torturado e quis te dar um susto. Que SUSTO, hein?!

Futebol é um tipo de competição que envolve, além dos atletas, dezenas de profissionais da área, centenas  de clubes e p...
06/07/2026

Futebol é um tipo de competição que envolve, além dos atletas, dezenas de profissionais da área, centenas de clubes e países, milhares de jornalistas, cinegrafistas e repórteres e ainda milhões de torcedores, apostadores, etc. As guerras envolvem também milhões de pessoas. As duas atividades envolvem violência, patriotismo, fanatismo e muita grana.

Em 1969, durante as eliminatórias da copa de 70, uma partida de futebol entre El Salvador e Honduras foi palco de uma violência muito grande que culminou numa guerra entre os dois países. Honduras havia expulsado imigrantes salvadorenhos ilegais. Em decorrência, El Salvador invadiu Honduras que tinha sido eliminada da Copa.

Esta guerra durou 100 dias e foi resolvida com a intermediação da OEA (Organização dos Estados Americanos), ficando conhecida como a GUERRA DO FUTEBOL.

Por outro lado, o futebol foi usado para estabelecer uma trégua em alguns conflitos. Em 1969 o Santos de Pelé foi jogar na Biafra em guerra pela independência. Foi decretada uma trégua na guerra para que a população pudesse assistir o Santos de Pelé.

Em 2004 a seleção brasileira, pentacampeã, participou de uma partida no Haiti com o objetivo de pacificar o país. Os ingressos eram trocados por armas.

O futebol, com as regras e nomenclatura como conhecemos hoje, nasceu na Inglaterra em 1863. Football (bola com os pés) já era conhecido desde a antiguidade em vários lugares de forma bem simplificada, inclusive na América pré-colombiana.
Como no século XIX a Inglaterra era o país mais poderoso e belicoso do planeta, era natural que a nomenclatura deste esporte remetesse ao vocabulário de guerra.

Assim ZAGA e ZAGUEIRO se refere a retaguarda da tropa na guerra. ATAQUE é a linha de frente. ARCO e ARQUEIRO, no exército se refere ao arco que atira a flecha. No futebol é o goleiro. TIRO de canto, TIRO direto ou indireto. PENALIDADE MÁXIMA é a pena de morte. TIRO livre, TIRO de meta, DEFESA, MORTE SÚBITA, VOLANTE (tropa que se movimenta). Até a bola é esférica como a maioria das balas de canhão. ARTILHEIRO na guerra é o responsável por manejar as armas mais pesadas e que mais atira nos inimigos.
E, para encerrar, Pepe, o santista das copas de 58 e 62, era conhecido como o CANHÃO da Vila.

A ditadura nazi-fascista, contou com a colaboração meio forçada de professores. Muitos professores tendiam a ser arbitrá...
02/07/2026

A ditadura nazi-fascista, contou com a colaboração meio forçada de professores. Muitos professores tendiam a ser arbitrários, graças ao direito de cátedra. Para agravar, os professores eram obrigados a delatar colegas judeus ou quem divergisse do regime.

Isso aconteceu na Europa dos anos 30 e 40. Aqui foi diferente. Muitos professores até apoiaram o regime militar, mas um grande número se opuseram, de forma até contundente. Esses últimos foram muito perseguidos.

O GEPE era uma escola experimental que desenvolvia projetos educacionais para o estado de São  Paulo. Fui professor lá de 1974 a 1977. Poucos anos antes, um professor foi preso na saída da sala de 5a série, no meio dos alunos.

Em 74 uma orientadora educacional do mesmo GEPE e seu marido, empresário conceituado e bem sucedido, ficaram presos durante algumas semanas. Olhe bem a razão:  trabalhavam na campanha eleitoral, para deputado, de Alberto Goldman. Pertenciam à colônia judaica de São Paulo. Nos anos seguintes, Goldman foi deputado estadual, federal, vice governador, governador e  ministro dos transportes

Outro caso aconteceu em Guarulhos com um professor de OSPB (Organização  Social e Política Brasileira), matéria criada pela ditadura para doutrinar os alunos. Este professor deu uma tarefa para casa sobre a Guerra do Vietnã. Um dos alunos do antigo ginasial estava pesquisando em casa, quando seu pai, oficial do exército, interrogou o filho sobre a tarefa. No dia seguinte o professor foi preso ficando um longo tempo desaparecido.

Um caso tragicômico: numa escola estadual de Osasco, os agentes do DOPS chegaram e questionaram o diretor sobre a presença de determinado professor. O diretor solicitou um tempinho para chamar o professor. Dirigiu-se então rapidamente à sala que o professor ministrava aula, avisou-o da situação. Imediatamente o professor pulou pela janela, evadindo-se pela rua do fundo. O diretor voltou à portaria, explicando aos agentes que o professor tinha "faltado" às aulas. Os policiais se deram por satisfeitos.

Nos anos de chumbo da ditadura militar tudo era censurado. Revistas e jornais tinham que passar pelos censores para só d...
29/06/2026

Nos anos de chumbo da ditadura militar tudo era censurado. Revistas e jornais tinham que passar pelos censores para só depois serem publicados. No final dos anos 70, surgiu em Alfenas um jornal feito por jovens estudantes universitários chamado UAI. O jornal tablóide era mensal. As diversas matérias, antes de serem publicadas, tinham que ser enviadas ao serviço de censura de Brasília. Só depois que chegassem de volta em Alfenas poderiam ser publicadas. Além de censurados, os artigos se tornaram desatualizados.

As publicações não podiam avisar que estavam sob censura. Ou seja, a própria palavra CENSURA era censurada. A Folha de São  Paulo não  enfrentou a censura aderindo totalmente à ditadura. Só abriu a guarda a partir do momento em que o General Ernesto Geisel anunciou um processo de abertura geral e irrestrita da ditadura.

O jornal Estado de São  Paulo foi um dos promotores da ditadura até a edição do AI5. Daí em diante, o Estadão usou artifícios para denunciar a censura. No lugar de fotos censuradas, publicava a foto de uma rosa. No lugar de textos censurados, inseria poemas de Camões ou receitas culinárias. Algumas vezes até  os poemas de Camões eram proibidos.

 O departamento de censura obrigou os periódicos a ceder uma sala para os censores trabalharem. O Estadão forneceu a sala, mas vazia, sem um móvel sequer.

A revista semanal Veja publicava, nos espaços dos artigos cortados, figuras diversas do diabo.
Millôr Fernandes, articulista da Veja, escreveu um texto invertido, de trás para frente, letra por letra. Quando a gente tentava ler parecia que tinha usado um código misterioso de letras.

O tablóide semanal Pasquim, surgido no final de 1969, era alternativo,  humorístico, irônico, sarcástico e engajado na luta contra a ditadura. Contava com uma equipe muito competente, já consagrada, de jornalistas, colunistas e cartunistas. Na véspera de uma edição, todos os colaboradores foram presos e interrogados pelo DOPS. O jornaleco continuou sendo editado normalmente por intelectuais e artistas simpatizantes. Em todas as colunas, os "novos" jornalistas justificaram a ausência  dos presos como  “estando  gripados".

Endereço

Avenida Afonso Pena, 201
Alfenas, MG

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