04/10/2021
A maioria dos professores são basicamente tradicionais, entretanto, as vezes sentem-se "obrigados" a dizer que são construtivistas [...]
Sabemos que, por um lado as práticas tradicionais geralmente são organizadas e impostas pelas escolas, o que leva os professores a fazerem uso delas, e por outro, quando praticam o construtivismo o fazem para serem valorizados ou atenderem as expectativas da sociedade contemporânea.
Logo, "tradicional" passou a ser um insulto, evocando a poeira das antigas práticas pedagógicas. Mas não é bem assim!
Um professor é rotulado como tradicional, quando utilizam os mesmos métodos pedagógicos das gerações passadas, porém vale a pena refletir sobre esse argumento.
Primeiro, nenhum professor consegue ensinar como faziam outrora, visto que muitas coisas mudaram, e segundo, o argumento não corresponde à realidade histórica.
Costumam dizer que é tradicional o professor que ministra aulas expositivas e alunos passivos. Esse metódo não é tradicional, e sim um desvio ocorrido no século XX, a pedagogia tradicional solicita muito a atividade do aluno, que no ensino primário, faz exercícios e no ensino médio secundário, redige versões, temas e dissertações.
A característica do método tradicional é o professor explicando o conteúdo (teorias) da aula e as regras das atividades e o aluno aplica o que lhe foi ensinado, ou seja, primeiro vem o saber (apropriação do conteúdo) e as regras, para depois, o aluno realizar a atividade (prática para aquisição do conhecimento).
Partindo dessa concepção, o construtivismo opera, de fato, uma ruptura fundamental. Porém ser construtivista não significa, como muitos pensam, ou falam sem pensar, ser uma prática moderna, dinâmica, inovadora... Como se toda inovação fosse boa inicialmente.
Piaget, um dos pais do construtivismo, mostrou que as estruturas intelectuais, da mais simples à mais complexa, são construídas e transformadas pela atividade da criança e do adolescente.
Devemos levar em consideração também os aportes de Vygotsky, onde ressalta que a criança nasce num mundo onde lhe preexistem significações (palavras-conceitos), que devem ser transmitidas às crianças e apropriadas por elas. (Vygotsky, 1987).
Podemos deduzir assim que, a função do professor não é apenas acompanhar os alunos em processos construtivistas, mas também, de forma mais "tradicional", pôr em circulação significações desconhecidas pelo aluno.
Por isso que, só a atividade intelectual dos alunos não os leva aos saberes sistematizados e institucionalizados. Sempre chega um momento em que os professores (as) devem substituir, completar, propor reflexão às palavras criadas pelos alunos, por aquelas aceitas pela comunidade científica.
O fundamental da discussão não é saber (ou classificar) se um professor é "tradicional" ou "construtivista", mas sim, como ele resolve duas tensões inerentes ao ato de ensinar e educar.
Já que ensinar é, ao mesmo tempo, mobilizar a atividade dos alunos para que construam saberes e transmitir-lhes um patrimônio de saberes sistematizados legado pelas gerações anteriores de seres humanos. A aprendizagem nasce do questionamento (construção) e leva a sistemas constituídos (tradição).
Demétrius Pecoraro
(Baseado no capítulo "O professor na sociedade contemporânea: um trabalhador da contradição", da obra de Bernard Charlot)